Lula, a metamorfose que ambula

 

O ex-presidente Lula, os jornais anunciaram com estardalhaço, iniciou com êxito uma nova e promissora carreira. Ele agora vende palestras. Um palestrante "motivacional" polivalente que oferece o seu talento aos mercados do mundo. O pacote de encomendas, mal começado o outono, se mostra promissor e recheado de clientes de elevadíssimo coturno.

 

A estréia foi aqui mesmo no Brasil, em São Paulo, no dia 2 de abril: uma "injeção de ânimo" para os vendedores da LG Eletronics, a gigante coreana. A primeira palestra internacional foi contratada por outro portento dos negócios, a Microsoft, e aconteceu em Washington, para onde o ex-presidente se deslocou em jato particular emprestado pela Coteminas, outra grande empresa. Em Acapulco, escala seguinte, o pagamento ficou por conta da Associação dos Bancos do México. Na segunda semana do novo trabalho, o ex-presidente pousou em Londres, com jato fretado, para palestrar sob encomenda da multinacional Telefónica.

 

Em eventos de tal natureza, fala mais alto o brilho que emana da simples presença da celebridade contratada. Fotografias, autógrafos, coisas do gênero. Trata-se de um ritual onde, ao invés do conteúdo das palestras, o que importa mesmo é a celebração das afinidades. A LG, ao lançar novos produtos, reverencia no palestrante a explosão do consumo na "linha branca". A Microsoft o exibe como exemplo no "Fórum de Líderes do Setor Público para a América Latina e Caribe". Os banqueiros do México e a multinacional da telefonia buscam realçar o que consideram modelar no tratamento dispensado ao capital financeiro e na privatização de serviços públicos.

 

A remuneração dos "animadores" de tão seletos auditórios nunca é revelada. No entanto, os especialistas que organizam tais eventos afirmam que o ex-presidente assumiu a condição de palestrante mais caro do Brasil. É mais um espaço em que, fazendo a mesma coisa, o Lula produz um rendimento maior do que o Fernando Henrique. Cobra, dizem, duzentos mil reais por palestra no Brasil e até 500 mil no exterior. O ex-presidente, a ser verdade o que está nos jornais, já embolsou mais de um milhão de reais só nas duas primeiras semanas de abril. Se já não é, vai ficar rico.

 

Não se trata, claro, de criticar a escolha atual do Lula. A opção preferencial pelos ricos vem de antes, da guinada programática operada em seu primeiro governo, e já mereceu a crítica de muitos. O doloroso da novidade de agora é constatar a consolidação de um padrão de política. Além do sindicalismo de resultados, da propaganda suja em campanha eleitoral e até do assassinato em série, essa moda de ex-presidente virar palestrante de luxo é mais uma manifestação do processo de "americanização" da sociedade brasileira.

 

O Lula fará o que o Fernando Henrique já faz. E a escolha de ambos não passa de uma decorrência lógica e natural da postura adotada pelos dois quando governantes. Eles recebem agora a gratidão e o reconhecimento daqueles setores que se beneficiaram muitíssimo com as políticas postas em prática por seus respectivos governos.

 

Aliás, a nova carreira do Lula o coloca como colega não apenas de FHC. Ele passa a fazer parte de um verdadeiro time de ex-líderes que, na chefia de governos, agiram como artífices da subordinação da política aos desígnios dos donos do poder econômico. Assim como Lula e FHC, Bill Clinton, Tony Blair, Mikhail Gorbachev, entre outros, também são palestrantes de luxo, pagos não por acaso a peso de ouro.

 

Social-democratas, trabalhistas, socialistas e até comunistas, oriundos de grupamentos políticos críticos da exploração capitalista, eles governaram como convertidos ao credo financeiro, cristãos novos de uma cruzada cujo deus é o dinheiro. O que o historiador Tony Judt usou para definir Tony Blair, sem dúvida, vale para o grupo inteiro: "ele não acredita em privatização, mas também não é contra ela... ele apenas gosta de gente rica".

 

No começo da sua carreira anterior, quando deixava o trampolim sindical para a disputa no campo aberto da política, o Lula já fazia sucesso como palestrante. Em assembléias, caravanas, comícios e até em reuniões freqüentadas pela nata da nossa melhor intelectualidade ele dizia coisas muito interessantes e, também ao contrário de agora, não cobrava nada.

 

Em 1981, no discurso da primeira convenção nacional do PT, ele afirmava que o partido então criado, "uma inovação histórica", viria para livrar a classe trabalhadora da condição de "massa de manobra dos políticos da burguesia". Dizia que o sindicato é ferramenta adequada para melhorar as relações entre o capital e o trabalho, mas o partido é para ir além: "queremos que os trabalhadores sejam os donos dos meios de produção e dos frutos do seu trabalho". Afirmava saber que "o mundo caminha para o socialismo" e que o PT, com sua mística radical, não tinha como objetivo "buscar paliativos para as desigualdades do capitalismo".

 

Nenhum banqueiro ou multinacional de qualquer área cometeria o equívoco de colocar seus convidados para ouvir o que falava o Lula da fase anterior. Intuitivo talentoso, empirista radical, pragmático até a medula, o ex-presidente está em outra, fala "outras palavras". Afinal, ele nunca escondeu de ninguém a sua condição de metamorfose ambulante. O discurso inaugural da carreira anterior serve para mostrar o tamanho da mudança e para onde a metamorfose ambula.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Comentários   

0 #11 Sinuca de bicoRobson Santos 01-05-2011 21:47
Lula e seu governo morno, em permanente crise de identidade desde a chegada ao poder (?), só não caiu por terra porque, de fato, não representou nenhuma ameaça concreta aos interesses daqueles - nacionais e estrangeiros, e seus representantes no Congresso - que sempre se locupletaram por meio de relações escusas com o Estado. Justamente por isso, o presidente e seu grupo acreditam que, apesar dos sucessivos escândalos políticos havidos, "mas que nada afetaram os bons (?) rumos da economia", podem continuar a ser uma opção confiável a esses interesses. Se já não é pequeno o drama que vivemos, parece que continuamos a ter como grande alternativa os demotucanos (Aecin?) - ainda preferidos, aliás, pela mídia golpista -, nossos velhos conhecidos, e responsáveis, sim, por uma herança maldita de privatizações escandalosas e um endividamento irresponsável, obras de um desgoverno ilegítimo e lesa-pátria que precisam ainda ser passadas a limpo. É esse, ao menos, o quadro estrategicamente apresentado ao povo brasileiro por essa grande mídia, nada inocente, por meio da cobertura viciada dos candidatos do continuísmo. À semelhança dos sistemas bipartidários - transplantado agora forçadamente para estas paragens, com a falsa dicotomia PT X PSDB -, não há a mínima possibilidade de êxito para candidaturas e projetos alternativos de poder e de gestão republicana do Estado. Projetos que contemplem mais democracia e mais soberania, e menos desigualdade e sujeição à ditadura deste monstro acéfalo chamado "mercado", expressão que nomeia, eufemisticamente, os interesses dos já afortunados.
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0 #10 Remindo Sauim 22-04-2011 10:58
Este texto é daquela esquerda que odeia Lula por ter tirado o Brasil das garras do atraso. Deixem o homem que endireitou o país, remando na contramão do capitalismo selvagem, ganhar seu dinheirinho e ter uma velhice segura.
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0 #9 ex. metalurgicoclaudio campos 20-04-2011 20:34
caro sr.LÉO LINCE sou testemunha dessa metamorfose ambulante.trabalhei em uma montadora de veiculo de 1967 a1997 em s.bernardo do campo e hoje estou aposentado , quando estava na ativa ouvi inumeras vezes nos palanques de greves essa historia toda que escreve em seu artigo ; as pauladas criticas pesadas eram feitas em cima dos donos do meios de produção,nos banqueiros a paulada era mais forte o ex. presidente afirmava que era uma vergonha e imoral os lucros dos bancos e quanto era injusto o salario de quem criava a riquezas do nosso país que eram os trabalhadores e quem criou que eram aposentados....MAS quando chegou ao poder inverteu tudo deu mais lucro aos banqueiros,e prejudicou profundamente os aposentados quando vetou o projeto de lei do propio senador de seu partido o sr. PAULO PAIN que acabava com redutor de salario dos aposentados estes quando na ativa deu todo apoio para que chegasse a presidente... pergunto com tantas mudanças assim no comportamento de uma pessoa isso e´apenas uma metamorfose, não seria um desvio de personalidade,não compreendo não seria um comportamento de um psicopata..afinal para se ter um porte de arma é preciso passar por avaliação psicologica ,mas para ser presidente deste país e chefe das forças armadas basta ser enganar o povo com muitas mentiras e ser eleito.CHEGO até aqui concluindo que fomos traidos,e diante da maior mentira da politicagem e crime organizado no BRASIL...VIVA O BRASIL
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0 #8 13467722/67Jô Freitas 20-04-2011 19:53
Esses comentários mais parecem inveja. O que vejo muito é hipocrisia. Desvalorizam Lula, mas muitos dos que estão aí bem que gostariam de está no lugar dele.
Tô certa???...
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0 #7 Patricia Jacques Fernandes 18-04-2011 16:51
Brasil, um país de tolos! Lula apenas mostra a sua cara. Quando o que fala mais alto é o capital (dinheiro no bolso mesmo), temos gente que se dizia socialista rezando na cartilha do Capitalismo mais selvagem. A Burguesia fede, mas tem dinheiro para comprar perfume francês, já dizia o comediante. Lula é igual a qualquer político que se diz de esquerda. Tem uma boquinha aí? Então me chama que eu vou! E pensar que eu acreditei nesse canalha e na corja do PT. Bem feito para mim.
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0 #6 lulasena 18-04-2011 10:51
LULLA E O SASSA MUTEMA
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0 #5 Apenas um trocar de roupasrenato machado 16-04-2011 06:24
Meu caro professor Leo Lince , espero que seus textos despertem muitos bem intencionados , para o que realmente aconteceu em nosso país nesses últimos oito anos. Mas em relação a idéia de que o Lula de 81 era um líder completamente diferente do que é hoje , tenho alguns comentários. O discurso de Lula de 81 era todo feito de frases de efeito e velhas e usadas expressões que todo novo líder sindical de esquerda da época dizia em qualquer discurso. Só que no decorrer dos anos continuou assim. O discurso do Lula sempre foi o mesmo , vazio de conteúdo , oportunista , esperto e jogando para a platéia. Mas o que é preciso explicar professor é como foi possível que milhares de verdadeiros militantes das causas sociais e do socialismo , puderam aceitar durante todos esses anos , que um partido e uma central de trabalhadores classistas , fossem dominados por líderes que não estavam à altura das respnsabilidades históricas dessas duas instituições e que no decorrer de poucos anos essas lideranças já demonstravam claramente como funcionavam , a que vinham e o que realmente representavam.
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0 #4 o ex sindicalista LULAdaniel 15-04-2011 15:00
Lula e a sintese da ideia dos poderosos donos do mundo, posta em pratica no seu governo.
Sobe num tijolo faz discurco para os pobres e recebe os poderosos no palacio,tramando o contrario em beneficio dos donos do dinheiro.
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0 #3 1346772/67Jô Freitas 15-04-2011 10:40
"Não precisamos de vitrolas humas e, sim de inteligência, moral elevada e nobreza de carater, para não mendigar favores e proteções, que só envergonham.
É a inteligência, é o raciocínio lúcido, a moral elevada e incorruptível, é a confiança em sí mesmo, é o conhecimento exato da vida, que erguerá o mundo a um nível melhor, onde todos sejam úteis e tenham bem estar."
E onde iremos encontrar isso???...No meio político???... Isso não existe, é sonho que nunca se realizará.Brasileiro é muito conformado, o que lhe dão ele aceita sem contestar. É pobre por natureza.
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0 #2 eder 15-04-2011 09:58
essa nova fase lula, é a fase do todos aqueles que em maior ou menor medida vão remando na maré do capital, querendo dar uma forma humana que este não tem, por isso não nos enganamos com os que mudam o discuros dizendo ser tática, pois esta descolada de qualquer estratégia de transformação é a metamorfose de individuos e coletivos que antes falavam de transformações sociais relevantes, é a metamorfose do oportunismo e do0 peleguismo.
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