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Aeroapertos Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
Segunda, 23 de Maio de 2011
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O Brasil se prepara para abrigar a Copa do Mundo de Futebol, em 2014 e, dois anos depois, os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. São festas de arromba, como diria Roberto Carlos que, agora, completa 70 anos de idade, talento e simpatia.

 

Getúlio Vargas, quando presidente, todos os anos transferia a capital da República, a 21 de abril, para Ouro Preto. De certa feita, uma família mineira decidiu recepcioná-lo com um faustoso banquete em Belo Horizonte. Todos se fartaram e poucos souberam que, recolhidos os pratos, a família faliu. Mas a festa saiu comme il faut!

 

Não espero que o Brasil venha a falir ao recepcionar Copa e Olimpíadas, embora saiba que muitos, ao recolher de bolas e torneios, ficarão ainda mais ricos. Os Jogos Pan-Americanos de 2007 tinham orçamento de R$ 800 milhões e consumiram R$ 4 bilhões. Superfaturamento equivale a supercorrupção. Logo...

 

A infra-estrutura do Brasil não está, por enquanto, adequada aos dois eventos esportivos. As reformas de 12 estádios de futebol ainda não tiveram início; o do Corinthians, a ser construído em São Paulo, não poderá, segundo seu presidente, atender metade das exigências da FIFA; e nossos "aeroapertos" estão saturados. De 12 cidades-sede da Copa, 9 têm aeroportos com obras atrasadas.

 

Em 2010, brasileiros utilizaram mais aviões que ônibus para viagens interestaduais. Ano passado, o movimento de passageiros em Guarulhos (SP) foi de 26,7 milhões; em Congonhas (SP), 15,4 milhões; em Brasília, 14,1 milhões; no Tom Jobim (RJ), 12,2 milhões; e nas demais capitais, entre 5 e 7 milhões.

 

Isso se deve à melhoria das condições de vida de nossa população, graças aos mecanismos de distribuição de renda adotados pelo governo Lula, e ao aumento de número de empresas aéreas, o que acirrou a concorrência.

 

Nossos aeroportos foram construídos para suportar um volume bem menor de vôos e, hoje, são verdadeiros "aeroapertos". Em Congonhas, Santos Dumont, Confins e outros, os banheiros são insuficientes. No desembarque doméstico de Confins existe um único banheiro masculino com 4 privadas, 3 mictórios e 3 pias. No desembarque de Congonhas também só existe um banheiro masculino, que conta com 3 ou 4 privadas e meia dúzia de mictórios. Num vôo doméstico, que comporta cerca de 200 passageiros, se uns poucos precisarem desafogar a bexiga, haja fila... e aperto! As mulheres, então, suportam maiores dificuldades.

 

Nos bares e cafés, há um mínimo de atendentes para o máximo de consumidores. Onde deveriam estar 3 ou 4 funcionários, vê-se um. Mesas e balcões estão quase sempre sujos, pois a rotatividade e a falta de faxineiras impedem a limpeza adequada.

 

No desembarque, filas intermináveis para os táxis. Em Guarulhos, uma única empresa, sob comando de um vereador da cidade, mantém o monopólio de quem sai do aeroporto de Cumbica. E coitado do taxista que, ao deixar um passageiro, cometer o grave "crime" de apanhar outro. Corre o risco de ser linchado pelos olheiros da cooperativa monopolista, como aconteceu há tempos no Galeão com um taxista que não era da "tchurma".

 

Há, sim, melhoras: as empresas aéreas têm mais atendentes no balcão; há sistemas de auto-atendimento; o balcão de prioridades é eficiente. Mas o ar refrigerado não funciona; quase não há poltronas disponíveis nos saguões e, quando há, são desconfortáveis. Quem dera tivéssemos, no Brasil, uma sala de espera da qualidade do aeroporto do Panamá!

 

A quem reclamar? À Anac, à Infraero, à nova Secretaria de Aviação Civil, com status de ministério? Há dias, fui ao balcão da Infraero, no aeroporto Santos Dumont, queixar-me de uma empresa que dispunha de um único funcionário para atender extensa fila. Deram-me um formulário. Tratei de preenchê-lo. Supus ser o bastante. Que nada! Poucos dias depois recebi correspondência solicitando que eu formalizasse a denúncia em novo formulário...

 

Os aeroportos receberam do governo R$ 5,8 bilhões para reformas. O cronograma de obras está atrasado. Segundo o Ipea, no atual ritmo de licitações, as obras demorarão mais de seis anos para serem concluídas...

 

Agora o governo federal pretende alterar as regras de licitações e, vejam só, premiar as empresas que trabalharem mais rápido! Imaginem a qualidade! Em país sério faz-se o contrário: multa-se quem não cumpre prazos ou falha em qualidade.

 

Prevê-se que cada turista, nos dois eventos esportivos, fará de 6 a 14 viagens aéreas, devido às distâncias no interior do Brasil. Pelo andar de nossas aerocarruagens, só nos resta suplicar a São Cristóvão, padroeiro dos viajantes, que ilumine governo e empreiteiras para que nos ofereçam boas obras. E queime as mãos dos corruptos que embolsarem dinheiro público.

 

Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros.

Página e Twitter do autor: http://www.freibetto.org/ - twitter:@freibetto

 

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