Oriente Médio: a queda aguardada

 

O Oriente Médio costumeiramente chama a atenção dos meios de comunicação por ser o centro da produção de energia fóssil do globo. Embora a região médio-oriental e adjacências – África do Norte e parte do Cáucaso - estejam presentes de modo constante no noticiário, é comum a difusão maciça de visões equivocadas sobre ela. Por vezes, confunde-se ela de maneira religiosa – totalmente muçulmana – ou étnica – apenas populações árabes.

 

Na política, há, sem dúvida, o predomínio de regimes autoritários, manifestos de maneira geral sob a forma de monarquias de feitio teocrático ou de ditaduras de feição secular. Muitos dirigentes moldaram-se ainda na divisão bipolar da Guerra Fria. Abrigados ora por Estados Unidos, ora por União Soviética, acostumaram-se à indiferença de um dos dois aliados no tocante ao exercício diário do despotismo, desde que mantida a órbita em torno de um deles – capitalismo ou comunismo.

 

Com o descerramento de uma nova ordem mundial, a partir dos anos 90, tais ditadores tornaram-se não só anacrônicos, mas mesmo disfuncionais, uma vez que o norte a ser adotado se resumiria na chamada democracia neoliberal, binômio até então incompatível com sua realidade cotidiana.

 

No entanto, os regimes autoritários médio-orientais e norte-africanos, apesar do inegável desgaste, mantiveram-se, mesmo que a ferro e a fogo. Em tempos de globalização, grandes potências procedem de forma pragmática, ao aceitar a convivência com um novo modelo: as ditaduras neoliberais. Destarte, concedeu-se a eles a sobrevivência política, a despeito do sofrimento diário de suas sociedades.

 

Por isso, o mundo surpreende-se a cada dia com as constantes e maciças manifestações populares em toda aquela extensão territorial, sem vínculos diretos entre si. Até o momento, assinale-se que as movimentações mais significativas aparentemente têm pouca influência de grupos fundamentalistas, mesmo no Egito, local considerado como a base intelectual do posicionamento extremista há muitas gerações.

 

Desta forma, a motivação mais substancial em todos os países de lá é a insatisfação social, agravada bastante nos últimos anos pelo decréscimo da qualidade de vida, não obstante o aumento da riqueza, proporcionada pela crescente valorização do petróleo e do gás.

 

Até o início da última década, os governos, em sua maioria, subsidiavam o preço de boa parte dos produtos consumidos pela população mais desvalida. Com isso, mantinham a estabilidade política, ainda que de forma tênue, e o alto nível de vida, através de medidas patrimonialistas, como no Egito, em que a família presidencial desfrutava de um luxuoso iate, oficialmente propriedade da Marinha.

 

O atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 alterou o quadro. O receio de sofrer retaliação militar por parte da aliança norte-atlântica, encabeçada pelos Estados Unidos, e ter por desdobramento a eventual substituição de regime levou os ditadores a aplicar o ideário neoliberal de modo parcial, ao conectar-se à orientação de organizações internacionais econômicas, com o propósito de granjear apoio externo e, portanto, de manter-se no poder.

 

Contudo, a abertura na economia não teve reflexo significativo na política, ao manter-se o poder enrijecido, sem possibilidade alguma de alargamento, isto é, sem participação maior dos cidadãos.

 

Uma das conseqüências imediatas foi a eliminação das subvenções na alimentação, na moradia ou no transporte, sem que houvesse a contrapartida de reajustar salários, dado que a receita regular do petróleo e do turismo ou a extraordinária das concessões ou das privatizações permitiria isso durante bom tempo.

 

Além do mais, a abrupta abertura da economia não ocasionou a diminuição do desemprego, visto que a implementação tecnológica e gerencial contemporânea não proporciona mais isso.

 

Assim, a erosão dos regimes da maior parte do Oriente Médio e da África do Norte era aguardada por diversos segmentos da sociedade internacional; o que surpresou todos foi o momento, uma vez que não havia guerras civis, nem embates com grandes potências, à exceção do Afeganistão e do Iraque.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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