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Adiós, Don Samuel. Seu legado vai além do México Imprimir E-mail
Escrito por Grupo de São Paulo   
Qui, 14 de Abril de 2011
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"Hoje morreu um dos maiores sábios que defendeu durante toda sua vida os direitos humanos dos povos indígenas do México, especialmente em Chiapas. Sua humildade e grandeza humana foram o caminho que nos fez, os que convivemos com ele, seguir em organizações de fraternidade e paz na selva chiapaneca. Nossa amizade era muito próxima e respeitamos o seu modo de pensar sobre o futuro do nosso país. Com ele convivi na organização pela paz e no diálogo depois da revolta indígena de 1994 em nosso estado, com o Subcomandante Marcos à frente".

 

Com essas palavras, o poeta mexicano e chiapaneco Juan Bañuelos se despediu do bispo emérito de Chiapas, sul do México, Dom Samuel Ruiz, que faleceu no dia 24 de janeiro de 2011. Considerado um dos principais interlocutores do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), desde 1994, período em que os zapatistas deflagraram uma guerra relâmpago contra o governo mexicano, Don Samuel vai entrar para a história como o "bispo dos Indígenas".

 

Chegando ao estado de Chiapas, sul do México, em 1959, quando foi nomeado bispo pelo papa João XXIII, ele mesmo afirmou, em várias ocasiões, que seu objetivo foi evangelizar os indígenas aos moldes da ortodoxia católica. No entanto, em seu primeiro encontro com a cultura esquecida daquela longínqua região do México o próprio D. Samuel passou a declarar que seu coração foi "evangelizado" pelos indígenas.

 

Ao confrontar-se diretamente com a miséria, a opressão e a falta de liberdade dos indígenas mexicanos, tratados como escravos pela oligarquia chiapaneca, os proprietários de terra e o governo mexicano, mudou drasticamente sua posição teórica e prática frente à Igreja, sobretudo após ter participado do Concílio Vaticano II, entre 1952 e 1965, e da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, na cidade de Medellín, Colômbia, no ano de 1968, se transformando em um dos protagonistas mais expressivos da Teologia da Libertação.

 

Em 1988, criou o Centro de Direitos Humanos Frei Bartolomeu de Las Casas, presidido por ele até o seu falecimento. Aprendeu duas línguas maias, além de se tornar parceiro na luta indígena por liberdade, justiça e dignidade nas comunidades tzeltales, tzotziles, choles, tojolabales, entre muitas outras. Dom Samuel visitou, durante décadas, "a pé ou sobre animais", grande parte dessas comunidades. "Ainda não existiam as estradas e brechas que trouxeram a guerra a essas terras, mas o Tatik (como era chamado Samuel Ruiz) chegava", afirmou o jornalista. Hermann Bellinghauen, no jornal mexicano La Jornada, de 25 de janeiro. O significado da palavra Tatik é nuestro padre (pai) na língua seltal.

 

Além de se engajar diretamente na luta pelos direitos dos povos indígenas mexicanos, "o caminhante", como também era conhecido, atuou no Comitê de Solidariedade com os Povos da América Latina, peregrinando por diversos países sempre ao lado de grupos e movimentos sociais cristãos e não cristãos. "Uma de suas intervenções mais conhecidas foi em favor dos milhares de guatemaltecos que fugiram para o México no final dos anos 80 e início dos 90 para não serem massacrados pelo exército daquele país e seus esquadrões da morte, conhecidos como kaibiles", escreveu o jornalista Gerardo Albarrán de Alba.

 

Após o grito de Ya basta, proferido pelo EZLN nas primeiras horas de 1994, Don Samuel foi alvo de constantes críticas por parte dos setores conservadores, inclusive da Igreja católica, sobretudo porque foi indicado, a pedido dos próprios zapatistas, a presidente da recém-criada Comissão Nacional de Intermediação (CONAI), que se tornou a principal entidade encarregada de mediar o conflito com o governo mexicano em Chiapas.

 

Segundo comunicado do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena e Comandância Geral do Exército Zapatista de Libertação, nas palavras do Subcomandante Marcos e do Tenente Moisés, "apesar de não terem sido poucas e nem superficiais as diferenças, acordos e distância, hoje queremos remarcar um compromisso e uma trajetória que não são apenas de um indivíduo, e sim de toda uma corrente dentro da Igreja Católica. Dom Samuel Ruiz Garcia não só se destacou em seu catolicismo praticado para e com os despossuídos, com sua equipe também formou toda uma geração de cristãos comprometidos com essa prática da religião católica. Não só se preocupou pela grave situação de miséria e marginalização dos povos originários de Chiapas, também trabalhou, junto com uma heróica equipe da pastoral, pela melhora dessas indignas condições de vida e morte".

 

Os zapatistas declararam que "desde 1994, durante seu trabalho na Comissão Nacional de Intermediação, em companhia de mulheres e homens que formaram essa instância de paz, Dom Samuel recebeu pressões, perseguições e ameaças, incluindo atentados contra sua vida por parte do grupo paramilitar mal chamado ‘Paz e Justiça’. E sendo presidente da CONAI, Dom Samuel sofreu também, em fevereiro de 1995, um amargo encarceramento. Dom Samuel e sua equipe não só se empenharam em alcançar a paz com justiça e dignidade para os indígenas de Chiapas, também arriscaram e arriscam sua vida, liberdade e bens nesse caminho truncado pela soberba do poder político... Se vai Dom Samuel, porém, ficam muitas outras, muitos outros, que na e pela fé católica cristã lutam por um mundo terreno mais justo, mais livre, mais democrático, ou seja, por um mundo melhor".

 

O bispo dominicano Raúl Vera declarou que Dom Samuel abriu reais possibilidades "de diálogo entre o Exército Zapatista e o governo mexicano, para que fossem garantidas condições de vida mais justas para os povos indígenas maias da região".

 

De acordo com o defensor dos direitos humanos Pablo Romo, em texto de homenagem a seu mentor e amigo, "Dom Samuel não trabalhava só, sempre formava equipes de trabalho, sempre consultava, pedia opiniões, fazia com que todos fôssemos parte das decisões".

 

Em sua despedida, Pablo destacou o fato de ele ser um gerador de consensos coletivos, sempre levando em consideração o princípio da escuta. O "outro" sempre existiu para Dom Samuel. "Não sei se era um ‘dom’ seu ou aprendeu do mundo indígena, pois não creio que tenha aprendido no seminário. (...). Dom Samuel foi um grande articulador, um grande construtor de pontes e consensos, um construtor de pessoas com a palavra compartilhada".

 

Guga Dorea, Frei João Xerri, Andrea Paes Alberico, Elisa Helena Rocha de Carvalho e José Juliano de Carvalho, do Grupo de São Paulo - um grupo de pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim da Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

 

Contato: gruposp(0)correiocidadania.com.br

 

Artigo publicado na edição de março de 2011 do Boletim Rede.

 

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Última atualização em Qui, 14 de Abril de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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