Cabral, Lula e o inspetor Trovão

 

 

A CPI do narcotráfico, no longínquo ano de 1999, produziu conclusões que até hoje dormem no esquecimento. Sobre elas se depositam a cada dia novas camadas de chumbo quente e ondas de fumaça da pirotecnia dos que fingem tomar providência. O relatório das investigações afirmava que, na época, os esquemas de corrupção e do crime organizado lavavam no Brasil, anualmente, 50 bilhões de dólares. O autor do relatório (que não era um esquerdista empedernido, mas um deputado do PFL que antes fora delegado da Polícia Federal) enfatizava: “sem o olhar complacente de instituições financeiras e de governos não seria possível lavar tanto dinheiro sujo”.   E mais: “Ouvimos falar de paraísos fiscais no exterior. Vimos nas investigações, porém, que o Brasil inteiro é um paraíso financeiro”. 

 

Grande novidade?  Nem tanto. Todos sabem que não se lavam montanhas de dinheiro sem bancos, corretoras, advogados, gerentes de fundos, “laranjas”. Além, é claro, da “vista grossa” de autoridades comprometidas.  Quando essa gente de colarinho branco “dançar”, os tiranetes na ponta do varejo ficarão sem as armas modernas e sem a matéria-prima que alimenta o comércio cruel e “brilha” nas festas das altas rodas. Governos sérios e polícias inteligentes começariam por tal ponto o combate efetivo ao narcotráfico e ao crime organizado.

 

Não é o que acontece, infelizmente. O bombardeio ao Complexo do Alemão, que mostra as várias faces da crise brasileira, é um documento triste do desacerto que se reproduz. Os pobres que vivem lá, humilhados e ofendidos entre a cruz e a caldeirinha, estão comendo o pão que o diabo amassou. Os barões da droga, fora da linha de tiro, estão tranqüilos. Eles e os que lhes prestam serviços no aparato contaminado do poder aguardam o rescaldo da batalha para recompor o varejo do negócio. As peças de reposição pululam na barriga da miséria. A miséria material do povo e a miséria moral de maus governantes, que ostentam a truculência como se fora firmeza.

 

O governador Cabral, que ganhara simpatias ao se declarar favorável a uma nova polícia inteligente, cedo desandou para “mais do mesmo”. É mais fácil combater, na ponta do varejo, os “barões da ralé”.  Rende popularidade e não compromete a malha de cumplicidades que espalha seus tentáculos nos mais variados aparatos do poder. E o presidente Lula não ficou atrás: resolveu também sapatear sobre os cadáveres. Faz sentido. A política econômica de exclusão social, causa poderosa da violência nos grandes centros urbanos, tem na repressão truculenta a sua contrapartida natural e necessária. Pétalas de rosas, ele distribui em outros lugares.

 

Uma foto enorme na primeira página, relógio de grife, entre baforadas de charuto, “O Globo” mostrou aquele que, segundo o jornal, “tem tudo para se tornar o símbolo da guerra não convencional que já soma 44 mortos, 19 num só dia”.  Leonardo da Silva Torres, o Inspetor Trovão da polícia civil, se declara uma vocação de guerreiro, que sonha ir para o Iraque ou para a faixa de Gaza.  Enquanto não realiza tal sonho, ele se exercita no que um colega seu definiu como “tiro ao pato” nos becos da favela. Lá, com tênis de marca e farda diferenciada, capacete, viseira e visual de filme americano, ele pousa entre cadáveres espalhados.

 

São retratos que revelam a essência de uma política que criminaliza a pobreza, garante a impunidade dos poderosos e se sustenta na truculência irresponsável dos governos. Infelizmente, a violência vai aumentar e os cavaleiros do novo apocalipse são: Cabral, Lula e o Inspetor Trovão.

 

 

Léo Lince é sociólogo. 

 

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