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O grande xadrez sírio Imprimir E-mail
Escrito por Pepe Escobar   
Sábado, 30 de Abril de 2011
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No Oriente Médio, não há ironia sem megadose de arsênico. O governo de Bashar al-Assad, na Síria, põe fim ao estado de emergência vigente há 48 anos, exatamente no momento em que o país vive real estado de emergência. No mesmo dia, um jornal do regime, Tishrin, declara que "a mais sublime forma de liberdade é a segurança da pátria".

 

Pela "segurança da pátria", o regime de Assad – oligarquia familiar-empresarial-militar – invadiu a cidade de Daraa com colunas de tanques. Assad havia feito algumas concessões para acalmar os protestos sírios. Não funcionaram. Então, o regime resolveu copiar o sucesso da Casa de Saud ao implantar "democracia" no Bahrein.

 

Na dúvida, faça como faz o Pentágono: o ataque a Daraa é a versão síria da operação "choque e pavor". O problema é que o regime pode ter criado as condições para longa e sangrenta guerra civil à moda do Iraque. E, por causa disso, todos os grandes atores – regionais e em todo o ocidente – correm em busca de onde se esconder.

 

O que se vê não é o que é

 

A questão crucial na Síria – e nem as pedras veneráveis da mesquita Umayyad em Damasco conhecem resposta definitiva – é o que se abriga nos corações e mentes de milhões de sírios.

 

A oposição síria não é organizada ou coesa. Em muitos aspectos – como no Egito –, a revolução síria talvez seja revolução dos pobres. O governo de Assad aboliu subsídios para os combustíveis e deixou os preços flutuarem ao sabor do mercado; o preço do diesel triplicou; o preço de itens básicos também subiu muito; houve longa estiagem; e a explosão dos preços globais dos alimentos veio e arrematou a miséria dos sírios mais pobres.

 

Os legítimos padecimentos dos sírios incluem muita ira contra o Estado policial intoleravelmente violento; as décadas de ditadura do partido Ba’ath; os excessos de uma microscópica elite comercial, em contraste com o alto desemprego entre os jovens – e tudo isso num contexto em que as classes médias e os pobres têm de lutar pela vida, com salários baixos e inflação alta.

 

Se houver alguma revolução popular na Síria, os novos principais atores políticos serão os camponeses pobres – em agudo contraste com a pequena elite comercial sunita e o estado policial controlado pelos alauítas.

 

Isso implica que a primeira tarefa da oposição seja, por enquanto, seduzir as classes média e alta nas grandes cidades, sobretudo em Damasco e Aleppo. Mas mesmo que os protestos na Síria não alcancem proporções da Praça Tahrir egípcia, podem fazer o regime sangrar lentamente até a morte, paralisando a economia.

 

O ímpeto revolucionário na Síria parece ser muito mais hardcore que o do movimento "Verde" no Irã. Os manifestantes não querem reformas no regime – o que absolutamente não admitem; querem o fim do governo do partido Ba’ath, único meio para conseguir derrubar o estado de segurança controlado pelos alauítas, com seu componente chave de negócios-corrupção.

 

Alguns manifestantes são pacifistas. Alguns já começam a usar armas leves improvisadas. Na luta contra a repressão estatal armada, só parece haver uma saída: a ação direta, chamada "luta armada".

 

O regime já interceptou vários caminhões carregados de armas contrabandeadas do Iraque. Ricos sunitas do Golfo já ofereceram e garantem apoio financeiro. E, aspecto crucialmente importante, as armas aparecerão no confronto também por motivos associados à Fraternidade Muçulmana, porque governos regionais como Turquia e Líbano não querem o fim do governo de Assad. Entendem que privilegiar a Fraternidade Muçulmana, e inclusive outros grupos jihadistas, é receita para o caos.

 

Quanto a alguma R2P ("responsabilidade de proteger") que levasse a ONU a criar zona aérea de exclusão sobre a Síria, esqueçam. Diferentemente da Líbia, a Síria não tem petróleo nem fundo soberano milionário cobiçados.

 

E entram os sauditas

 

A dinastia sunita al-Khalifa que governa o Bahrain, de população majoritariamente xiita, diagnosticou como conspiração iraniana as manifestações populares na ilha do Golfo. O regime Assad culpou também uma conspiração externa (e "bem conhecida") – mas recusou-se a nomear os conspiradores. Não interessa a Bashar al-Assad antagonizar a Arábia Saudita, mas ninguém duvida de que a Casa de Saud esteja profundamente envolvida na desestabilização da Síria, pelo apoio que dá às redes salafistas.

 

Daraa está a 120 quilômetros ao sul de Damasco, próxima da fronteira com a Jordânia, em área muito sensível de segurança. É região árida e pobre. Não por acaso, o capítulo jordaniano da Fraternidade Muçulmana nasceu em Daraa.

 

Os sauditas wahhabistas, que têm muita influência sobre a Fraternidade Muçulmana síria, tiveram ativa participação na incitação do povo de Daraa e de Homs. O sofrimento dos pobres com a seca prolongada explica muita coisa. Damasco esqueceu a região. Mas esses sofrimentos reais foram significativamente instrumentalizados.

 

Há anos, a Casa de Saud pagou 30 milhões de dólares para "conquistar" o vice-presidente sírio Abdul Halim Khaddam. A conquista foi facilitada porque Khaddam é parente do rei Abdullah da Arábia Saudita e do ex-primeiro ministro do Líbano Rafik Hariri. Khaddam partiu para a França, exilado, em 2005. Já há muito tempo a Arábia Saudita usa Khaddam e outros líderes exilados da Fraternidade Muçulmana contra o governo de Assad. Khaddam tem passaporte saudita. Seus filhos, Jamal e Jihad, têm mais de 3 bilhões de dólares investidos na Arábia Saudita.

 

A agenda da Casa de Saud, na essência, é detonar a aliança Teerã-Damasco-Hezbollah para minar a resistência do Hezbollah contra EUA/Israel. Portanto, o que se tem na Síria é EUA, Israel, Jordânia e Arábia Saudita, mais uma vez operando a favor de uma mesma agenda comum. As apostas, aí, são extraordinariamente altas. O que se vê não é o que é.

 

Quer dizer, além de todos esses interesses estrangeiros, há, sim, movimento de legítimo protesto popular na Síria. O Partido Ação Comunista, por exemplo – que há décadas faz oposição ao regime – continua na oposição. Mas não se conhece o componente de esquerda que há na oposição. A agenda ultra-sectária de muitos manifestantes não é bom sinal.

 

E a estrada à frente pode ser muito acidentada: a corrente secular, progressista, que há na oposição – digamos que, por ora, seja minoria – pode bem estar apanhada numa arapuca, em cenário como o do Irã de 1979-1981; como pode acontecer, também, de ser esmagada pelos fundamentalistas, se o regime cair.

 

É fácil entender que os progressistas vacilem, quando se vêem aliados à medieval Casa de Saud – que comandou a contra-revolução à grande revolta árabe de 2011 – no movimento para derrubar o regime de Assad. Os progressistas também têm boas razões para tremer, se se vêem aliados a Israel - quando Israel dá a impressão de desejar que Assad permaneça no poder - se a alternativa for a Fraternidade Muçulmana. Nesse sentido, a aliança sauditas-Israel existe no que tenha a ver com a contra-revolução do Bahrein e da Líbia, mas não existe no que tenha a ver com a Síria.

 

No Líbano, a TV Al-Manar, do Hezbollah, tem repetido que os protestos na Síria são parte de uma "revolução dos EUA". É possível que sejam, em parte – porque Washington investe, há décadas, em grupos de oposição em vários pontos do Oriente Médio. Mas, no pé em que estão as coisas hoje, parece mais operação da Casa de Saud, misturada à ira popular genuína contra décadas de governo policial do partido Ba’ath.

 

Por sua vez, o rei Abdullah da Jordânia tenta desqualificar o argumento de Assad ("ou eu ou a Fraternidade Muçulmana") e, como era de esperar, tem dito que se trata de conter o Irã. Abdullah está convocando árabes e ocidentais para que apostem suas fichas numa coalizão de tribos curdas, druzas e sunitas e na classe média urbana sunita (aliada dos sauditas), para formar o governo da Síria pós-Assad.

 

Compensar na Síria a perda do Egito?

 

O jornal sírio Champress publicou notícia interessante. O que o regime define como "conspiração contra a Síria" seria plano dos EUA para compensar a "perda" do Egito. Por isso os EUA "ignoram os apelos por reformas" na Arábia Saudita e no Bahrein, onde deixam, "em silêncio", que a repressão prossiga.

 

O plano visaria criar total caos na Síria, empurrá-la para o campo de influência dos sauditas, reduzir a influência do Irã no conflito árabe-israelenses e torpedear a aliança Turquia-Síria.

 

Faz perfeito sentido. O eixo Teerã-Damasco-Hezbollah é o único contrapeso em todo o Oriente Médio contra a hegemonia EUA-Israel. Damasco frágil enfraquece simultaneamente Teerã e o Hezbollah. Não por acaso, no Líbano, o ex-primeiro-ministro Saad Hariri – sunita, basicamente lacaio da Casa de Saud – não se cansa de repetir essa retórica sectária.

 

Os sunitas sírios, tanto quanto os wahhabistas sauditas, são inimigos da seita alauíta – ramo do xiismo – que controla grande parte da riqueza do país, apesar de só representar 12% da população. Não surpreende que a Casa de Saud e a Fraternidade Muçulmana – furiosamente anti-xiitas – tentem, há décadas, livrar-se do regime sírio dos alauítas.

 

A aliança Turquia-Síria – que progrediu ao ritmo em que regrediu o antigo entente Turquia-Israel – também está em perigo. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan e o ministro turco de Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, andam ocupadíssimos reunindo Turquia, Síria, Líbano e Jordânia como bloco econômico, alimentado com muitos investimentos e alta tecnologia turca. Ninguém sabe o que acontecerá se houver mudança de regime em Damasco.

 

A Síria é importante em todos os fronts – do Irã ao Iraque, da Turquia ao Líbano, da Palestina a Israel. Mas o que a intervenção da Casa de Saud está fazendo ao país é, sobretudo, terrivelmente destrutivo: disseminando por todo o Oriente Médio uma epidemia sanguinária de sectarismo (começou no Bahrein).

 

Washington adorará que a Síria seja desestabilizada, se isso levar à restauração da hegemonia regional de EUA-Israel, muito seriamente ameaçada desde a emergência de um novo Egito. Mas esqueçam para sempre qualquer ocidente que implantaria alguma "democracia" na Síria. Se a história não nos pregar alguma grande peça – como Bashar al-Assad assinar, semana que vem, tratado de paz com Israel –, então EUA, França e Grã-Bretanha não moverão uma palha para proteger civis sírios e não se incomodarão se o regime (com Assad ou sem) chocar, apavorar e matar todos os sírios e reduzir a ruínas toda a Síria.

 

Cabe hoje aos sírios progressistas acertar o passo, unificar o discurso e provar que Bashar al-Assad errou. Porque, se não for com ele, será com algum mestre salafista horrivelmente retrógrado e apoiado pela Casa de Saud.

 

Pepe Escobar é jornalista.

Publicado originalmente no Asia Times

Tradução: Vila Vudu.

 

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Última atualização em Quarta, 04 de Maio de 2011
 

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