Jirau e Santo Antônio são exemplos do padrão de acumulação do capitalismo primitivo

 

A notícia explodiu nas páginas secundárias dos jornais como raio em céu azul. O canteiro de obras da Usina de Jirau, uma das jóias do Plano de Aceleração do Crescimento, foi inteiramente destruído pela revolta coletiva dos trabalhadores enfurecidos. Logo em seguida, fato semelhante afetou a Usina de Santo Antônio, quilômetros rio abaixo, na mesma região. Na semana seguinte, longe dali, fatos semelhantes pipocaram: quebra-quebra na usina de São Domingos, Mato Grosso do Sul; greve nas obras da refinaria em Pernambuco; tumulto em alojamentos da construção civil em São Paulo...

 

Essa eclosão súbita de manifestações em cascata revela a existência de problemas que, pela sua magnitude, não poderão ficar sem resposta. Em Jirau, uma verdadeira cidade de 20 mil habitantes, um gueto no meio da mata, deixou de existir da noite para o dia. Obras paralisadas. Alojamentos queimados. Escritórios, almoxarifados, centro ecumênico, refeitório, dezenas de veículos, máquinas e equipamentos, tudo destruído. Não foi terremoto ou tsunami. A causa do abalo se origina em outra natureza, a pororoca social, também capaz de provocar tragédias.

 

Enviados especiais dos grandes jornais chegaram ao local no rescaldo da barbárie. Sem atinar para as tensões que produziram a explosão, tiveram que cumprir a sentença irônica de Oswald de Andrade: quem chega atrasado aos acontecimentos "escreve sobre o que ouve e não sobre o que houve". Salvam-se, na cobertura dos jornais, as fotografias. Nelas se registra, ao fixar os rastros da destruição, a brutalidade do acontecido. São documentos terríveis sobre os tempos bicudos que estamos vivendo.

 

As explicações sobre as causas do abalo são as mais estapafúrdias e desencontradas. Os empreiteiros falam em briga entre operário e motorista, provocadores mascarados, disputa entre correntes sindicais e até traficantes de drogas, pois "a BR 364 é rota do tráfico". Pode até explicar alguma faísca, mais não o material inflamável que provocou a explosão. As condições de trabalho, dizem os porta-vozes do patronato, são as melhores do mundo e, ademais, o empreendimento é fiscalizado por auditoria internacional independente. Depois do que aconteceu, fica difícil acreditar em semelhante ficção.

 

A reação do governo federal, contratador de tais obras, foi de um ridículo soberbo. A mãe do PAC está, com razão, muito preocupada com a imagem pública do filho. Mas, ao invés de despachar representantes qualificados para analisar as raízes da violência no local do desastre, convoca reunião em palácio. Representantes do governo, das empreiteiras e pelegos das maiores centrais sindicais tomaram uma única decisão concreta: criar uma comissão tripartite, formada por eles mesmos, para estudar o que já estão cansados de saber.

 

Obras gigantescas, contratadas pelo governo, tocadas por consórcios formados pelas maiores empreiteiras do país, financiadas pelos bilhões de dinheiro público fornecidos pelo BNDES, são os ingredientes do caldeirão da tragédia. O governo quer acelerar o crescimento sem maiores indagações sobre seus impactos de qualquer tipo, ambientais, sociais e humanos. As empreiteiras gigantescas, grandes financiadoras de campanhas presidenciais, trabalham com carta branca. Para elas, a força do trabalho é só um insumo a ser consumido e consumado na busca do lucro máximo. E os pelegos estão ali para cumprir a destinação histórica que lhes forneceu a denominação infamante.

 

Quem quiser conhecer as causas da tragédia em curso, o DNA da ferocidade do capitalismo nas obras de fronteira, basta recuar um século na exata geografia dos acontecimentos de agora. Jirau e Santo Antonio são também nomes de estações da célebre Madeira-Mamoré, conhecida como a "ferrovia do diabo". Outra grande obra contratada pelo governo e tocada por empreiteiros privados que deixou um rastro de tragédia. Também lá havia canteiro com vinte mil operários trazidos de muitos lugares. Também lá houve greves e revolta, sofrimento, malária, fome, falta de pagamento, promessas não cumpridas. O mesmo de agora, com o agravante de milhares de mortos. Reza a lenda que sob cada um dos seus dormentes repousa um cadáver.

 

O capitalismo, esse que o Lula salvou e a Dilma gerencia com o aplauso do coral dos contentes, requer, para que os donos do poder econômico possam auferir lucros obscenos, canteiros de obras como os de Jirau e Santo Antônio. Reproduz condições de trabalho de um século atrás e adota padrões de acumulação próprios do capitalismo primitivo. Condições degradantes de trabalho e a exploração brutal do trabalhador são feições do capitalismo facinoroso que nos governa.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Comentários   

0 #4 Jirau e Santo AntonioLeocir 19-05-2011 07:50
Para o comentário acima que foge muito do que quero saber peço que leia o post a seguir.
http://blog.kanitz.com.br/2011/05/o-administrador-como-pol%C3%ADtico-stephen-kanitz.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+stephen_kanitz+%28Stephen+Kanitz+the+blog%29.
Infelizmente este País nunca esteve sob um regime capitalista de verdade, o que vemos hoje é um socialismo cada vez mais se apoderando de nossas instituições. Todos os governos até hoje só tiveram e têm projetos de poder. Hoje por exemplo, o que mais se vê é um capitalismo de estado. Misturaram tudo. É o caos, o tempo vai dizer é só aguardar.
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0 #3 Madeira MamoréJoão Nelson Silva 18-05-2011 19:50
Porto Velho é uma "ostra" cercada por "tubarões" por todos os lados. As FAMÍLIAS Jonshon's e Brasilinos conhecem bem e viveram as tragédias da Madeira Mamoré. A imprensa em Rondonia sabe e cala a tragédia Madeira Mamoré. Parabéns Léo Lince. A UNIR torce o rabo
Parabéns Léo Lince
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0 #2 el capitalismoorlando perez 04-04-2011 19:23
el capitalismo de mercado neoliberal sin control.solo representa ha las elites de poder burguesas y las olarquias.vajo los sistemas capitalistas se cometen las peores violaciones derechos humanos en cual quier area.por que solo se defiende el poder economico sus intereses creados por las burquesias.ejembran las grandes desigualdades sociales. y la explotacion del hombre por el hombre.pero creo que el capitalismo esta en crisis eticas morales y en reparticiones de los recursos ricos.se tiene que cambiar los formatos de los sistemas capitalistas.porque hasta hora no han funcionado para los pobre lo que ha traido mas conflictos de clases y muchos problemas mas ok
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0 #1 Capitalismo primitivo Jirau e Sto AntôniLeocir Luiz Rosa 04-04-2011 14:33
Que alternativas o sociólogo propõe? Tento entender como um País consegue se desenvolver sem atrair os investidores para fazer o melhor uso das oportunidades que se apresentam,ao mesmo tempo em que consegue atender de maneira eficiente a demanda dos consumidores em uma economia de Livre Concorrência. O estado brasileiro já detém quase 40% de toda a riqueza e não consegue resolver problemas básicos como; saúde educação e segurança, então como resolver os problemas da infraestrutura que está um caos? Quero o melhor para meu País, mas vejo que nunca tivemos uma economia liberal de fato incentivando a meritocracia que comprovadamente gera riqueza e desenvolvimento.
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