Carta aberta aos petistas

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Com a legitimidade de quem cumpriu dois mandatos de deputado federal; e de quem por duas vezes disputou a presidência, representando os segmentos mais combativos e identificados com o programa socialista, é que me considero na obrigação de me dirigir aos militantes e alguns dirigentes do Partido dos Trabalhadores.

 

Embora seja fundador do PSOL, não considero possível qualquer possibilidade de êxito de nossos movimentos táticos, conjugados com os objetivos estratégicos de transformação qualitativa da sociedade brasileira, sem a participação, e até parceria ativa, dos segmentos sociais que hoje se representam no PT. 

 

Nesse contexto, diante do que se registrou nas eleições municipais e autônomas na Espanha, e dos caminhos que vêm tomando o governo Dilma, acho que tenho condições de entrar no debate da militância petista.

 

É verdade que a direita brasileira nem se aproxima, organicamente, da competência da direita franquista espanhola. A de lá, gerada no combate militar e ideológico contra a república popular, criou raízes sólidas durante as décadas da ditadura de Franco. A de cá, tão perversa quanto a de lá, foi matreira o suficiente para se impor sem tantos traumas, a partir da doação das capitanias, passando pelo período de controle da família real portuguesa e mantendo a hegemonia patrimonialista durante quase todo o período da história republicana. Por isso, nunca teve preocupação com mobilização militante.

 

E o quadro não mudou com a chegada ao poder de quem, previsivelmente, tinha por meta uma transformação qualitativa da estrutura social do país. Pelo contrário. Como o próprio ex-presidente Lula afirmou em uma de suas últimas conferências, nunca o grande capital, principalmente o financeiro, acumulou tanto lucro em tão pouco espaço de tempo quanto durante seu período de governo.

 

Pois é justamente por aí que a porca pode torcer o rabo. Se, nos mandatos de Lula, as concessões aos maganos foram neutralizadas por um brutal programa assistencialista de distribuição de rendas mínimas – o que fez passar ao PT boa parte da base eleitoral antes controlada pela velha direita -, o de Dilma, da forma como vem sendo encaminhado, pode não ter os mesmos instrumentos de persuasão.

 

Os anúncios de privatização em áreas estratégicas, cortes orçamentários que só abrem exceção para os incessantemente crescentes serviços da dívida pública, na esteira da manutenção da apavorante política de juros sobre títulos da dívida pública, são fatos incontestáveis de que nada se faz diferentemente do que faria um governo PSDB-PFL, seus derivados e/ou PMDB. Ou alguém ainda tem dúvida de que este último comporia qualquer governo?

 

É aí que vale uma pequena reflexão sobre a acachapante derrota do PSOE diante da direita franquista nas últimas eleições locais da Espanha, como necessidade de discussão sobre o nosso processo.

 

O que levou a banda de Zapatero a perder milhões de votos em relação ao último pleito, justamente num momento em que a juventude ocupava as ruas para protestar contra a política de austeridade e de corte de despesas públicas que levou o país a um recorde de desempregos? Sem nenhuma dúvida, "a economia, estúpido!", para citar um culto e bem sucedido marqueteiro de campanhas presidenciais norte-americanas.

 

A economia levou o eleitorado, outrora simpático ao reformismo moderado do PSOE, a votar no original, desprezando o clone, na medida em que os socialdemocratas deixaram de ser até moderadamente reformistas, para se transformarem em agentes dos modelos neoliberais mais extremados. Desse modelo que levou os jovens às ruas. Nesse sentido, seus simpatizantes, ou se abstiveram (porque os índices de abstenção elevados se concentraram evidentemente nesses eleitores, e não nos da direita mobilizada), ou transferiram seus votos da cópia para o original, como forma de punição.

 

Embarcar de forma incondicional na defesa das propostas de Dilma, elaboradas por Palocci, o enfant gaté do grande capital internacional e seus cúmplices locais, pode levar o PT, no Brasil, para o mesmo destino. A forma obstinada com que as lideranças partidárias correm a blindar o referido, diante dos fortes indícios dos últimos ilícitos, concorre para a equiparação aos partidos sem identidade – cujo último produto é esse PSD, que não é de direita, não é de esquerda, nem é de centro. E que os próceres petistas vêm prestigiando, sem parecer se dar conta de que a legenda não é de nada, para ser de qualquer governo. Igualando todos na mesma simbologia.

 

Se o PT se embaraçar definitivamente no pragmatismo em que mergulhou após Lula chegar ao Planalto, por conta de conjuntural apoio popular – e não estrutural -, a direita reacionária brasileira não precisará de outro golpe militar para voltar ao poder.

 

Nós do PSOL não queremos isso. Temos diferenças e divergências com o PT em função de idéias que passou a defender. Mas não temos as diferenças de valores que nos separam da velha e autoritária direita patrimonialista. Apostamos que novos tempos podem trazer novas realidades, em que a esquerda combativa se reagrupe, sem abrir mão de suas identidades e concepções sobre os caminhos de uma nova sociedade. Mas acreditando que, na desconstrução do predatório regime capitalista, temos muitos passos e muitos combates a dar, em comum.

 

Milton Temer é jornalista e foi deputado federal pelo PT-RJ de 1995 a 2002.

 

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Comentários   

0 #4 fe na vira fe no que vira!zeca pedra 30-05-2011 10:58
companheiro milton!

sua analise esta correto porem não esqueça que o pt, hoje tem a mesma linha politica do psdb, aqui no Pará por exemplo o Governo Petista preferiu governa com madeireiros parlamentares corruptos e outras forças do mal do que governar com os sindicatos e o movimeto popular e forças progressitas. então o que esperar hoje dos governos populares. hoje se o Psol não fizer uma grande aliança com os movimentos progressistas não será uma referencia de mudança radical da sociedade!!!!!!!!
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0 #3 Juliana Ghisolfi 27-05-2011 11:40
Com todo respeito ao PSOL, mas depois que no RS o PSOL passou por cima da base e retirou o seu candidato ao Senado para apoiar Paim, que votou a favor da reforma da previdência, que foi um dos motivos do surgimento do PSOL, fico me perguntando: QUAL É A DO PSOL???
Tenho afinidades com o PSOL. Já não moro mais em São Paulo, mas o único deputado em quem já votei (e o fiz por 3 eleições consecutivas) é Ivan Valente. Mas não entendo se a cúpula do partido é ingênua ou mal intencionada...
Me parece muito claro que Dilma terá que fazer a tal "política da austeridade" neoliberal que vem fazendo.
Mas, com todo respeito, sr. Milton Temer, no Brasil nossa cultura política é personalista, e aqui há o Lula, com seu carisma e popularidade - coisa que o Zapatero não possui.
Em 2014, com o apelo carismático pessoal de Lula + a maldita Copa do Mundo, Lula provavelmente será eleito, e o PT vai conseguir cumprir sua meta de 20 anos no poder. Infelizmente.
É necessário ter clareza que o PT não é um partido de esquerda, e que a esquerda precisa se articular em uma oposição eficiente.
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0 #2 Cuma?Raymundo Araujo Filho 27-05-2011 06:49
Firme no meu propósito de externar a minha opinião, independente dos muchochos dos criticados, volto a contestar as idéias do Milton Temer, que considero não só um poço de contradições, como extremamente conservadoras. E explico porque.

Em entrevista ontem no programa Faixa Livre, Milton Temer fez várias críticas com perfil de esquerda, contra o governo DiLLma, contra as posições do Stédile ("que disse que a presidenta é mais a esquerda que o Lulla" - sendo que nesta polêmica bizantina eu, Raymundo, não entro) e até criticou o Wladimir Pomar pelas "coisas absurdas que vem escrevendo no Correio da Cidadania").

Ora! Fiquei mais encafifado ainda com estas assertivas do ex deputado e atual presidente do PSOL RJ, com as críticas que me fez ("este Raymundo só critica. Alguém precisa criticá-lo..."), pois escrevo críticas sistemáticas a estes que citou, mas desde 2002, quando vi a que vinha Lulla e sua tropa. Só sobre artigos, comentei criticamente mais de 80 artigos (disponíveis aqui no Correio). Sobre Stédile, já fui execrado por "gente graúda",por criticá-lo fortemente e responsabilizá-lo pelo beco sem saída em que colocou o MST (coisa que Temer repete hoje, como se fosse furo de reportagem dele). Sobre Lulla e DiLLma, bem, sobre estes são mais de 500 artigos em 8 anos de oposição e recusa em fazer concessões, postura que assumi, e irrelevando os próprios reveses até profissionais que me acometeram (e não me queixo e nem me faço de vítima).

Portanto, considero que Milton Temer, está muito atrasado em sua radicalização crítica nas palavras, mas com o contraponto do pavimento aliancista que o PSOL vem procurando com o PT (este papo de "bases do PT", prá mim é coisa prá boi dormir...), consubstanciado com o voto em DiLLma, traindo Plínio de Arruda Sampaio que votou Nulo, corajosamente.

Mas, o mais crítico nesta postura de Milton Temer, embora tenha coerência com o que ele vem dizendo, é esta conversa de "não podemos agredir a base de militantes do PT", pois este foi o principal argumento do PT para compor a aliança macabra com o PMDB, "em busca de suas bases", mas na verdade cooptando "os donos destas bases" com cargos e salários e sei lá mais o que (ou será que sei?).

Assim, mesmo tendo criticado Wladimir Pomar, o Milton Temer escreve aqui, um artigo EXATAMENTE igual e com o mesmo apelo que o escrito por Wladimir Pomar aqui neste mesmo Correio, sob o título "ainda pela base".

Apelam os dois, tardiamente a meu ver, para "as bases petistas", como se este Partido (ou partido?) ainda tivesse aquela militância nucleada que interferia "de baixo para cima" na estrutura do PT. Hoje, muitos dos "de baixo" ascenderam e se tornaram "de cima", mas por vias institucionais e não Partidárias, qual sejam, os tais cargos e salários, além de R$100 Milhões anuais para as Centrais Sindicais se agacharem, entre outras armações.

Leiam este artigo de Milton Temer e o de Wladimir Pomar, e verão que os dois têm como centro "as bases do PT" que, tal qual a conhecíamos, são hoje INEXISTENTES, e o que sobrou delas, não têm nenhuma influência nas "instâncias partidárias", até porque muitos destas "bases" vivem de empregos políticos e assessorias parlamentares, aliás como se configura o PSOL, hoje, malgrado a tentativa de Plínio, com a sua proposta de nucleação no PSOL, a meu ver, em contraposição ao aparelhismo dos Movimentos Sociais tão executados por tendências orgânicas do PSOL como o ENLACE, CST e MES (discuto isso de cátedra, com qualquer um).

Milton Temer, neste artigo, apenas corrobora com o que venho afirmando, já há algum tempo: O PSOL tenta pavimentar uma aliança eleitoral (para mim, eleitoreira), com o discurso de "aliança com as bases progressistas do PT", além de tentarem arrebanhar para este projeto, o PV e Marina que, segundo eu sei, aproxima-se, hoje, bastante do PSOL, através da possível filiação da ONG Contas Públicas ao PSOL, e a aproximação de Marina Silva com Heloísa Helena, que darão o troco pela frustrada tentativa de aliança ano passado, abortada (ooops! Desculpem-me)pela candidatura Plínio, enfim traída até por estes que se dizem de esquerda, mas só pensam naquilo, isto é, ELEIÇÕES.

A meu ver, é este o quadro que se avizinha. Mesmo quem se diz esquerda dissidente do PT hoje no PSOL prepara-se para uma aliança eleitoral. E isso tem um só motivo: Não conseguem ver outra saída para a caso brasileiro, que não seja a política institucional e eleitoral, aliás como rezam as cartilhas das tendências orgânicas destes partidos e suas minhocas literárias do passado, sem a necessária reflexão com o presente.

Com este "apelo aliancista" de Milton Temer ao PT (este negócio de base, é conversa mole)e ainda citando (penso que sem autorização), o PSTU e PCB, acho que Milton Temer faria melhor se convocasse todos para se filiarem ao PT, para ingurgitarem as suas bases de Revolucionários, a influenciar "os de cima".

Ou então, que caiam na real e larguem estes arroubos doutrinários e de maquiagens em torno da carne seca, digo, a Política Institucional e, com humildade que lhes falta, passarem a conviver o dia a dia da população, em vez de se ocuparem apenas de articulações superestruturais.

E, em sua análise, para amendrontar o PT referindo-se à Espanha, esquece-se o Milton Temer, que Lulla é uma reserva técnica que salvará o PT (mas não o Povo Brasileiro) de qualquer fracasso do governo DiLLma.

Do jeito que vai a coisa, acho que Lulla vai suceder é o Temer. Mas o Michel Temer, e não o Milton, mas com apoio deste.
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0 #1 Larguem a ilusão de salvar o PT da luta!Fábio Machado de Freitas 26-05-2011 11:56
Parabéns, Milton!
Tua carta aberta é ótima! Só não sei se ainda sobrou algum dirigente combativo no PT. A militância de verdade, que não é de aluguel, eu sei que é combativa e até aqueles que hoje são parlamentares e recusaram-se a votar na destruição da natureza brasileira.
O convite àquelas lideranças dos movimentos sociais ainda ligadas ao PT a se integrarem às lutas contra o capital junto com o PSOL é o que interessa mesmo.
Talvez após essa vitória ESCANCARADA do agronegócio exportador e devastador para legalizar a DESTRUIÇÃO AMBIENTAl essa turma do PT e dos movimentos sociais de luta que insistem nessa causa perdida de "salvar o PT" do que cada vez se aprofunda mais: sua ligação com o grande capital!
Acordem de fato para a realidade!
O problema na história do PT é que se CONFIOU DEMAIS na figura política do Lula, como se ele fosse de fato um revolucionário. O que ele várias vezes mostrou que não era. Mas, insistimos. Ele sempre foi um sindicalista de "fazer acordos para estar no poder" e não para transformar o poder. Para ele nunca foi mais importante a justiça social do que comandar e se beneficiar do poder. Um populista dentro da esquerda socialista, só que ele foi venerado como um líder revolucionário, o que ele nunca foi, só porque ele era sindicalista da linha de frente contra a fase final da da ditadura.
Depois de 20 anos, deu no que nós testemunhamos em 2002...
Abraços, Fábio.
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