Sobre revolução

 

O momento é especialmente favorável para tratar desse conceito. Até algum tempo atrás, da mesma forma que marxismo, comunismo e socialismo, o termo revolução parecia banido para sempre. Era apresentado como algo ultrapassado, da era dos mastodontes jurássicos, tanto por publicistas da direita e do centro quanto por muitos esquerdistas bem intencionados. Afinal, revolução realmente não é algo isento de pavores.

 

O contraponto é que os noticiários dos meses recentes se viram obrigados a criar um termo que condensasse tudo o que vinha acontecendo na Tunísia, Egito, Iêmen, Bahrein, Jordânia, Líbia e outros países árabes. Países, diga-se de passagem, contra os quais o furor norte-americano na suposta defesa dos direitos humanos e democráticos não se voltou há muitas décadas. O termo revolução foi, assim, resgatado de sua tumba, com a grande imprensa ocidental se esforçando ao máximo para colocá-lo no brete estreito da democracia liberal.

 

Nesse sentido, a Líbia e a revolta contra Kadafi passaram a primeiro e único plano, como se todo o resto houvesse voltado à tranqüilidade, após o acordo de retirada dos bodes, ou dos ditadores, da sala palaciana de alguns daqueles países. Revoluções são assim mesmo. Às vezes, elas dão um tempo, para ver até onde as concessões dos de cima atendem às reivindicações e aspirações dos de baixo. E se tais concessões não atendem tais reivindicações e aspirações, elas podem voltar com energias duplicadas. Tudo isso pelo simples fato de que revoluções são realizadas pelo povo, principalmente pelo povo pobre, que já não suporta viver como até então e já se convenceu de que não tem mais nada a perder.

 

Da mesma forma que, faz tempo, o levante popular pegou de surpresa o imenso serviço secreto e repressivo do xá do Irã e liquidou a monarquia persa, a revolução no mundo árabe do Norte da África e do Oriente Médio apanhou de surpresa a CIA e todos os serviços secretos dos ditadores pró-americanos. Como em todas as revoluções anteriores, eles também foram incapazes de acompanhar e medir o pulso das múltiplas atividades e pequenas lutas dos de baixo, e descobrir o momento em que tais lutas ou micro-tremores se transformariam num vulcão popular.

 

É difícil dizer até onde cada um daqueles povos vai em seu processo revolucionário. Primeiro, porque a maioria luta brandindo fundamentalmente o que não quer. Isto é, luta contra a ditadura, contra as más condições de vida, contra o desemprego, contra um conjunto de negatividades que tornou sua vida, e a dos seus, insuportável.

 

Apenas alguns poucos sabem, inclusive dentro do regime em xeque, quais alternativas apresentar para dar solução parcial a tal situação, umas para esvaziar o processo revolucionário, como é o caso do comando militar egípcio, outras para fazer a revolução avançar. Porém, se nenhuma delas construiu uma hegemonia, isto é, se tornou uma direção livremente consentida, a disputa se tornará ainda mais difícil. A revolução corre o risco de ser derrotada ou negociada por meio de reformas menores, que não resolverão os principais problemas trazidos à tona pela luta popular.

 

É por não entender esses aspectos da luta social que muitos setores populares não dão atenção à construção de partidos fortes, que lutem permanentemente pela hegemonia, mesmo nos períodos de longa calmaria. E que, mesmo quando tais partidos existem, haja uma quantidade considerável de dirigentes e militantes que desprezam o trabalho de criar raízes fortes com as camadas populares, através de organizações de base (pouco interessa que nome tenham) capazes de acompanhar e participar do dia-a-dia de luta democrática daquelas camadas.

 

Sem isso, tais partidos se tornam incapazes de descobrir as tendências principais de luta das camadas populares e, da mesma forma que os mais eficientes serviços secretos dominantes, são apanhados de surpresa quando o povo se levanta em revolução. Na maioria dos povos árabes em revolta, a ausência de verdadeiros partidos revolucionários parece ser uma constante, embora isto às vezes não queira dizer muito. A experiência tem mostrado que partidos de tradição revolucionária podem se perder diante dos desafios revolucionários reais, enquanto outros podem transformar-se e se desenvolver no curso mesmo da revolução.

 

Assim, não é por acaso que os Estados Unidos e a maior parte das potências capitalistas européias estejam preocupados com os rumos das revoluções árabes. Ao se darem conta de que elas têm um forte conteúdo leigo, despertaram para o fato de que tais revoluções podem ganhar o caráter de nacionais e socialistas. Elas resgatariam, assim, não só o termo revolução, mas também o termo socialismo, constituindo uma pedra a mais na crise global que enfrentam. Isso, apesar de que revoluções socialistas, em países atrasados do ponto de vista do desenvolvimento capitalista, não podem descartar de imediato a propriedade privada e as relações capitalistas.

 

De qualquer modo, a novidade de uma revolução de caráter nacional e socialista consiste em que o capitalismo nacional, por um lado, contribui para o desenvolvimento das forças produtivas e, por outro, tem que se subordinar a um processo de mercado orientado, de constante redistribuição da renda, e de presença da sociedade e do Estado na economia, através de empresas de propriedade cooperativa, pública, estatal e mista. É essa estrutura múltipla que pode impedir a sociedade civil desses países de ser apenas um apêndice do capital, como acontece nos países onde o capitalismo tem a hegemonia e o domínio.

 

As revoluções dos países árabes trouxeram novamente à tona todas as experiências revolucionárias do século 20. Só o povo pobre e trabalhador, massivamente mobilizado, faz revoluções, independentemente de haver ou não partidos revolucionários em seu seio. E esse povo só se joga no movimento da revolução quando não pretende mais viver como até então. Está contra tudo que tem pela frente e não tem mais nada a perder.

 

De outro lado, os dominantes também não têm mais como continuar regendo como até então. Eles não só perderam a legitimidade para prometer concessões, como se vêem divididos no enfrentamento contra o povo. Uma parte da burguesia procura outras saídas e se une ao próprio povo, na esperança não só de ser poupada como de conquistar a hegemonia. As classes médias também racham, com grande parte se juntando ao povão e alguns setores disputando a direção do movimento.

 

Depois de muitos anos, o povo pobre de grande parte do mundo árabe se colocou em movimento e está mudando ainda mais a geopolítica mundial, abrindo uma fenda ainda mais profunda no capitalismo dominante. Mesmo que suas revoluções não consigam consolidar o caráter socialista, este pode esperar porque, afinal, não é ele o limite do capitalismo, mas sim o próprio capitalismo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #3 Sobre revolução ?Ricardo Meier 22-04-2011 20:15
Em primeiro lugar, acho equivocado falar em processo revolucionário em curso nos países do norte da afríca e do oriente médio. a Insatisfação popular com regimes autoritários não encontra eco nas organizações populares, com exeção de grupos fundamentalistas religiosos no Yemem e no Bahrein, Fica evidente a falta de articulação interna com partidos políticos e com os movimentosa sociais organizados e a falta de uma ideologia nacionalista e socialista. Acho que encontramos mais respostas para a indignação ocidental na tentativa dos grandes grupos petrolíferos e militares ( Majors) que detinham maior poder interno nas gestões anteriores dos EUA e que agora pressionam por maior poder no cenário internacional. Estamos longe, a meu ver de situações revolucionárias, bem como da adoção de democracias liberais neste rico pedaço do mundo. A solução , como tem sido, é a adoção com incentivo de um autoritarismo mais controlado ( de fora para dentro) a fim de evitar o grande fluxo de imigrantes. Neste sentido a política externa brasileira padece de maior interlocução e de uma postura mais definidade a favor da unidade africana. Infelizmente não vejo reformas e nem revoluções, sem partidos fortes e com políticas definidas.
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0 #2 Não abandonem WP!Raymundo Araujo Filho 10-04-2011 09:14
Deixei o artigo do WP sem meu comentário habitual, para "sentir" o quanto ele provoca alguma polêmica, ou apoios. Quatro dias depois da publicação, ninguém se dignou a comentá-lo.

Cumpro assim, tarefa que me imponho, por considerar WP (que deve ser ótima pessoa...) o que há de pior na política brasileira, pois faz gol para a direita, se dizendo de esquerda.

O título deste comentário poderia ser: Povo Mobilizado é Bom, Mas no País dos Outros!

Ora! Está claro em todas as nossas intervenções críticas a WP (são mais de 70 artigos comentados) que a Mobilização Popular é a única coisa que o Povo Pobre tem a seu favor. E tenho escrito e provado que, a principal característica do Lullo - DiLLmismo é a aplicação de poderosa Anestesia Social (em que um dos anestesistas, sem dúvida é WP), com a total retirada do Povo das ruas (só ficaram os Sem Teto e Sem Terra..), com a doação de migalhas assistencialistas (stédile, afinal e com atraso, convenceu-se que o Bolsa Família minou o MST).

Então, "seu" Pomar, que fique claro que seu artigo o expõe a uma contradição mortal para quem se arvora em ser "formador de opinião" (eu me contento com a pecha de "fofoqueiro político").

O que importa é que, para Reformas ou Revolução, nada se faz sem Povo Mobilizado.

Wladimir Pomar devia se convencer a solicitar aos seus pares de Lullo-DiLLmismo que mobilizem o Povo para as reformas que dizem querer fazer...Só temo que sejam a favor do Capital.

A lição que o Mundo Árabe nos dá, é que sem estar com o Povo Protagonizando "a coisa", seremos apenas capatazes do Poder. O que está em jogo por lá, não é nenhuma Revolução, mas apenas Reformas do que é visível.

Mas, vai daí que.....
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0 #1 A revoluçao nos paises colonizadosAltemir Viana 09-04-2011 11:01
Wladimir,

É importante registrar que as revoluçoes ou a chegada da esquerda em governos populares, estão se dando nos paises colonizados e explorados pelos paises capitalistas. Veja a questao dos paises da America Latina e agora nos paises arabes. Muitos desses paises nao tem um movimento social organizado e partidos de esquerda. Eis uma questao que deve ser analisada
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