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Quem é criminoso de guerra nos Bálcãs? Imprimir E-mail
Escrito por Milton Temer   
Terça, 31 de Maio de 2011
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A forma desmesurada com que os telejornais – não só no Brasil, mas também a normalmente discreta e isenta BBC, assim como os norte-americanos – entraram na divulgação da prisão de Ratko Mladic, comandante do exército sérvio durante a guerra dos Bálcãs, obriga uma reflexão mais séria sobre o tema.

 

Ratko Mladic não é um raio em céu azul de uma região até então tranqüila; não é um genocida psicopata que aparece do nada e desanda a eliminar populações. Ele é produto de uma tradição de confrontos religiosos e étnicos que marcou a região durante o século XX, com exceção do período em que Tito, vivo, consolidou a Iugoslávia unificada.

 

E Tito tinha essa força política por conta de uma liderança forjada em duas frentes violentíssimas durante a II Guerra Mundial. Croata, comandava a guerrilha comunista de resistência à invasão nazi-fascista dos exércitos de Hitler e Mussolini, cujos regimes tinham ampla aceitação entre seus compatriotas. Resistência de massa, quem fazia eram os sérvios, que já lutavam contra os nazistas organizando o pós-guerra socialista, distintamente dos maquisards franceses e dos partigiani italianos. Por isso, inclusive, sempre teve total independência em relação aos movimentos de Stalin, o que não ocorria com comunistas franceses e italianos.

 

Os problemas começam com a morte de Tito em 1980. Ao invés de uma chefia de Estado, com um presidente ou um primeiro-ministro eleito pelo voto direto de todos os iugoslavos, os sérvios – preocupados com a manutenção da Iugoslávia unificada – abriram mão dessa disputa, onde teriam ampla vantagem pela sua superioridade populacional sobre todas as outras etnias e nações juntas. Propuseram e avalizaram uma rotatividade entre todas as representações. Cada mandato teria presidente de uma das etnias.

 

Não funcionou, porque Croácia e Eslovênia – as que tinham aberto as portas dos Bálcãs ao nazi-fascismo da II Guerra – se empenharam no descompromisso com o regime socialista auto-gestionário, começando a buscar seus contatos e seus apoios entre as potências ocidentais.

 

Com o fim da União Soviética, soltam as amarras e partem para a separação, com hostilidade às populações sérvias em seus territórios, contra o que o governo sérvio reage.

 

Vale ressaltar aqui que, se o genocídio nos Bálcãs tem data inicial de ocorrência, se deu contra os sérvios na II Guerra Mundial – na ordem de 350 mil mortos – sob as botas da milícia fascista croata, os sustachi, que concorriam em ferocidade com as tropas das SS. Tinha por que temer a ação croata contra os seus que viviam na região.

 

Diante da reação sérvia, a OTAN entra no jogo, bombardeando brutalmente a Bósnia. Daí em diante, foi o Deus nos acuda. Todos contra todos, muito embora sobre os sérvios – por seu passado sempre pró-Rússia, dos czares ou dos sovietes – terminem por cair todas as acusações desse bizarro Tribunal de Haia, que sempre opera na direção dos interesses do Departamento de Estado americano e do Pentágono, sem que seja sequer reconhecido pelos Estados Unidos.

 

Nesse contexto, se os sérvios são levados ao banco dos réus, em todos os lados – inclusive nos comandos da OTAN –, têm de ser buscados os criminosos de guerra nessa sofrida região, caso se queira alguma justiça com isenção.

 

Como ilustração, sugiro que se busque no portal da GloboNews a reportagem exibida pelo Jornal das 6, de 26 de maio, em que Silvio Bocanera entrevista civis de uma região onde Mladic é tratado como herói. Apavorante para os habitantes, conforme revelam ao vivo as entrevistas de rua, é a ameaça dos bombardeios da OTAN sobre populações civis locais.

 

Milton Temer é jornalista.

 

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Última atualização em Sábado, 04 de Junho de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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