O enterro de Wellington

 

“Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó retornarás”.

(De cerimonial fúnebre católico)

 

O corpo do jovem Wellington Menezes de Oliveira, morto aos 24 anos, ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, portador de transtornos mentais, vítima de maus tratos e humilhações quando era aluno da escola e autor dos disparos que mataram 12 estudantes da escola e feriram outros 12, alguns gravemente, foi depositado na última sexta-feira da paixão, 23/04, num buraco raso e sem lápide no Cemitério do Caju, na zona portuária da cidade.

 

Nenhuma autoridade de primeiro, segundo ou décimo escalão compareceu. Nenhum ministro religioso – católico, evangélico, islâmico ou umbandista – esteve presente para rezar pelo jovem homicida e suicida e manifestar compaixão por seu trágico destino.

 

Filho de paciente psiquiátrica abandonada nas ruas, segundo informações divulgadas pela mídia, e criado por pais adotivos já falecidos, Wellington tinha cinco irmãos adotivos, além de primos e sobrinhos. Nenhum desses parentes reclamou o corpo, nem compareceu ao sepultamento.

 

Nenhum procurou respeitar o pedido de Wellington de que seu corpo fosse enterrado ao lado de sua mãe adotiva, provavelmente a única pessoa que lhe dedicou atenção e afeto ao longo de sua breve e dilacerada existência.

 

A conduta de seus irmãos adotivos, mesmo que ditada por medo, confirma o abandono em que Wellington foi relegado numa casa herdada nos últimos meses de vida e o desabafo do jovem, registrado num dos textos encontrados nessa casa, de que ele não tinha uma verdadeira família.

 

Houve em Realengo duas tragédias superpostas: a das crianças e pré-adolescentes mortos e feridos estupidamente e a do jovem doente e solitário que os alvejou. Essa última tragédia tem sido, porém, negligenciada e Wellington tratado como um “monstro”, como estampou a revista Veja em capa, “monstro” que não mereceu atenção nem tratamento quando era vivo e não tem merecido respeito após sua morte.

 

Fotos do precário enterramento de Wellington no Cemitério do Caju mostram uma vasta área de terra seca, nua, poeirenta, por onde se espalham 5 mil covas rasas, sem delimitação, nem identificação, nas quais são deixados os corpos de indigentes e desamparados como Wellington . Muitos cães e cadelas de estimação são sepultados com mais regalias. Em nossa sociedade capitalista, os preconceitos ideológicos e as diferenças sociais se estendem até mesmo às condições e ritos de sepultamento.

 

Duarte Pereira é jornalista.

 

 

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Comentários   

0 #5 adriano 27-04-2011 14:03
Pois é, os religiosos poderiam muito bem dar o exemplo de perdão e terem comparecido a cerimônia. e os outros indigentes e desamparados, que crime cometeram?
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0 #4 jeferson maia albuquerque 27-04-2011 11:31
Parabéns Duarte Pereira por esta excelente matéria, infelizmente em nossa sociedade é assim que acontece as pessoas massacram, humilham, não importa com o sofrimento alheio, mas quando esta pessoa que a vida toda foi humilhada, massacrada, ridicularizada resolve fazer algo, é simplesmente taxado e marginalizado por essa sociedade hipócrita que vivemos. Ninguém se importou com o Wellington quando vivo, ainda mais como morto, mas se ele tivesse uma grande herança com certeza estes irmãos adotivos estariam todos em volta do caixão bajulando para depois correr para o cartório mais próximo e dar entrada no inventário para providenciar a herança. Nada justifica o que ele fez, mas a sociedade não deve julgar este rapaz como estão julgando, lembre-se quem pode julgar é somente Deus, quando apontamos um dedo para um semelhante repare que tem três dedos apontando para nós mesmos, portanto julgar e condenar só cabe ao único que não tem pecado Jesus Cristo que morreu por nós.
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0 #3 Wellington a 13a. VitimaJosé Mauro 26-04-2011 14:16
A sociedade humana, moderna, cada dia mais materialista, cheia de ódio e preconceitos. Não demorará muito e voltaremos à barbárie da justiça com as próprias mãos e a queima-roupa como mostrava os filmes do velho oeste. A mensagem do amor cristão está esquecida, principalmente o "amor pelos inimigos" como Jesus ensinou. Deus tenha as almas das vitimas do Wellington em bom lugar e a alma sofrida do homicida com toda misericórdia.
Parabéns pelo artigo, nem todos os jornalistas são aves de rapina.
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0 #2 Descaso IIJoão Raimundo 26-04-2011 13:19
O caso do Wellington teve mais repercursão, mas ainda foram procurar saber da vida dele e o que pode ter levado o jovem a cometer esse absurdo. Na semana passada uma senhora (na aparência ao menos) abandonou uma criança numa caçamba e foi filmada. A mídia a condenou e a execrou. A mulher muito pobre ganha R$ 600 por mês e tem mais 6 filhos. Foi presa e exposta publicamente. Ninguém informou o que levou a mulher a cometer tal ato, como vivia, e o que aconteceu com seus filhos. Todas reportagens tinham um único objetivo provocar a comoção. É lamentável esse comportamento da mídia.
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0 #1 Reflexo da sociedade capitalistaAndre Aparecido Bispo 26-04-2011 13:07
Em um pais onde a vida nao tem validade ,somente o que resta é a morte é logico depois de lutar muito.O que aconteceu com o Wellington acontece toda hora com os nossos irmão.Quantoos(as) pessoas sofrem e nao tem acesso a saude publica.Enquanto isso governantes que dis representar o povo esbanjam dinheiro.Socialismo ou barbarie.O que esta acontecendo em nossa sociedade esta mais para barbarie.até nao vamos nos importar com as condiçoes de vida que estao a maioria da população?
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