Anjos Bons

 

O povo baiano já definiu uma forma carinhosa de se dirigir a Ir. Dulce: Anjo Bom.

 

É bom lembrarmos que aqui é a Bahia de todos os Santos, também de todos os demônios.

 

Dulce foi uma pessoa mais contraditória do que parece à primeira vista. Dedicou-se de corpo e alma, com todas as suas forças, a dar alguma dignidade aos que viviam e vivem na miséria em Salvador. Isso mesmo, a belíssima cidade ainda guarda pobreza em quantidade, mesmo que já não exista mais Alagados e tantas outras paisagens infames.

 

Nunca se preocupou de onde vinha o dinheiro para seu trabalho. Se necessário, pedia aos donos do poder. Por isso, eles fizeram questão de aproximar-se dela, para instrumentalizar sua imagem, mesmo que governassem a Bahia com mão de ferro e produzissem miséria.

 

Aparentemente apolítica, tornou-se um ícone da direita baiana e também da Igreja conservadora. Afinal, para muitos, é assim que um cristão deve servir aos pobres. Mas, ela era mais esperta do que os seus instrumentalizadores imaginavam. Quando necessário, foi rebelde, ocupando casas, levando doentes para ambientes onde não eram desejados, criando problemas dentro da congregação. Era acusada de preferir mais os  pobres e a rua que sua comunidade.

 

A Igreja teve outros anjos bons. D. Hélder sonhou com um milênio sem miséria. D. Luciano, Mauro Morelli e outros, seguindo o sonho de D. Hélder, criaram o "Mutirão pela Superação da Fome e da Miséria", com a CNBB.

 

No campo a luta veio de forma organizada, em Pastorais Sociais, como a da Terra, dos Pescadores, além das urbanas, como a Operária, do Menor, do Migrante etc. A Pastoral da Criança salvou e salva milhões de crianças nesse país e no resto do mundo.

 

Aqui no sertão estamos conseguindo vencer a sede, a fome, a migração e tantas mazelas que afligiram gerações e gerações de nordestinos com a simples captação da água de chuva. As Pastorais são parte integrante desse esforço hercúleo.

 

Mas, falo também dos anjos sem religião. Por mais de trinta anos tivemos na CPT da Bahia Marta Pinto dos Anjos. Advogada, sem convicção religiosa. Quando íamos rezar um pai-nosso, segurava nossas mãos, abaixava a cabeça e silenciava. Conheci poucas pessoas tão dedicadas aos pobres do campo na Bahia como Marta. Aposentou-se, em seis meses faleceu vítima de câncer.

 

O que sempre chamou a atenção em Marta é que não precisa ser cristão nem esperar pela vida eterna para se fazer uma verdadeira dedicação pela justiça e pela superação da miséria. Assim, existem milhares e milhões. Eles e elas estão nos movimentos sociais, mesmo dentro de certos governos.

 

Ir. Dulce é sim um anjo bom. Onde está uma pessoa em necessidade, ali está um universo.

 

Entretanto, pessoas como ela, assim como Teresa de Calcutá, surgem onde a miséria é abundante. E a miséria sobra onde a injustiça superabunda. Não vamos encontrar essas santas em Berlim ou Copenhague. Lá existe saúde pública que funciona, educação, enfim, uma política social onde são desnecessárias santas como elas.  Portanto, elas também são frutos de um contexto perverso.

 

Mas, a santidade do Anjo Bom é verdadeira, porque sua generosidade foi verdadeira.

 

O pior não é a opção assistencial - tantas vezes necessária. É a indiferença.

 

Roberto Malvezzi é membro da Equipe Terra, Água e Meio Ambiente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano).

 

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Comentários   

0 #2 IgrejasFrancisco de Assis N. de Castr 30-05-2011 09:42
O texto do Roberto é simples e rico para reflexão. Hoje, como ontem, vicejam formas variadas de viver a espiritualidade, que não se confunde com religião. Um ateu com postura ética vive a espiritualidade à sua maneira, mesmo que não professe um credo. A Igreja Católica, Apostólica e Romana tem muitas contradições em sua hierarquia. Quando nos debruçamos sobre as origens do cristianismo vemos seu crescimento entre os pobres e explorados de seu tempo, sendo perseguido pelos poderosos. E "não havia necessitados entre eles", pois viviam numa comunidade essencialmente "comunista". Os primeiros bispos eram escolhidos pelo povo. A grande virada ocorreu quando o cristianismo, de religião por conversão, transformou-se em religião oficial, de Estado. Por decreto imperial, todos "viraram" cristãos.
Hoje temos muitos santos no meio do povo, muitos deles anônimos, que transformam sua jornada de vida em serviço para os que precisam. Sem o reconhecimento da hierarquia eclesial e sem merecer processo de beatificação. É a demonstração cabal de que o Espírito sopra onde quer.
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0 #1 Algo que se aproveita na Igreja CatólicaMarilia Coltri 27-05-2011 06:32
Em algumas situações, após uma aula de 100 minutos sobre Idade Média, Alto Clero, Baixo Clero, Tribunal do Santo Ofício, Pecado da Usura, Santa Inquisição, Venda de Indulgências, etc; meus alunos me olham com um misto de indignação e complacência e me perguntam curiosos: \"Professora, que religião a senhora é?\" Encabulada digo: \"Católica, não praticante. Não fiz primeira comunhão, catecismo, crisma, isto é, fui cristianizada aos moldes dos povos bárbaros do Período Carolíngio. Tal como Clóvis, porém quando criança, fui apenas batizada, pois minha mãe era a mais devota. Mas foi somente isso! Casei-me na Igreja Católica porque cumpri a penitência de um cursinho de meio sábado intitulado \"Como formar uma família cristã\". Ah! paguei também uma taxa de R$ 200,00 na época. Foi a permissão que recebi da Santa Igreja Católica Apostólica Romana de receber a benção de um padre que atrasou 1 hora e meia para a cerimônia. Minha educação foi laica, tenho problemas com a Igreja Católica. Para completar minha formação secularizada fiz Ciências Sociais na PUC de São Paulo que, apesar de ser uma universidade católica, fazia sérias críticas ao poder político, principalmente no regime militar. Tínhamos à frente da pontifícia D. Paulo Evaristo Arns, que sabíamos defendia uma posição, em alguns momentos, ao reverso da própria santa igreja. A igreja apoiou o golpe mas depois rompeu com o regime. A invasão da PUC foi um dos três momentos mais difíceis que Arns enfrentou quando então cardeal de São Paulo. O que o salvou foi o protocolo existente entre o governo brasileiro e o vaticano, caso contrário ele teria ido para o pau de arara, também. Minha experiência no terceiro setor fez nascer em mim a consciência crítica da diferença existente entre o assistencialismo e sustentabilidade. Esse meu afastamento da \"santa\" igreja confunde minhas crenças até hoje. Tenho dificuldades em trabalhar a minha fé. Creio, descrendo. A Teoria da Libertação e a \"expulsão\" de Leonardo Boff nos anos 80, seu maior expoente, me fazem refletir. O maior pecado que sofri foi uma evangelização desgarrada da vida concreta. Gosto de ler a Bíblia como um grande livro de história mas procuro trazer essa leitura para a realidade dos fatos. Entrego pouca coisa prá Deus, aliás, absolutamente aquilo que não dou conta no plano material. Admiro, sem sombra de dúvidas, a trajetória desse Anjo Bom. Pessoas como ela conseguem ver a injustiça não como sendo obra de Deus, mas sim dos homens e não rezam apenas, agem. Porém, são minoria nesse mundo clerical. Esse é um dos grandes motivos da Igreja Católica ter perdido tantos fiéis, a evangelização vinculada a um conformismo miserável, que prega a salvação somente no reino dos céus. As igrejas alternativas vinculam-se ao fato de que o cristão pode ser feliz nesse mundo terreno, elas são muito calcadas na prosperidade. Não é a miséria que leva ao reino dos céus. Isso deixou de ser pecado e o povo já sabe disso. Somente a igreja não percebeu.
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