Sem tréguas

 

Nem bem passaram cem dias de governo Dilma e já assistimos a uma campanha orquestrada para demonstrar a sua incompetência. Essa campanha começou com a unção do senador Aécio Neves como nova liderança nacional do PSDB, aparentemente com o apoio de Serra. Aécio atacou desabridamente o PT, comparando-o negativamente ao PSDB.

 

Depois disso, surgiu o estudo de um pesquisador de um organismo estatal, apontando que as obras dos aeroportos, para atender ao crescimento da demanda de transporte aéreo, seja pelo aumento do poder de compra da população de baixa renda, seja pelo afluxo de visitantes para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, não ficariam prontas a tempo para a Copa. Coincidentemente, no dia seguinte, apareceu ao vivo a propaganda política do PSDB, acusando o governo de incompetência nas obras e insinuando que há algo de errado (não chegou a dizer de podre) nesses projetos.

 

No mesmo período, um grande órgão da imprensa noticiou que o governo não tratará mais da inflação, com base na leitura transversa da declaração de alguma autoridade ou pesquisador. Coincidentemente, logo depois, a propaganda política do PSDB acusou o governo de incompetente no controle inflacionário, algo que, segundo ela, estaria resolvido desde 1994 (a memória curta impede a oposição de reconhecer o estouro inflacionário do final de governo FHC), e que haveria algo de errado (ou de podre?) nessa questão.

 

Essas dobradinhas coincidentes estão ocorrendo em relação a diversos outros assuntos, como o enfrentamento da crise econômica global, iniciada em 2008, o baixo crescimento das taxas de investimento, a desindustrialização, a queda na balança comercial e qualquer outro assunto que possa servir para atacar a suposta incompetência do governo e insinuar que existe algo de podre no reino petista. Algum especialista, do governo ou não, ingenuamente ou não, planta um estudo crítico. Isso, ou algum ponto tirado do contexto, logo se torna manchete num dos órgãos da grande imprensa. E, imediatamente ou mais tarde, se torna peça de propaganda do PSDB, DEM ou algum de seus aliados.

 

Em outras palavras, a idéia de que a oposição continuaria desarticulada, dividida e inativa por um longo período já não tem mais sentido. Seus componentes chegaram a um acordo tácito para a guerra publicitária contra o PT e a pressuposta incompetência do governo Dilma. É lógico que essa campanha se choca com a realidade, mas ela pode ser acompanhada de sabotagens e trabalhos de sapa no interior do Estado. E alguns de seus argumentos jogam com interesses díspares, podendo encontrar ressonância em setores sociais e políticos que, neste momento, fazem parte do campo aliado. Portanto, não se pode deixar que apenas o tempo demonstre que a oposição reacionária está assacando mentiras e inverdades.

 

Tomemos o caso das taxas de investimento. Em termos percentuais, o governo Lula não conseguiu ultrapassar os 19% do PIB, quase a mesma taxa anual de investimento do período FHC. A direita tem se aproveitado do discurso da ultra-esquerda, que acusa Lula de haver mantido uma taxa de investimento semelhante à de FHC, o que comprovaria que Lula e FHC teriam sido idênticos.

 

É verdade que essa taxa é relativamente baixa para alavancar um crescimento econômico sustentável. No entanto, tanto a direita quanto a ultra-esquerda escondem que a natureza dos investimentos no governo Lula foi radicalmente diferente dos investimentos no governo FHC.

 

Neste, os investimentos foram realizados principalmente para a compra de empresas estatais e privadas brasileiras e para o jogo especulativo na bolsa de valores. No governo Lula, embora não tenha sido fechado o cassino da especulação financeira, a privatização dos bens públicos foi paralisada e os investimentos diretos foram direcionados para a instalação de novas plantas industriais.

 

Nesse sentido, a acusação de que Dilma continua pondo em prática uma política de desindustrialização é, na melhor das hipóteses, propaganda enganosa, que mereceria sanções do Conar. Na verdade, por trás dela há uma intrincada teia de interesses de corporações estrangeiras e empresas mistas e brasileiras, que se sentem ameaçadas pela concorrência chinesa. Bobagens como a acusação de que o governo só se preocupa com investimentos no agronegócio, na mineração e no pré-sal, na perspectiva de vender soja, minérios e petróleo para o dragão China, são repetidas à exaustão, às vezes por economistas e politólogos de certo renome.

 

Tanto no governo Lula, quanto nos primeiros meses de governo Dilma, a preocupação com o processo de industrialização se expressou no PAC, na decisão política de sediar a Copa, as Olimpíadas e vários outros eventos internacionais, indutores de modernização da infra-estrutura (totalmente sucateada durante os 12 anos de governos neoliberais); e, agora, na decisão de visitar a China para dar um novo salto nas relações comerciais, econômicas, científicas, tecnológicas, sociais, culturais e políticas com aquele país.

 

Assim, não é por acaso, ignorância ou ingenuidade que o PAC, as commodities agrícolas e minerais, as obras para a Copa e as Olimpíadas e as relações com a China se tornaram um emaranhado intrincado de acusações, desinformações e desqualificações. Esse emaranhado engloba a suposta comprovação de que o PAC não teve qualquer efeito real sobre o desenvolvimento econômico. Engloba também a acusação de que a exportação de commodities agrícolas e minerais representa um retorno à condição do país como produtor exclusivo de produtos primários, o que alguns economistas chamam de reprimarização.

 

O governo Dilma, além disso, não teria competência para entregar as obras comprometidas com a FIFA e o COI no tempo aprazado. E, quanto à China, esta pretenderia usar no Brasil a mesma estratégia que estaria utilizando em outros países da América do Sul, da África e da Ásia, para controlar as fontes de matérias-primas e criar mercados para seus bens e serviços de alto valor agregado. O governo Lula, assim como o governo Dilma, estaria entregando o Brasil à China.

 

Com base nessa tese, não foram poucos os comentaristas econômicos e políticos que tentaram pautar os temas que a presidenta deveria tratar com os chineses, estimulando-a a interferir nos assuntos internos daquele país, com a mesma naturalidade com que apóiam a interferência dos Estados Unidos e outras potências estrangeiras nos assuntos internos do Líbia, Egito etc., e do próprio Brasil.

 

Portanto, mal começou na presidência, Dilma já se vê sob o fogo cruzado da oposição reacionária e de setores múltiplos, que pretendem traçar o rumo do desenvolvimento econômico e social brasileiro segundo seus próprios interesses. O que impõe, tanto aos petistas, quanto à esquerda em geral, aprofundar-se mais nesses assuntos, porque a tendência não é de trégua ou amainamento. Afinal, os Estados Unidos e a Europa não conseguiram sair da crise e pretendem descarregar o ônus dela sobre os outros. Quem pensa que o Brasil vive uma trégua generalizada, e está fora dos objetivos daquelas potências, certamente será apanhado de surpresa.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #7 Reacionarismos, irresponsabilidade e irrJoão Nelson Silva 24-04-2011 09:35
Wladimir Pomar é brilhante ao fazer um artigo que pudesse ser lido por todos os brasileiros. A direitona não dorme e vive na inquietude da irracionalidade política.
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0 #6 O mesmo discurso de Delfim NettoRinaldo Martins 23-04-2011 13:51
Impressiona o grau de semelhança dos textos de W Pomar com os discursos em defesa da "política de avanço econômico e social" que Delfim Netto propagava na época em que era o todo poderoso da ditadura. Só mudaram os algozes. Antes eram os "comunistas", agora, são os setores da "direita retrógrada" os que tentam obstacularizar o crescimento e desenvolvimento promovido pelo governo "libertador".

O curioso é que W Pomar continua também, como a ditadura, criando e disseminando termos pseudo-sociológicos para diferenciar a sua linha político-ideológica, das demais. A ditadura nunca se considerou de direita, pelo contrário, se auto-intitulava "progressista". Taxava as esquerdas de "comunistas", não no sentido ideológico, mas no sentido depreciativo ( como sinônimo de "comedor de criancinhas","loucos", "demoníacos", etc). Hoje, W Pomar estigmatiza a esquerda autêntica, por fazer oposição política a esse governo vendido (como se fazia aos governos da ditadura pelos mesmos motivos), como sendo setores da "ultra-esquerda", no mesmo sentido pejorativo utilizado pela ditadura.

A verdade é que as palavras mudaram, mas a ideologia de direita continuou a mesma, daí os mesmos vícios de linguagem.
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0 #5 fabio sousa 22-04-2011 22:52
mais uma vez...

Concordo com alguns dos colegas acima, que mencionaram esse sentimento petista do autor do texto. Que o PSDB jamais se preocupou com questões que fossem boas para o desenvolvimento do país como um todo, associado a uma promoção social real, todo mundo ou pelo menos mais de metade do país já percebeu, mas vir dizer que o PT, Lula, Dilma, são pessoas honestas, que a cúpula do PT é mais íntegra do que a oposição, é "balela". O PAC todo mundo sabe para o que veio... para fazer felizes as grandes construtoras, como a Camargo Correa e outras empresas de engenharia. O pro-uni, veio socorrer as eminentes falências da faculdades de fundo de quintal, quando a universidade pública morre a míngua, sem recursos e sem dinheiro para investir em melhorias e em pesquisas de ponta. E o bolsa família não passou de esmola, num programa populista que arrancou votos de quem teve medo de perder uma miséria, que infelizmente para quem passa fome, faz diferença, pois é o suficiente para meia saca de farinha pura.
Agora o PT com o projeto do trem bala... um assalto aos cofres públicos.
Eu me indigno e penso o seguinte: " iniciativa privada com dinheiro publico??? Somos burros? ou tá faltando oleo de peroba no mercado??
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0 #4 Sem Tréguasvaléria Maurício 22-04-2011 20:37
As tentativas de investimentos feitas pela presidente Dilma,estão dando uma continuidade àquelas feitas por Lula.
Talves,não seja assim tão fácil que,países como USA e países da Europa,invistam no Brasil neste momento, onde esses países,se encontram com crises econômicas internas,mas acho que as propostas feitas pela Dilma,devem ser aguardadas para um futuro próximo.
O que eu não concordo é :Não é o momento de investir em "Equipamentos Para Inglês Ver" como a construção de aeroportos e estádios para as Olimpíadas,gasto exorbitante e compromisso assunido pelo governo Lula e que Dilma terá de cumprir.Tais investimentos poderiam ser,melhor direcionados pois há muita coisa para fazer num país em desenvolvimento.
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0 #3 mais uma vez....adriano 21-04-2011 07:56
Mais uma vez o Sr. Pomar tenta nos convencer que o governo Dilma é um governo de esquerda, e que quem não está a favor deste governo, está com a direita. De novo este discurso! O governo lula/dilma prática uma política desenvolvimentista junto com a facilitação do crédito para as camadas mais pobres, e dá-lhe quinquilharias! Agora tentam conter a inflação aumentando a taxa de juros, quem lucra com isso? Os bancos! Enquanto o povo se enche de bugigangas e dívidas setores como a sáude, a educação de qualidade, segurança (não a militarizada, mas a segurança de que todos têm os mesmos direitos e podem andar tranquilos sem se preocupar com grupos de extermínios, de trficantes ou do esculacho dos policiais nas favelas), vão mal da pernas. Uam pessoa de baixa renda que precise de um exame mais complexo pode ficar até 3 anos no aguardo!
Copa: e os despejos forçados?
PAC: E as condições de trabalhos no Jirau?
E a prepotência do governo de "esquerda" do sr. Pomar ao tratar as questões de belo monte e transposição do são francisco?
Eo novo código florestal? E os trânsgenicos? E a reforma agrária?

Perguntas, perguntas, ó raios....
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0 #2 Nathalia 20-04-2011 17:58
"O que impõe, tanto aos petistas, quanto à esquerda em geral..."O escritor continua querendo nos empurrar a idéia de que o PT ainda é da esquerda.Se pretende nos alienar, vá para a Globo, Veja...
Vem aqui elogiar o PAC, mesmo já sabendo de todas as irregularidades que cerceiam o projeto, e espalhar a UTOPIA de que a Copa e as Olimpíadas serão boas para o país...
Francamente senhor Pomar, estás no lugar errado, em hora imprópria, e só falando besteira!
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0 #1 sem treguascarlos de morais 20-04-2011 17:24
Somente para dar meus parabens pelo belo artigo e ter as maiores esperanças que tanto o PT quanto o Governo estejam a par dos problemas apresentados.
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