Apesar de tudo, as massas se movem

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Conta-se que Galileu, obrigado pela Inquisição católica a abjurar sua crença de que a Terra se movia, teria dito à meia voz que, apesar de tudo, ela se movia. O mesmo parece estar ocorrendo agora em relação às grandes massas populares de países da África do Norte, desdizendo as afirmações de uma certa Inquisição intelectual para a qual a época das grandes mobilizações e revoltas sociais era coisa do passado.

 

O capitalismo teria criado uma rede de mecanismos democráticos de tal ordem que seria possível evitar que, em algum momento, os pobres, os trabalhadores e mesmo setores médios se lançassem à luta. É verdade que aquela Inquisição fazia exceção a países que consideravam regidos por ditaduras, que a imprensa ocidental citava nominalmente como se restringindo à Coréia do Norte, Cuba, China, Iraque, Irã, Venezuela, Líbia, Chade e Zimbábue, pouco importando que alguns deles mantenham democracias de tipo liberal.

 

Por outro lado, essa mesma imprensa nada dizia sobre regimes ditatoriais na Tunísia, Egito, Iêmen, Bahrein, Marrocos, Arábia Saudita e outros países árabes aliados diletos dos Estados Unidos. O Iraque só se tornou uma ditadura abominável após haver demonstrado certa independência e tentado anexar o Kuwait. Sob o manto protetor dos acordos militares e geopolíticos com a grande democracia americana, tais países pareciam fadados a sucessões dinásticas de longa duração.

 

No entanto, as bases dessas sociedades se moviam imperceptivelmente, forçadas pelo aumento da miséria, pelos baixos salários, pelas baixas condições de vida e pela ausência de liberdades culturais, sindicais e políticas. Na superfície tudo parecia calmo, embora de vez em quando irrompesse algum fator de desestabilização, logo sufocado pelas eficientes redes de inteligência e repressão policial e militar. Em tais condições, para aqueles que se deixavam convencer pela aparência superficial, as revoltas de massa na Tunísia, Egito, Líbia e outros países da África do Norte causaram grande surpresa.

 

É natural, assim, que surjam, em conseqüência, interpretações disparatadas sobre os acontecimentos. A mais esdrúxula do momento é aquela que acusa a CIA e o governo norte-americano, através do uso das redes cibernéticas, de haver promovido tais insurreições. O governo dos Estados Unidos teria se dado conta de que aliados como Mubarak e outros, há muitos anos no poder, já não eram servidores eficientes. Promovendo mobilizações sociais do lumpenproletariado e desordeiros, que levassem a uma transição negociada em que tudo continuaria como antes, se livrariam dos servidores desgastados e, de quebra, incentivariam revoltas na Líbia e no Irã. Portanto, numa manobra clássica de Sun Tzu e Mao Zedong, fingiram atacar o secundário para golpear o principal.

 

Essa teoria conspirativa é idêntica à que credita à CIA a ocorrência das revoluções de veludo na Tchecoslováquia, Hungria e Bulgária, e da revolução sangrenta na Romênia, embora naquela época ainda não existissem as redes cibernéticas com grande poder de mobilização. É evidente que a CIA e os poderosos meios de comunicação ocidentais promoveram uma propaganda massiva contra o socialismo real daqueles países. Porém, qualquer propaganda só tem efeito quando corresponde às aspirações imediatas das grandes massas do povo. Estas massas só se mobilizam e vão para as ruas quando não querem mais viver como até então. E só se atiram contra os fuzis e metralhadoras quando acham que, além disso, não têm mais nada a perder.

 

Portanto, tanto a propaganda contra o socialismo real, produzida principalmente pelo rádio e televisão dos países ocidentais, quanto a propaganda contra os regimes ditatoriais da África do Norte, promovida em grande escala através da Internet, só tiveram efeito porque as populações desses países já não suportavam mais viver da forma que vinham vivendo. No caso dos países africanos, de populações formadas por trabalhadores assalariados, setores médios empobrecidos e milhões de desempregados transformados em lumpens, era inevitável que as revoltas também contassem com a participação destes últimos.

 

Assim, queiramos ou não, essa também era a situação das grandes massas do povo líbio, mesmo que seu país não estivesse no rol dos aliados servis dos Estados Unidos, e que estes possam estar se aproveitando das dificuldades de Kadafi para desviar a atenção do mundo dos eventos nos demais países de ditaduras apoiadas pelos americanos. Desqualificar a revolta das massas populares porque o regime é inimigo aparente de nosso inimigo não é um critério muito saudável, pelo menos para quem se diz de esquerda.

 

Algo parecido ocorre com as divergências sobre estarmos ou não diante de movimentos revolucionários e revoluções, que resultem em mudanças políticas, sociais e econômicas profundas. É verdade que a imprensa ocidental, numa tentativa de esconder sua omissão passada diante dos regimes ditatoriais aliados incondicionais dos Estados Unidos, está divulgando febrilmente as revoltas populares como revoluções de fato.

 

Mas isso não é novidade. Se até a Globo se transformou de aliada incondicional do regime militar brasileiro em defensora, mesmo tardia, das Diretas Já, seria pedir muito para os governos ocidentais e os Estados Unidos e suas mídias continuarem fiéis a seus antigos amigos árabes. Da mesma forma que não passa de ilusão supor que antigas forças políticas de apoio a tais regimes não vão se reciclar e participar da disputa no processo de mudanças políticas, econômicas e sociais que devem ocorrer, tentando limitá-las ao máximo.

 

Revoltas populares são indícios de situações revolucionárias. Mas nem todas as situações revolucionárias se transformam em revoluções, seja porque as massas populares não possuem partidos políticos organizados e com capacidade de dirigirem o processo, seja porque o lado oposto se reorganiza, faz concessões e consegue evitar que as transformações sejam profundas. Na maior parte dos países árabes convulsionados o quadro ainda está confuso para que se afirme, com certeza, se estamos diante de revoluções ou de reformas com tintura revolucionária ou conservadora.

 

De qualquer modo, as massas se movem. Esta parece ser uma lei geral das sociedades, em especial das sociedades de classes, sejam elas ditaduras ou democracias. Afinal, as massas nas democracias européias também estão se mobilizando e, em algum2as delas, como na Grécia, quase assumindo o caráter de revolta. E nos Estados Unidos os sindicatos de Wisconsin começam a mostrar que não estão paralisados.

 

Nessas condições, mesmo em países de regimes democráticos e liberais, com ativa vida parlamentar, partidos de esquerda que se desligam do dia-a-dia das grandes massas populares e não acompanham a evolução imperceptível de seu movimento correm sempre o perigo de perderem o pé da realidade e serem apanhados de surpresa. Por consolo, podem até acusar a CIA ou as forças ocultas, mas isto dificilmente as salvará.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #6 Apesar de Tudo as Massas se Movemvaleria mauricio 14-03-2011 13:25
Companheiro Vladimir
Seria muito bom que,o povo brasileiro seguisse o exemplo de vários países do Oriente Médio.Nosso povo é pacífico,em parte isso é bom mas,confesso que eu gostaria que o mesmo se manifestasse.
Infelismente,o povo tem medo,não se meche e fica esperando que outros façam,
o que ele deveria fazer.Sinto muito e tenho medo que,os oportunistas gostem da situação e se aproveitem para dar um golpe militar,ou seja,não quero retroceder.
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0 #5 Onde?Raymundo Araujo Filho 11-03-2011 12:43
Dulcinéia: Quais as experiências históricas que te permitem pagar prá ver que nossos algozes serão desmascarados em quiçá, derrotados?

Guto: A seção de elogios subjetivos e não analíticos é no artigo, e não sob meu título Pizzaiolo.

Já vi muita gente ser paga para elogiar, o que, certamente, não é o seu caso, mas, se seu "muito bom" é fruto de alguma identificação político partidária, tem o mesmo valor de um elogio pago, na minha opinião. Aqui, ou analizamos as coisas ou o Correio se transformará em uma Batalha de Confetes.
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0 #4 Leni 09-03-2011 14:53
"O capitalismo se reorganiza" e através de sua organizadíssima imprensa no mundo elegem uma das mais poderosas do mundo! É um sinal de apoio e união dos poderosos, para que não ousem falar da poderosa do mundi, ainda que as Metas do Milênio propostas pela ONU, a fim de reduzir desigualdades sociais e raciais, não sejam implementadas e sequer divulgadas à sociedade.O capitalismo cria sistemas democráticos e reunem-se para decidir como continuar enganando o povo, mas um dia a minoria engalanada será desmascarada.
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0 #3 Guto 05-03-2011 09:41
Pomar, parabéns o artigo é muito bom.
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0 #2 PizzaiolloRaymundo Araujo Filho 02-03-2011 08:09
Wladimir Pomar agora veio fantasiado de pizzaiolo, talvez em homenagem à efeméride Momesca que se aproxima, assutadoramente, ao menos para mim, pacato cidadão.

Ora! "Não se fazem mais antigamente como analistas", diria, talvez, o Barão de Itararé (o genial Aporelli).

Que "as massas se movem" é óbvio e está escrito em TODOS os alfarrábios políticos de direita ou de esquerda, além de facilmente constatável na história. Não precisava vir aqui o WP a escrever uma lauda para informar isso, abstendo-se de priorizar algo menos doutrinário tatibitati..

Mas, após o beabá da política, aprendi que o mais importante vem a ser o "para onde as massas se moverão". Quando faço uma massa, elas se movem "para cima" e em movimentos circulares, devido à fervura da água. Bastam cerca de 5 a 8 minutos, dependendo de qual massa. Mas na política é diferente e foi abordada, a meu ver, de forma mesquinha e despolitizante pelo WP que, a meu ver, enferrujou-se de vez, no quesito ideologia e ativismo.

Assim, ele já faz o serviço da mídia corporativa, talvez "de grátis", e desmobiliza qualquer senso crítico ao que o Império Capitalista vai tentar fazer contra esta revolta (e não Revolução, sob o ponto de vista estrutural do funcionamento da economia, poderes e posses, como querem alguns já amansados em seus horizontes ideológicos - inclusive dentro do PSOL, que se diz "à esquerda", mas saúda a "revolução" no oriente médio, talvez por contentarem-se com críticas de costume em vez de mudanças políticas).

Sem achar que Kadafi é alguma "brastemp", mas sem concordar que tudo é orquestrado pela CIA, contra o Kadafi, penso que não podemos perder de vista que os interesses do Capital Corporativo Unificado, movimento de sigla impublicável, mobiliza-se para canalizar as energias da grande insatisfação, em parte popular, no mundo árabe.

WP faz como Lulla fez com os que "com 60 anos ainda acreditam no socialismo", praticamente os chamando de loucos. Mesmo sem eu ser socialista (sou anti capitalista de esquerda), não acho que todos que comungam da Fé Política de WP sejam loucos (alguns até o são...), os acho é fundamentalistas, e outros oportunistas simplesmente.

Desqualificar quem abre um leque de amplas possibilidades políticas, em momentos complexos e ainda não definidos (será?), os emblematizando no grupo da Teoria Conspiratória, é querer vendar os olhos próprios e alheios para que, justamente ao contrário do que WP diz pretender, isto é, NÃO ser surpreendido.

Assim como os acontecimentos da Grécia foram irradiados para a Europa, a onda de Insatisfação Social (nem sempre "popular") chega ao Oriente Médio e, sem dúvida não por "geração espontânea" (estará WP tão idealista a este ponto?), mas com a participação de vastas redes de ativistas (não estas das redes sociais do Sistema), e a maior parte sem articulação partidária POR OPÇÂO.

É mister que WP se lembre e passe a levar em conta que, assim como as massas (não aquelas das panelas), o CAPITAL TAMBÉM SE MOVIMENTA, e sempre em vantagem, em relação às forças populares.

Ao fundo, as "descobertas" que: bubarack era um ditador egípcio, a falsa noção que na ditadura da Arábia Saudita está tudo bem (obrigado!) e Kadafi é o mal absoluto na região.
Mais ao fundo ainda, prepara-se uma invasão a um país que tem 2% do comércio mundial de um dos melhores petróleos existentes, em altas quantidades ainda no solo, enquanto coloca-se uma pedra nos crimes e massacres hediondos, inclusive de crianças, além de desrespeito total à ONU, por parte de israel, enquanto apenas a Líbia seja alvo de notícias relevantes do Oriente Médio, e o resto tomando o seu verdadeiro lugar, o de resto....

Pairando sobre tudo isso, a foto (jornal O Globo de hoje 2 de março)do "principal líder da oposição Líbia - já em armas", fazendo "vezinho da vitória" em foto de produção profissional e envolto na bandeira do.........Império LÍBIO, anterior a Kadafi!

Já colquei minha barba anticapitalista de molho e, embora mande meus cumprimentos às "massas em movimento" em busca, neste momento, de uma ancoragem na chamada Democracia Ocidental Burguesa (A revolução Francesa finalmente chega ao O.M.!), mas não contem comigo caso queiram apenas um novo realinhamento com o capital internacional globalizado, pois estarei recolhido à minha insignificância política, ocupado que este reduzido horizonte programático não tome conta do atual momento brasileiro, aliás, defendido em teclados e palavras, por Wladmir Pomar.

Fica valendo para o tal "enrolado na bandeira do Império Líbio", a frase nos legada pelo Barão de Itararé (de novo ele, o genial), em 1952 quem sabe já premonizando Lulla...: Queres conhecer o Ignácio, leve-o para o Palácio....)

Se eu fosse desfilar neste carnaval, iria homenagear alguns "analistas pró sistema", com a fantasia "Pitonisa do Óbvio", e certamente ganharia o primeiro prêmio nas categorias Luxo e Originalidade...

Difícil vai se é movimentar "as massas brasileiras", após Lulla, DiLLma e suas equipees de an estesias sociais, entre os quais e a meu ver, WP tem cargo de chefia.
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0 #1 Afastamento das massas popularesDulcinéa 02-03-2011 06:23
Perfeito o último parágrafo, Wladimir.
Nenhum "animal político" será capaz de enganar as massas por muito tempo. Cedo ou tarde as massas enxergam sem óculos de sol, sem tapar o sol com a peneira, como se diz.
É pagar prá ver.
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