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Escrito por Wladimir Pomar   
Segunda, 23 de Maio de 2011
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Em continuidade aos comentários sobre as questões suscitadas no núcleo do PT, talvez seja repetitivo dizer que o avanço nas reformas de cunho social, a aplicação de uma política mais consistente de defesa dos trabalhadores e do povo, a superação do tema da reforma agrária como um problema, o grau de relação do governo Dilma com os movimentos sociais, a possibilidade das bases serem ouvidas pelo partido e pelo governo, inclusive para fazer críticas construtivas, dependem fundamentalmente da capacidade dessas bases partidárias em acompanharem o dia a dia das lutas populares e transformá-las em mobilizações de pressão social.

 

Sem apoio e mobilização social não há possibilidade de influir nos rumos do governo, mesmo que esse governo tenha maioria de esquerda. E sem estar profundamente ligado à vida e à luta contínua das bases populares, mesmo que aparentemente pouco tenham a ver com as metas do governo para educação e combate à pobreza, com a política internacional, com a política cultural ou com a política de câmbio e juros, não é possível discutir com as camadas populares os elos reais que existem entre sua vida cotidiana e as grandes questões nacionais.

 

Sem tal trabalho de massa não será possível evitar que os núcleos partidários e os partidos de esquerda sejam apanhados de surpresa quando as massas do povo forem para as ruas expressar sua insatisfação. Além dos exemplos do norte da África, temos agora o exemplo do povo espanhol, mobilizando-se aos milhares e milhões contra a política neoliberal e de cerceamento da democracia naquele país. Um movimento cujos sinais embrionários talvez não tenham sido detectados por qualquer dos partidos políticos daquele país, nem pelos institutos de pesquisa de opinião pública. Simplesmente porque tais sinais só conseguem ser percebidos por quem está entranhado na vida do dia a dia do povo.

 

Portanto, se os núcleos do PT e de outros partidos de esquerda no Brasil quiserem evitar que haja retrocesso na política econômica, com a retomada da elevação dos juros e da compressão do consumo, que sejam reforçados os mecanismos de democracia direta, em especial nos meios de comunicação, que sejam quebrados os oligopólios da comunicação e que sejam atendidas centenas ou milhares de outras reivindicações democráticas e populares. Eles precisam se voltar de forma efetiva para a base da sociedade, para as inúmeras formas miúdas de organização e mobilização social, que aparentemente não têm efeito global, mas cujo somatório tem, certamente, grande força acumulada.

 

Para isso, talvez seja necessário romper com certos hábitos e crenças que se tornaram predominantes nos últimos anos de vida política da esquerda no Brasil. Por exemplo, que o trabalho parlamentar dos mandatos supre a demanda desse trabalho de massa, porque os parlamentares manteriam uma relação estreita com suas bases. Em outras palavras, a atividade institucional parlamentar supostamente pode substituir o trabalho cotidiano nos núcleos partidários. Isso explica, em parte, porque os núcleos perderam valor e força na organização partidária, mas não responde por que uma série relativamente grande de mandatos não consegue estabelecer ligações firmes com a base da sociedade.

 

Isso talvez se explique pelo fato de haver uma tendência, em vários mandatos de esquerda, de não se diferenciarem do estilo e dos métodos dos mandatos aliados, sejam de centro ou da própria direita, e nem dos adversários da direita. Ao justificarem certas atitudes com a afirmação de que apenas fazem o que todos os demais têm por hábito fazer, eles nivelam todos os mandatos pelo mesmo parâmetro e provocam uma apreciação extremamente negativa nas camadas populares.

 

Não podemos desdenhar a percepção da maior parte das camadas populares sobre os políticos. Essa parte majoritária da população acredita que os políticos utilizam o parlamento para tráfico de influência e como balcão de negócios, não passando de aproveitadores do dinheiro público. Em tais condições, se os mandatos da esquerda não forem firmes em se diferenciarem em relação ao que os mandatos burgueses fazem, a dificuldade que já enfrentam para substituir o trabalho de massa dos núcleos se tornará praticamente intransponível.

 

Para superar esse problema, o mais adequado talvez seja retomar os núcleos como os verdadeiros instrumentos de ligação permanente com a base das grandes massas do povo. Os mandatos podem e devem complementar positivamente o trabalho dos núcleos, municiando-os com as informações sobre os grandes temas e embates nacionais e a correlação de forças em relação a eles.

 

Essa pode ser uma das soluções para influir sobre a disputa interna no governo e para fazer frente à ofensiva desesperada da direita. Sem tal solução, é provável que os núcleos continuem ainda por um longo tempo fazendo as mesmas perguntas que o núcleo do Largo do Machado me apresentou. O que não será bom.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Última atualização em Terça, 24 de Maio de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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