“Nós pega o peixe”?

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Sinceramente, como professora, a notícia me deu um verdadeiro choque. Ao saber que o Ministério da Educação distribuiu a quase 500 mil estudantes do ensino fundamental e médio um livro que afirma não haver problema incorporar a linguagem popular, mesmo incorreta, na língua portuguesa, senti-me triste e desanimada.

 

Posso perfeitamente concordar em que não se deve discriminar quem fala de forma diferente de nós. Sobretudo quando essa diferença se deve ao fato de que tal pessoa não freqüentou os bancos da escola e vive em um meio onde essa forma de falar é usual. Posso até concordar com a distinção entre "errado" e "inadequado" e entre "certo" e "adequado".

 

Já participei de muitas reuniões de pastoral com comunidades populares, onde a fala popular é considerada e valorizada dentro do conjunto do evento. E pude apreciar falas cheias de sabedoria e profundidade ainda que dentro de formas incorretas de expressar-se. Eram falas, sim, "adequadas" à situação e ao ambiente no qual ocorriam. Jamais pensaria que alguém - mesmo o assessor ou o coordenador da reunião – devesse levantar-se e corrigir a pessoa que assim se expressava. Isso seria uma demonstração de preconceito, sem dúvida alguma.

 

Concordaria, igualmente, em que um artista ou escritor pudesse compor uma canção ou escrever um conto ou um livro usando expressões populares que seriam incorretas desde o ponto de vista formal ou colocando-as em boca de seus personagens ou mesmo inventando neologismos que não existem no dicionário. A escrita magistral de Guimarães Rosa, a poesia de Adélia Prado, os sambas de Adoniran Barbosa entre outros exemplificam bem o que tento dizer.

 

No entanto, aqui e agora, trata-se de outra coisa. É em um livro didático, distribuído pelo órgão governamental que deve cuidar do aprendizado da língua portuguesa falada no Brasil que se faz a defesa da linguagem incorreta. E se legitima expressões erradas como certas, ensinando distorcidamente aos jovens que vão à escola e usam o livro para aprender a falar e escrever corretamente. Não estamos diante de inadequação, mas sim de erro. Não estamos em um ambiente de uma reunião de pastoral ou de movimento popular, onde todos têm o direito de expressar-se como sabem e como podem. Nosso assunto é educação, é ensino, é iniciação do aluno à língua de seu país e de seu povo.

 

Não me parece que tal prática ajude o estudante. Ao contrário, dá-me a impressão de que confirma sua ignorância, sua exclusão do falar correto, sua situação de inferioridade frente àqueles que dominam o instrumental lingüístico. Certamente a intenção da autora não é esta, nem muito menos a do Ministério da Educação, ao admitir o livro e distribuí-lo oficialmente. Entretanto, parece-me que infelizmente é isso que conseguem, afinal de contas.

 

Dá-me a impressão de estarmos, aqui, diante de uma posição basista, anti-intelectual, que qualifica o errado como certo e desqualifica o correto como elitista. Distorce, assim, a evidência objetiva do código que utilizamos para expressar-nos e que constitui o salvo-conduto primeiro da comunicação entre os cidadãos de um mesmo grupo linguístico.

 

Pois, se isso fosse a atitude a tomar, por que enviamos nossos filhos à logopedista ou à fonoaudióloga quando apresentam dislexia na escola? Ou por que nós, professores, nos debruçamos sobre os trabalhos escritos de nossos alunos e ali gastamos horas corrigindo cada erro gramatical? Trata-se de serviço indispensável, a meu ver, na missão de um professor. Mesmo no ensino superior. Que dirá no ensino fundamental e médio, onde crianças e jovens estão entrando apenas em relação com a língua e necessitam dominar seus sinais e códigos.

 

Com todo respeito e sem nenhum sentimento de superioridade e arrogância. "Nós pega o peixe" não dá. Se a educação já é o problema número 1 do Brasil com vistas a seu futuro, se os responsáveis por ela começarem a ensinar a escrever e falar errado, onde vamos parar? "Nós pegamos o peixe", assim como "dois mais dois são quatro" e não cinco, como bem lembrou a acadêmica Ana Maria Machado.

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor" (Ed. Rocco).

 

Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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Comentários   

0 #10 Analfabeto se forma na escola públicaPatricia Jacques Fernandes 29-05-2011 09:03
Parabéns à articulista.
O considerado “kit-gay” foi duramente criticado e vetado pela presidente com a desculpa de que não faremos “propaganda de opções sexuais”. Agora, o “kit-analfabeto” recebe até elogios, tratando essa excrescência do “nós pega o peixe” como sendo diversidade. Vamos agora fazer propaganda do analfabetismo.
Ensinar em escolas públicas a escrever e a falar errado é um desrespeito com a população. É reforçar a ideia de que pobre não tem o direito de conhecer o seu idioma. Enquanto o Poder Público não respeitar a Constituição Federal e democratizar a Educação, o Brasil continuará sendo atrasado, desigual e injusto.
Uma coisa é respeitar o discurso popular, as suas ideias, práticas, costumes e tradições. Isso enriquece a sociedade com um todo. Outra bem diferente é incentivar o analfabetismo dentro das escolas públicas.
Respeitar diferenças não é incentivar desigualdade. Respeitar as diferenças é por em prática o que está na Lei Magna desse país e que deveria ser a cartilha do Poder Público: Educação (pública e de qualidade) para todos.
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0 #9 Deverias buscar mais informações sobre aGiovani 26-05-2011 13:18
Deverias buscar mais informações sobre a questão, pois parece que seus argumentos apenas são os reproduzidos pelos jornalistas que são experts em criar polêmica, principalmente contra esse governo. Deveríamos ouvir os especialistas na área primeiro, depois poderíamos prestar atenção aos jornalistas, economistas, teólogos....
veja-se apenas duas opiniões
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/916634-uma-defesa-do-erro-de-portugues.shtml
http://www.cartacapital.com.br/politica/polemica-ou-ignorancia
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0 #8 Vossa Mercê está fora do contextoMauro 25-05-2011 10:16
É lamentável que o Correio post um artigo desse tipo. A referida professora nem teve o desplante de ler o capítulo do livro "Por uma vida melhor". Apenas está reproduzindo o preconceito da mídia nativa. Espero que as próximas postagens tenha um filtro mais apurado.
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0 #7 Nois pega peixecarlos de morais 24-05-2011 18:48
O senhor Ministro da Educação deveria ler este artigo antes de suas declarações em defesa do livro. Parabens para s autora do artigo. Completo!
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0 #6 Fora do contexto.Sílvia Baptista 24-05-2011 17:12
Já circulou amplamente a nota da editora que explica o texto fora do contexto. Alfredo tem razão. Vale a pena pesquisar para evitar opiniões frágeis e tendenciosas como esta.
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0 #5 Aline 24-05-2011 11:44
sugiro a leitura (Manifesto Círculo Educação Linguística): http://pt.scribd.com/doc/56109720/Manifesto-Circulo-Educacao-Linguistica
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0 #4 má interpretaçãoAline 24-05-2011 11:36
concordo com o comentário do Alfredo.
Muitas pessoas leram a frase fora do contexto e acham que o livro está ensinando a falar ou escrever errado, o que é um equívoco muito sério. A proposta do livro não é desmerecer ou exaltar uma ou outra forma de expressão, e sim dar um sentido à aprendizagem da escrita formal, "culta", pois ela é necessária em situações formais como o trabalho e o ensino. Os exemplos "errados", como dizem, estão lá para fazer um contraponto construtivo que ajuda na construção da ideia do que é a língua.
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0 #3 Maria Fernanda 24-05-2011 11:32
Esse texto demonstra muita falta de informação, não me parece que a autora leu o livro "Por uma vida melhor". O livro não ensina a falar ou escrever errado, apenas diz que há diferentes formas de falar e se propõe a ensinar a norma culta.
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0 #2 \"Curtura\"Paulo Stockler 24-05-2011 10:03
E o bom "Correio da Cidadania", por excesso de vontade de que o Governo erre, faz coro à "grande " mídia, e desafina... Triste!
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0 #1 Favor verificar as notas emitidas pela AAlfredo S.V. Coelho 24-05-2011 09:43
Olá, Maria Clara.
Seria importante ler as notas emitidas pela Ação Educativa, já que a frase amplamente divulgada pela mídia foi pinçada fora de contexto do livro
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