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Barack Obama: a primeira vitória, ainda que simbólica Imprimir E-mail
Escrito por Virgílio Arraes   
Qui, 12 de Maio de 2011
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Após quase uma década de confrontação militar, os Estados Unidos obtiveram sua primeira vitória definitiva: a eliminação de Osama Bin Laden, símbolo da organização do fatídico ataque no dia 11 de setembro de 2001 com aviões civis. A informação acerca da ação militar norte-americana no Paquistão ainda é nebulosa, de modo que nas próximas semanas haverá muita especulação em torno de como o saudita foi localizado e morto. Além do mais, não há ainda um esclarecimento crível sobre a motivação da escolha do refúgio recair em uma cidade do Paquistão localizada há pouco mais de uma hora de carro da capital Islamabad.

 

Paradoxalmente, a ausência de imagens do cadáver do líder terrorista, a despeito das considerações morais sobre ele, demonstra uma consideração tardia às populações envolvidas nas duas guerras em andamento, com centenas de milhares de vítimas diretas ou indiretas da atuação da coligação ocidental no Afeganistão ou no Iraque. Atribui-se a divulgação de fotos sangrentas no interior da mansão a um membro da administração paquistanesa - http://www.reuters.com/subjects/bin-laden-compound.

 

Nos anos 90, recorde-se que os meios de comunicação no Ocidente não mostraram as dramáticas cenas da morte de um membro da família real britânica ou de um corredor de fórmula 1 brasileiro. Na época, considerou-se a eventual veiculação de efeito antiético ou apelativo, nas palavras da época. A exposição de fotos post-mortem sobre o líder terrorista poderia reforçar o status de mártir perante segmentos muçulmanos extremistas.

 

Por outro lado, a inexistência, ou melhor, a carência de provas objetivas demonstrantes do falecimento do líder terrorista fornecerá elementos constantes para conjecturas intermináveis, muitas das quais desaguadas em teorias da conspiração de duração indeterminada. A cada questionamento dos meios de comunicação sobre inconsistências de uma determinada versão, uma outra é rapidamente disponibilizada ao público.

 

A saída seria a Casa Branca apresentar, ainda que de maneira resumida, à opinião pública a filmagem da intervenção de sua tropa de operações especiais em Abbottabad no dia 2 de maio último. Desta forma, atender-se-ia aos requisitos da Lei de Liberdade de Informação, de julho de 1966.

 

Eis o dilema de Washington sobre a intervenção especial no Paquistão: a falta de maiores dados aparenta demonstrar à sociedade internacional intenção de ocultar o objetivo real da operação da força-tarefa. A morte teria sido estabelecida anteriormente à entrada no sobrado ou teria sido efeito indesejado diante da inesperada reação dos residentes? Capturar e levar a julgamento bin Laden, mesmo de maneira reservada, não teria sido a melhor resposta do governo estadunidense ao ato bárbaro cometido há praticamente dez anos por seus asseclas? Talvez, a Casa Branca não tenha querido repetir o simulacro de julgamento a que havia sido submetido o ditador Saddam Hussein, enforcado quando ainda orava.

 

À primeira vista, a gestão de Barack Obama comporta-se de modo similar à de George Bush – nenhuma das promessas ofertadas à população durante o pleito presidencial de 2008 materializou-se a contento. Nem a destinação de Guantánamo como presídio restrito foi encerrada, nem o retorno das tropas em solo afegão e iraquiano foi concluído. Mantiveram-se, portanto, as diretrizes republicanas, outrora tão acerbamente criticadas pelos democratas enquanto oposição.

 

O assassínio de Osama Bin Laden é uma vitória para os norte-americanos, porém meramente simbólica, haja vista a impossibilidade de o país sair-se bem nas duas guerras asiáticas. Acrescente-se que não se esclareceu até o momento o motivo da demora em localizá-lo no Paquistão, aliado ambíguo dos Estados Unidos, em uma cidade em que ele residia a centenas de metros de uma academia militar.

 

É possível que a relação anfibológica entre Washington e Islamabad tenha gerado o destino final do mentor dos atentados de 2001 – um agrado devido ao descontentamento da Casa Branca no tocante à desenvoltura dos integristas em solo paquistanês.

 

No próprio Paquistão, há uma antiga divisão política no serviço secreto, por causa do apoio (velado) de parte dos servidores de lá aos fundamentalistas no Afeganistão. Com o propósito de obter mais apoio do governo americano ou de enfraquecer o segmento religioso mais conservador, setores mais ocidentalizados da espionagem local podem ter comunicado a localização precisa do mais famigerado adversário dos Estados Unidos. Enfim, há várias lacunas na narrativa da morte do terrorista.

 

Do ponto de vista político, o falecimento de Osama é uma vitória de Pirro da gestão de Barack Obama, porque, após gastar centenas de milhões de dólares durante anos na busca de seu paradeiro, a influência do saudita perante a resistência afegã era cada vez menor, até por conta da dificuldade de circular perante a insurgência. À medida que o tempo passa, o impacto do 11 de setembro diminui.

 

Todavia, o simbolismo para a população estadunidense é significativo. Apesar das objeções da comunidade internacional, a ação para a opinião pública americana foi válida, não obstante a aparente característica de vendeta.

 

Por último, Obama teve mais êxito que Wilson, democrata como ele. Este não conseguiu, nem sequer tardiamente, punir Pancho Villa, cujas tropas, em janeiro de 1916, atacaram um trem no norte do México e assassinaram dezessete cidadãos norte-americanos. Logo depois, atravessaram a fronteira e investiram contra Columbus, no Novo México, com a conseqüente morte de mais dezessete pessoas. Além do mais, queimaram a pequena cidade.

 

Por quase um ano, tropas americanas sob o comando do General John Pershing – futuramente, ele seria o oficial mais graduado da história do país - tentaram em vão capturar ou matar o revolucionário ou, na visão estadunidense, o bandido mais famoso da época, não obstante as diversas incursões no território mexicano.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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Última atualização em Terça, 28 de Junho de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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