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Greve e desestrutura nas Escolas Técnicas desmentem propaganda tucana Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Sexta, 20 de Maio de 2011
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Numa data que ilustra perfeitamente as gestões tucanas na área da educação, professores e funcionários deflagraram na última sexta-feira (13) uma greve que abrange 96 Faculdades de Tecnologia (FATECS) e Escolas Técnicas Estaduais (ETECS) do estado de São Paulo, fontes de muita propaganda do governo nas últimas campanhas eleitorais, mas que na verdade vivem situação semelhante à das escolas públicas de ensino básico.

 

A maior evidência do quadro de abandono vivido pelos docentes e demais profissionais dessas instituições de ensino foi o inesperado aumento de 11% concedido pelo governo no mesmo dia, noticiado alegremente pela mídia fanaticamente tucana, que tanto se esmera em esconder diversas mazelas das gestões Alckmin e companhia nada bela.

 

"A população não tem idéia do quão mal remunerados são os docentes e demais trabalhadores nem sobre quanto tempo estamos sem reajustes, menos ainda sobre as tentativas e manobras rumo à privatização desta instituição. Estamos sem reajuste desde 2005. De lá pra cá, nada, nem sequer uma política salarial. Esse é o motivo principal da greve. Os docentes estão com 58,9% e os demais trabalhadores com 72% de defasagem", declarou ao Correio da Cidadania o professor Marcos Mendes.

 

Dessa forma, fica clara a arbitrariedade e oportunismo no reajuste, uma vez que se deu à revelia de quaisquer conversas com a categoria, que já ensaiava a paralisação há muito tempo. "Sem dúvida é pra acalmar os ânimos e ocultar o movimento de greve. De 10 reais de hora/aula, vamos para R$ 11,10. Isso não muda muita coisa no final do mês...", diz o professor, membro do Centro Paula Souza.

 

Problemas vários

 

Mais uma vez, tal como em diversas áreas essenciais à sociedade, os verdadeiros problemas encontrados nessas instituições são escondidos, de modo a deixar o público carente de informações que explicam os motivos da greve. Ao contrário do que se costuma divulgar, não se trata apenas de um mero reajuste salarial, e sim de uma mudança de orientação em toda a política do setor.

 

"Nós temos esse enorme arrocho porque o PSDB acabou com a política salarial que existia antes e não criou outra. Plano de carreira até tem, mas não existe política salarial. Além do reajuste, queremos a definição de qual será a política salarial daqui para frente", disse Silvia Elena de Lima, em entrevista à Carta Capital.

 

Além disso, assim como se vê nas escolas públicas das redes municipal e estadual, as próprias instalações gritam por mais cuidados em sua manutenção, sempre vítimas dos eternos orçamentos enxutos que os governos tucanos ofertam à cidade. "A cada ano que passa, vemos as escolas mais abandonadas. Tetos caindo, salas de aula com rachaduras, pondo em risco a vida e segurança de alunos e trabalhadores...", aponta Mendes.

 

Visão mercadista

 

O ponto que mais faz os especialistas e profissionais da área coincidirem em seus pareceres é o que acusa os governos tucanos de aplicarem em toda e qualquer área de nossas vidas uma única visão, consagrada pelo nefasto advento do neoliberalismo: a de que a educação é apenas mais uma mercadoria a ser explorada com fins de lucro. Além, é claro, do oportunismo, através da propaganda eleitoral feita em cima das escolas técnicas, como pôde se ver no último embate presidencial.

 

"No mercado há ganhadores e perdedores e os ganhadores não têm que se preocupar com os perdedores. A educação é um direito de todos e temos de nos responsabilizar pelo avanço de todos. São lógicas incompatíveis", criticou Silvia Elena. Tal colocação se baseia nos métodos usados pelo governo de impor avaliações gerais aos alunos e a partir do desempenho verificado bonificar os professores responsáveis pelos estudantes.

 

Na visão dos educadores, essa visão utilitarista da educação é mais uma inspiração que nossos governos tiraram dos EUA, adeptos do modelo de avaliações coletivas de tempos em tempos. No entanto, até por lá existem questionamentos em torno do procedimento. "Estas ações que são no Brasil alardeadas pelos reformadores empresariais, como o Movimento todos pela Educação e o Movimento Parceiros da Educação, não se mostraram com condições de melhorar a educação no país que mais fez uso destas medidas. Por que devemos acreditar que fariam diferença no Brasil?", questionou também em entrevista à Carta Capital Luiz Carlos de Freitas, da Unicamp, que também citou casos de corrupção de coordenadores de escolas que inflaram as notas de seus alunos, de modo a receber maiores bonificações. Qualquer semelhança com o chamado mercado livre não é mera coincidência....

 

Longa batalha

 

Entretanto, uma mudança nessa orientação ainda parece longe do horizonte, uma vez que o modelo de educação voltada ao mercado, a bem da verdade, tem se consagrado nacionalmente, especialmente após o governo optar pelo investimento no Prouni (que financia cursos em universidades privadas) ao invés de expandir o número de vagas em instituições públicas. Fora os controversos cursos à distância. Lobbies de instituições envolvidas nos movimentos citados por Freitas, obviamente, "cativaram" mais nossos representantes.

 

"A idéia do governo, na visão da nossa categoria, e isso fica bem claro, é que primeiro deve-se usar o sistema educacional para angariar votos. Depois, querem mais é sucatear mesmo, pois não desejam uma população bem preparada, com conhecimento e capacidade de contestação. Querem uma mão de obra barata, moldada a servir os interesses da iniciativa privada, do mercado", desabafa Marcos Mendes.

 

De quebra, ele ainda ataca o oportunismo dos políticos em relação aos bons resultados que as ETECS e FATECS ainda conseguem apresentar, sempre exibidos ao público como obra construída em gabinetes e palácios.

 

"As FATECS e ETECS são referências em educação tecnológica/técnica no Estado de São Paulo graças ao esforço, à dedicação e ao amor pela educação dos trabalhadores desta instituição. E são utilizadas pelo governo do estado como referência à ‘excelentíssima administração’, o que não é verdade; o crédito é absolutamente nosso, pois trabalhar por R$10,00 hora/aula e R$4,00 de vale alimentação, sem reajustes desde 2005, sem assistência médica e contratados pela CLT, são fatores que não configuram exemplos de excelência em administração", revolta-se Mendes.

 

Como alerta o professor Freitas, "escolas não são empresas", portanto, segue mais do que urgente a necessidade de se alterarem os rumos da educação paulista, cujos indicadores nacionais não param de degringolar, ficando atrás de estados da federação muito menos abastados economicamente. Além, claro, de se deixar a propaganda para quando ela de fato se justificar.

 

"Não adianta abrirem 500 ETECS pelo estado, sem computadores, maquinários, oficinas de edificação, só pra fazer número. As ETECS de São Vicente e Cubatão, quando foram abertas, passaram quase o semestre todo sem computadores, sendo que a de São Vicente tinha curso de informática", conta o professor entrevistado pelo Correio.

 

Hora de resistir para mudar

 

Questionado sobre a capacidade de resistência do corpo docente e trabalhador das escolas técnicas, Marcos Mendes se mostrou firme, lembrando que em várias outras ocasiões algumas correntes tentaram chamar a greve, mas o conjunto acabava adiando a iniciativa.

 

E após duas manifestações no vão livre do MASP ao longo dessa semana, o governo Alckmin entendeu o recado e abriu negociações, ainda tímidas, nos termos do reajuste de 11%. Ao mesmo tempo, já é uma postura diferente da mostrada por Serra, que atropelou os mais distintos movimentos reivindicatórios em seu mandato de triste memória para os paulistas.

 

"A nossa esperança é de que a greve seja a mais breve possível. Professor não gosta de greve, não é bom pra categoria, para os alunos e pra sociedade em geral. Mas enquanto não se negociar de maneira séria com o sindicato, vamos continuar em greve".

 

Mais:

 

Ouça entrevista com o professor Marcos Mendes

 

Gabriel Brito é jornalista.

 

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Última atualização em Qui, 26 de Maio de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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