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Colocar a rede social como protagonista das revoluções em curso no Oriente Médio é, no mínimo, um grande equívoco. As tecnologias utilizadas em um movimento de tamanhas dimensões são uma questão meramente conjuntural. Por outro lado, poderíamos perguntar-nos se um mau uso dos meios, recursos, tecnologias pode comprometer uma revolução. Possivelmente. Pode não apenas perder o momentum criado levando ao fracasso do movimento contestatório como pode prolongar o sofrimento ou a repressão dos antagonistas ao regime político – ou qualquer outra hegemonia que se queira desafiar e derrubar – ainda que no final triunfe.

 

Mas assim como deus não é corinthiano, as redes sociais ou as tecnologias de informação e comunicação não têm matiz político nem social. Por si, elas não promovem câmbio, não geram consciência, não aumentam a democracia – ao contrário do que defendem muitos dos deslumbrados tecno-entusiastas – mas dependem intrinsecamente da apropriação que a sociedade promove individual ou coletivamente das mesmas.

 

Esta apropriação só será revolucionária caso encontre fertilidade previamente instaurada, não pelas redes sociais, mas pelas próprias contradições dos sistemas operantes, sejam estes de ordem política, econômica ou social. Caso contrário arrisca-se a fomentar uma modalidade muito difundida de pseudo-ativismo que vem sendo chamada de "Clictivismo". Ou seja, assim como dar uma esmola ao desprovido no semáforo pode ser uma excelente válvula de descompressão para curar a culpa dos ricos em sociedades altamente desiguais como a brasileira, "clicar" em uma "causa" no Facebook é o respiro aliviado do idealista inativo, aquele que vive sob contradição, por exemplo, trabalhando em uma multinacional de cigarros "para pagar as contas", mas cuja mãe sofre com câncer no pulmão.

 

Se por um lado o mero descontentamento não é motor suficiente para levar a uma revolução, tampouco são as redes sociais protagonistas ativas deste processo. São ferramentas contemporâneas que por casualidade histórica estão a nosso dispor, tal qual o rádio para a revolução cubana ou a imprensa para a revolução francesa. Então, qual a função real e quais são as possibilidades concretas das redes sociais para o ativismo?

 

Comunicação e Democracia

 

Os meios de comunicação são o pulso da democracia, diz Dominique Wolton, referindo-se à ideia de pluralismo, equilíbrio entre oferta de informação provida por entidades públicas, da sociedade civil e do meio privado, permitindo uma necessária multiplicidade de visões de mundo para que o cidadão leigo possa fazer juízo crítico e definir de forma analítica e subjetiva suas convicções. No entanto, a realidade que conhecemos é que o universo dos meios de comunicação tradicionais de massa se encontra altamente concentrado – vide o império de Reuters e AFP em nível global e os oligopólios locais – falhando, no caso brasileiro, em todas as premissas que o pensador francês sugere.

 

No entanto, a revolução técnica da comunicação digital afeta, e muito, este ecossistema de meios, pois traz novas características determinantes que a distinguem dos anteriores e que colaboram para acelerar os processos revolucionários como os que estamos vendo no Oriente Médio, particularmente no caso do Egito.

 

Crise da Credibilidade

 

O primeiro problema grave que enfrentam os grandes meios de comunicação de massa é que a proliferação e a adesão que ganham os meios independentes produtores de informação – desde o blog individual ou um vídeo postado na conta pessoal no You Tube até jornais estudantis, comunidades digitais ou portais independentes – quebra o paradigma dos grandes meios como a "autoridade" em matéria de interpretação do mundo, ou seja, detentores da verdade.

 

Isto ocorre porque a notícia pasteurizada da televisão, repetida sem maiores novidades nos telejornais de todas as emissoras, dá lugar a uma miríade de artigos, vídeos, comentários, testemunhos pessoais, muitas vezes contradizendo a tal notícia, elaborados por repórteres cidadãos, cuja ubiquidade é inalcançável, mesmo com o milionário financiamento de um Rupert Murdoch ou um Augustin Edwards.

 

O eixo da verdade se desloca da autoridade percebida para a proximidade – com o fato em si ou com o interlocutor. Blogs, Twitter e redes sociais como Facebook são os grandes expoentes deste deslocamento da credibilidade, fenômeno que estamos vivendo atualmente. Ou seja, (ainda) cremos mais em um amigo que relata uma vivência ou posta um vídeo feito por ele mesmo que em um telejornal. Ou não?

 

Copia, Cola, Publica, Compartilha

 

Adicionalmente, temos duas outras características relevantes no contexto das novas mídias e movimentos sociais: o imediatez e a fluidez com que se produz e reproduz o conteúdo. Imediatez pode ser interpretada em seu duplo sentido, sendo o primeiro de rapidez, instantaneidade – graças à conectividade da rede – e o segundo sendo a ausência de mediadores – censores ou editores em geral. Já a fluidez é relevante no sentido da perfeita reprodutibilidade das obras transmitidas.

 

Textos, vídeos, fotos, voz, qualquer tipo de mensagem pode ser produzida (ou convertida) para o meio digital e, uma vez sobre este suporte, pode viajar de monitor em monitor sem perder a qualidade da mensagem, praticamente sem "ruído". Ambas características aumentam exponencialmente o potencial da rápida difusão sem perdas de informação ou deformações relevantes da mensagem, fundamental em um contexto revolucionário.

 

Isto é o que temos visto frequentemente: a desgraça ambiental que Eike Batista iria fazer no Chile foi barrada por uma manifestação organizada de forma acéfala pelas redes sociais em uma tarde; o atropelamento de dezenas de ciclistas no sul do Brasil por um funcionário público rico e influente não passou impune graças ao vídeo amador que casualmente um participante da bicicletada tomou; a violência desmedida das tropas estadunidenses no Iraque foi vazada pelo Wikileaks fomentando o debate sobre a intervenção; a autoimolação do jovem Mohamad Bouazizi que foi humilhado e ainda perdeu seu posto para vender verduras na Tunísia chegou rapidamente aos olhos do ocidente; e o vídeo do jovem enfrentando o caminhão de água no histórico 25 de janeiro no Egito imediatamente converteu-se em um símbolo da resistência popular.

 

O que muda e o que não muda com as Redes Sociais

 

Redes sociais são, efetivamente, um meio de furar o bloqueio mediático que nos impede de ter uma comunicação pluralista em muitos países. Conscientização é o marco zero para a mobilização. E para haver conscientização, é preciso motivação. E motivação vem com sensibilização.

 

No caso do Egito, o brutal assassinato do jovem Khaled Saeed em junho de 2010 não gerou o sentimento de revolta que vimos nas ruas, mas o resgatou, permitindo sincronizar em forma de catarse coletiva, canalizado em uma comunidade no Facebook, criada pelo responsável pelo Google no país, Wael Ghonim, e que conta hoje com mais de um milhão de seguidores.

 

A sensibilização possibilitou a abertura à conscientização – em relação à insatisfação e aos sentimentos de injustiça e revolta generalizados na população contra a corrupção policial, a pobreza e o despotismo político. A identificação de pares, neste contexto, fortalece a convicção individual, tornando-a coletiva e permite finalmente a mobilização.

 

Mas "a revolução é uma luta de vida e morte entre o futuro e o passado", já dizia Fidel. Enquanto escrevo estas linhas, o principal assunto no Twitter ("trending topics") é mais um filme de paranoia megalocêntrica de Hollywood em que uma batalha final contra supostos invasores alienígenas se dará em Los Angeles. Claro, em Jundiaí não podia ser. Cabe portanto aos usuários decidir temas que merecem seu tempo: engajar-se em uma jogada de marketing de um filme de ficção hollywoodiano ou seguir plantando suas convicções até que o terreno esteja fértil?

 

Se por um lado, há tempos perdemos o sentido de vizinhança, em parte devido àquela caixinha brilhante na sala de estar, as comunidades voltam a se conectar via redes sociais telemáticas. De forma que ainda que não conheça meu vizinho, podemos nos encontrar na rua, protestando apaixonadamente. Do mesmo lado da rua ou não.

 

Marcelo Luis B. Santos é mestre em Ciências da Comunicação e Semiótica, professor, escritor e consultor em comunicação e democracia.

 

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Comentários   

0 #3 Joana 16-05-2011 11:53
Um dos artigos mais contundentes sobre redes sociais que ja li. Posso dizer: brilhante!
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0 #2 Silva 17-03-2011 21:07
Concordo com o comentario, porem me parece logico que a internet nao é a fonte da revolucao. Ora, no oriente nao foi a Internet que deu origem à revolucao, alias, a revolucao nao aconteceria se nao fossem outras questoes socio-temporais. A internet nunca foi uma formadora de opiniao, mas um canal para se formar opiniao, dar sentido e defender o que for necessario; alem de ser ferramenta operacional indispensavel.
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0 #1 Tudo sem PovoRaymundo Araujo Filho 16-03-2011 05:56
Ensino sem professores, saúde sem médicos e profissionais qualificados, estádios de futebol sem torcedores, eleições sem política, e agora Revoluções sem Povo como Protagonista.

Entregar o Protagonismo das Revoluções para máquinas de bolso, certamente é uma faca de dois legumes.
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