Questões da base

 

Há muitos anos não tinha a oportunidade de participar de um debate sobre conjuntura, promovido por um núcleo do PT. Eu já não acreditava que núcleos existissem, mas acabei redescobrindo que, como as bruxas, que los hay, los hay. Pelo menos o do Largo do Machado, no Rio, tem sede numa sala, lista de presença e, o que talvez seja o mais importante, reuniões e atividades constantes. Cerca de 30 petistas, alguns jovens, vários maduros e uns poucos de cabelos brancos, apertados no espaço exíguo, me colocaram diante de perguntas que eu supunha esclarecidas para o conjunto da militância.

 

Dilma segue as linhas mestras do PT? O PT vai retomar sua função efetiva e seu papel histórico de organizador e mobilizador social? Como deve ser a relação partido-governo? O partido deve ou não ter autonomia? Como avançar nas reformas de cunho social e ter uma política mais consistente de defesa dos trabalhadores e do povo? Por que a reforma agrária continua como um problema? Qual a relação do governo Dilma com os movimentos sociais? Como ser ouvido pelo partido e pelo governo, inclusive para fazer críticas construtivas? Quais as metas do governo Dilma para educação e combate à pobreza? Vai ser mantida a política internacional do governo Lula, ou vai haver mudanças, segundo a imprensa está repisando? A política cultural vai ter retrocesso, como está parecendo na questão dos direitos autorais? Como ficará a política de câmbio e juros? Vai haver retrocesso na política econômica, com a retomada da elevação dos juros e da compressão do consumo? Vão ou não ser reforçados os mecanismos de democracia direta, em especial nos meios de comunicação? Dá para quebrar os oligopólios da comunicação? Por que o partido proibiu manifestações contra a visita do Obama?

 

Se os petistas organizados em núcleos estão com perguntas desse tipo, não é difícil imaginar a pauta de dúvidas que o restante da base partidária quer ver atendida, e com certa urgência. É evidente que perguntas desse teor poderiam ser melhor respondidas por dirigentes do PT ou petistas com postos no governo, encargos que este publicista não possui. Por outro lado, não ter tais encargos talvez tenha me permitido uma maior liberdade de expressão e de provocação, no sentido de estimular o raciocínio crítico que sempre marcou a militância petista.

 

De cara opinei que o governo Dilma não é do PT, embora seja dirigido por esse partido. É um governo de coalizão, ou de aliança, com forças que vão da esquerda até a direita. Portanto, é um governo tanto de cooperação, quanto de competição e luta entre as diferentes forças que o compõem. Cooperação porque há alguns objetivos táticos comuns a todas essas forças, como o desenvolvimento e o crescimento econômicos, a reconstrução industrial e da infra-estrutura, o desenvolvimento agrícola, a inserção e projeção soberana do Brasil no mercado e no cenário mundial. Dizendo de outro modo, cooperação para o desenvolvimento independente do capitalismo brasileiro.

 

Competição e luta porque há objetivos táticos e estratégicos diferentes. Por exemplo, o desenvolvimento social e o crescimento econômico com distribuição de renda é um objetivo tático, dentro do governo, da esquerda, da centro-esquerda e, talvez, de alguns setores de centro. Mas, com certeza, não de todo o governo. O reforço das empresas públicas estatais e não-estatais como instrumentos de política econômica e social, a reforma agrária e o desenvolvimento da agricultura familiar como suportes da produção e seguridade alimentar, a democratização do capital através do apoio e estímulo às micro e pequenas empresas, o rompimento dos oligopólios para liquidar os preços administrados e o tratamento dos países sul-americanos e africanos como iguais são objetivos táticos e, em certa medida, estratégicos, apenas da esquerda e da centro-esquerda do governo.

 

Portanto, mesmo sendo de ordem tática, são objetivos em permanente disputa interna.

 

Não se trata de disputas de visão ou de conceitos. Trata-se de disputa em que estão em tensão interesses contraditórios. Realizar o crescimento com distribuição de renda significa, em algum momento, que o governo pode ter força social que lhe permita obter ampla maioria para implantar uma reforma tributária progressiva. Isto é, uma reforma em que quem ganha mais paga mais, em que as heranças serão tributadas etc. Ou seja, em que os lucros serão afetados.

 

Reforçar as empresas públicas estatais e não-estatais como instrumentos de política econômica, com eficiência econômica e capacidade de disputa no mercado, não é apenas um desmentido à idéia de que empresas públicas são ineficientes. É também um atestado de que a sociedade não precisa ficar refém do privatismo. Desenvolver a economia agrícola familiar voltada para a produção de alimentos é um perigo para o domínio que o agronegócio impõe ao crédito agrícola e ao papel que arrota como sustentáculo da nação. Democratizar o capital, com suporte a milhões de micro empresas privadas, embora ainda esteja nos marcos do capitalismo, é uma ameaça frontal ao processo de oligopolização do capitalismo corporativo. E tratar os demais países como iguais é algo que agride o pensamento conservador e nacionalista de direita.

 

Portanto, nessas questões de ordem tática estão envolvidos processos de ordem estratégica, relacionados com perspectivas populares, democráticas e socialistas. São questões que envolvem milhões de pessoas e, portanto, têm desdobramento não apenas econômico e social, mas também político. Quem pensa que os aliados situados mais à direita não estão atentos a tais detalhes certamente está enganado. Em suma, tenhamos ou não consciência sobre o que está em jogo no governo de coalizão, a disputa interna dentro dele se relaciona tanto com interesses imediatos quanto com profundos interesses de longo prazo.

 

Nesse sentido, o problema não consiste em saber se Dilma segue as linhas mestras do PT. Consiste em saber se os petistas e outros militantes de esquerda, que estão no governo, no Congresso e em outros órgãos de poder, em conjunto, têm consciência clara do que está em disputa. Isto é particularmente importante porque nos encontramos numa fase da história do país em que aumentou consideravelmente a participação política das camadas sociais, seja em eleições, seja em outras formas de participação política, mas reduziram-se, também consideravelmente, suas mobilizações massivas.

 

Há os que acusam o governo petista de ser responsável por essa desmobilização social, ao colocar em ação seus programas sociais. Supõem que se o povo estiver pior se mobiliza com mais facilidade, o que a história já demonstrou ser falso, tanto no Brasil quanto em muitos outros países. Por outro lado, há muita gente que espera que o governo tenha poder de mobilização e aja nesse sentido. O que apenas põe a nu o velho viés voluntarista sobre a capacidade subjetiva de mobilizar o povo.

 

O povo tem seu próprio ritmo de aprendizado e mobilização, e decide o momento em que deve transformar suas reivindicações, aspirações e descontentamentos em ações massivas, independentemente de governo, partidos e lideranças, como mostraram as grandes revoltas e mobilizações dos povos do norte da África. Mas isso é assunto para a próxima semana.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #6 Da irresponsabilidade políticaClaudio Rocha 15-05-2011 09:53
A sociedade brasileira, que inclui a "gente diferenciada" tem evoluido, apesar dos históricos entraves patrimonialistas que ainda atuam ativamente no Estado brasileiro. Há ainda, militantes que preferem continuar com pedras nas mãos ao invés de arregaçar as mangas e dar sua contribuição para governar o Brasil. Bom, é melhor deixar esse abacaxi para os "reformistas e social-democratas do PT, pois não quero comprometer meu cabedal político sujando minhas mãos, governando. Prefiro me juntar aos chicos de oliveira da vida... é mais cômodo"!!´
Penso ser muito mais fácil ler sobre hegemonia do que exercê-la ou tentar exercê-la. Coisas da política (oportunista e infantil) que um setor da esquerda brasileira ainda insiste em praticar.
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0 #5 Velho discurso desmoralizadoRinaldo Martins 13-05-2011 17:51
Esse discurso de \"aliança tática\", \"coalizão\" entre esquerda e direita, a história no nosso país e no mundo já desmentiu tão fartamente que não vale a pena sequer dedicá-lo profunda análise,de tão desmoralizado que está.

Aos militantes de boa vontade que ainda acreditam no PT e que procuraram o WP para saber se o partido ainda tem jeito, proponho pesquisar, no site do TSE, os financiadores da campanha dos principais candidatos e líderes do partido. Se aquilo é apenas uma aliança tática então papai noel também existe.
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0 #4 PT é incômodoRaymundo Araujo Filho 10-05-2011 23:07
A coisa está tão à direita que, sob a ótica do WP, até este partido pré reformista que se tornou o PT, incomoda.

Esqueceu de dizer, o Pomar, que um preço foi pago para a domesticação dos quadros e dirigentes petistas. Foram empregos, contratos com ONGS, corrupção pura e simples, entre outras.

E o Povo? Wladimir Pomar chama esta Anestesia Social de postura de quem está aprendendo....
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0 #3 Adriano 10-05-2011 21:43
perguntas, perguntas e mais perguntas...
Reforma agrária não sai porque a menina dos olhos do governo é ao agronegócio.
Faltam mobilizações porque grande parte dos "dirigentes" está cooptada pelo governo ocupando cargos.Que mais.. ah, então esse voltou a ser um governo em disputa? governo Dilma não segue a linha do PT? Qual partido ela segue a linha? e pra finalizar, de novo essa idéia de desenvolver o capital nacional junto com a parte "nacionalista" de nossos capitalistas. Há ainda quem acredite no bom capitalista.
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0 #2 Matheus 10-05-2011 13:33
Acho que poucas vezes vi tanto contorcionismo verbal para se justificar o oportunismo político de um partido que abandonou todos os seus compromissos com as classes subalternas apenas para tomar o poder e ser o distribuidor de beneses estatais entre os oligarcas brasileiros. O governo não é do PT? Ora, o partido controla o executivo federal, uma maioria simples no congresso nacional, bancada importante no senado, além de ter uma presença das maiores nos executivos e legislativos estaduais e municipais. Como diabos, então, este partido não controla, não possui poder, não pode fazer nada? Se ele se prendeu a compromissos oligárquicos, tanto financeiros quanto políticos, foi porque tomou essa decisão. Abandonou o programa, em troca do apoio empresarial para a eleição, do apoio parlamentar e midiático reacionário para que pudesse governar sem consultar a população, sem mobilização popular. Sem falar da corrupção, que faz com que todas as críticas petistas aos hábitos políticos tradicionais da elite brasileira soem, no mínimo, hipócritas, menos hipócritas apenas que a insistente e fictícia denúncia de uma conspiração de \"elites\" que qualquer análise mais ponderada mostram que estão mais que alinhadas com o PT. Toda esta papagaiada sobre o governo não poder fazer nada, de \"estar em disputa\", disso e daquilo, é tão somente uma estratégia retórica para justificar que o PT, mesmo se integrando plenamente ao jogo patrimonialista e subimperialista do capitalismo brasileiro, continue defendendo verbalmente programas reformistas, enquanto, na prática, aplica uma política sócioeconômica privatista, assistencialista e corporativa, usando empresas públicas para proporcionar lucros às elites tão denunciadas e comprar o apoio político das camadas mais pobres e desorganizadas do proletariado. Só para não esquecer, a desmobilização dos movimentos sociais (que se combina com as medidas administrativas de repressão de FHC, que foram herdadas e mentidas por Lula) se faz pela cooptação de lideranças e aparelhamento de organizações, além da sórdida manipulação demagógica que tem o descaramento de afirmar que o governo não tenta atender reivindicações porque não pode, quando está óbvio que ele não quer. Quer continuar no poder, controlar a burocracia federal em associação com os donos do poder de sempre. São, afinal de contar, os novíssimos membros do clube dos donos do poder. Os \"programas sociais\" lulistas se limitam a uma renda mínima que não consome 1% do orçamento público federal, e não incluem o investimento na educação e saúde públicas, nem a reforma agrária e urbana. Por outro lado, não há como separar \"política social\" de \"política econômica\". É claro que quem pratica um capitalismo neoliberal vai reduzir os \"programas sociais\" ao assistencialismo, em detrimento dos direitos. Mas, para quem só quer justificar o oportunismo reacionário que o governo lulista representa, mais vale afirmar que o coitadinho do chefe de Estado não podia nem propôr o debate público, e que deveríamos disputar (e nunca criticar!) o governo, quando já está óbvio que disputar a hegemonia não implica em fazer intrigas palacianas e acordos de distribuição de cargos e investimento entre oligarcas, enquanto se dá à militância, reduzida ao peleguismo, a desculpa de que a \"correlação de forças não é favorável\", como se o próprio governo não fosse parte da \"correlação de forças\", apenas a sua inocente vítima.
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0 #1 análise lúcidajoão 10-05-2011 09:18
Parabéns Wladimir... A propósito estou lendo um livro seu "um mundo a ganhar".
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