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Imagens de um massacre no reino do Bahrein Imprimir E-mail
Escrito por Robert Fisk   
Quarta, 23 de Fevereiro de 2011
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"Massacre, é um massacre", gritavam os médicos. Três mortos. Quatro mortos. Um homem passou pela minha frente em uma maca na sala de emergências, com o sangue escorrendo no piso, resultado de um ferimento de bala na perna. A poucos metros dali, seis enfermeiros lutavam pela vida de um homem pálido, barbudo, com sangue saindo do peito. "Tenho que levá-lo para a sala de cirurgia agora", gritava um médico. "Não há tempo, ele está morrendo!".

 

Outros estavam ainda mais perto da morte. Um pobre jovem – 18, 19 anos, talvez – tinha um terrível ferimento na cabeça, um buraco de bala na perna e sangue no peito. O médico ao seu lado voltou-se para mim, com as lágrimas caindo sobre o avental manchado de sangue. "Tem fragmentos de bala no cérebro e não consegui tirar os pedaços, os ossos do lado esquerdo do crânio estão totalmente destroçados. Suas artérias estão todas rompidas. Não posso ajudar". O sangue caía como uma cascata no solo. Era doloroso, vergonhoso e indignante. As vítimas não estavam armadas, mas acompanhavam o cortejo voltando de um funeral. Muçulmanos xiitas mortos por seu próprio exército bareinita na tarde de sexta-feira.

 

Um maqueiro estava regressando junto com milhares de homens e mulheres do funeral em Daih, de um dos manifestantes mortos na Praça Pearl nas primeiras horas do dia anterior. "Decidimos caminhar até o hospital porque sabíamos que havia uma manifestação. Alguns de nós levávamos ramos como presentes de paz que queríamos dar aos soldados perto da praça, e estávamos gritando ‘paz, paz’. Não foi uma provocação – nada contra o governo. Mas os soldados começaram a disparar. Um deles disparou uma metralhadora de cima de um veículo blindado. Havia policiais, mas eles se foram quando os soldados começaram a disparar. Porém, sabe, o povo em Bahrein mudou. Não queriam sair correndo. Decidiram enfrentar as balas com seus corpos".

 

A manifestação no hospital havia atraído milhares de manifestantes xiitas, incluindo centenas de médicos e enfermeiras de toda Manama, ainda com seus aventais brancos, que exigiam a renúncia do ministro da Saúde de Bahrein, Faisal Mohamed al Homor, por não permitir que as ambulâncias buscassem os mortos e feridos do ataque da polícia contra os manifestantes da Praça Pearl.

 

Mas sua fúria se tornou quase histeria ontem, quando trouxeram os primeiros feridos. Até cem médicos se aglomeraram nas salas de emergência, gritando e maldizendo o rei e o governo enquanto os paramédicos lutavam para empurrar as macas carregadas com as últimas vítimas através da multidão que gritava. Um homem tinha um grande curativo no peito, mas o sangue já estava manchando seu torso, pingando da maca. "Ele tem balas em seu peito e agora há ar e sangue em seus pulmões", me disse a enfermeira ao seu lado. "Creio que o perdemos". Assim chegou ao centro médico de Sulmaniya a ira do exército de Bahrein e, imagino, a ira da família Al Khalifa, incluindo o rei.

 

O pessoal sentia que eles também eram vítimas. E tinham razão. Cinco ambulâncias enviadas para a rua – as vítimas de sexta-feira receberam os disparos em frente a uma estação de bombeiros, perto da Praça Pearl -, mas foram detidas pelo exército. Momentos mais tarde, o hospital descobriu que todos os seus celulares estavam fora do ar. Dentro do hospital havia um médico, Sadeq al Aberi, ferido pela polícia quando foi ajudar os feridos na manhã de quinta.

 

Os rumores corriam como um rastilho de pólvora em Bahrein e o pessoal médico insistia em que até 60 cadáveres tinham sido retirados da Praça Pearl, na quinta pela manhã, e que a multidão viu a polícia carregar corpos em três caminhões refrigerados. Um homem me mostrou uma foto em seu celular na qual se podiam ver claramente os três caminhões estacionados atrás de vários veículos blindados do exército. Segundo outros manifestantes, os veículos, que tinham placas da Arábia Saudita, foram vistos mais tarde na estrada para aquele país. É fácil descartar essas histórias macabras, mas encontrei um homem – outro enfermeiro no hospital que trabalha para as Nações Unidas – que me disse que um colega estadunidense chamado "Jarrod" tinha filmado os corpos quando estavam sendo carregados nos caminhões, mas foi preso pela polícia e não mais visto.

 

Por que a família real do Bahrein permitiu que seus soldados abrissem fogo contra manifestantes pacíficos? Atacar civis com armas de fogo a menos de 24 horas das mortes anteriores parece um ato de loucura. Mas a pesada mão da Arábia Saudita pode não estar muito longe. Os sauditas temem que as manifestações em Manama e nas cidades do Bahrein acendam focos igualmente provocadores no leste de seu reino, onde uma significativa minoria xiita vive ao redor de Dhahran e outras cidades perto da fronteira com o Kuwait. Seu desejo de ver os xiitas de Bahrein sufocados tão rápido seja possível ficou claro quinta-feira, na cúpula do Golfo, com todos os sheiks e príncipes concordando que não deveria haver uma revolução ao estilo egípcio em um reino com uma maioria xiita de cerca de 70% e uma pequena minoria sunita que inclui a família real.

 

No entanto, a revolução do Egito está na boca de todos em Bahrein. Fora do hospital, estavam gritando: "O povo quer derrubar o ministro", uma ligeira variação dos cantos dos egípcios que se libertaram de Mubarak, "O povo quer derrubar o governo". E muitos na multidão disseram – como disseram os egípcios – que tinham perdido o medo das autoridades, da polícia e do exército.

 

A polícia e os soldados em relação aos quais agora expressam tamanho desgosto eram bastante visíveis ontem nas ruas de Manama, olhando com ressentimento desde seus veículos blindados azuis e tanques fabricados nos Estados Unidos. Parecia não haver armas britânicas à vista – ainda que estes sejam os primeiros dias de protesto e tenham aparecido blindados feitos na Rússia ao lado dos tanques M-60. No passado, as pequenas revoltas xiitas eram cruelmente reprimidas no Bahrein com a ajuda de um torturador jordaniano e um alto funcionário da inteligência, um ex-oficial da Divisão Especial Britânica.

 

Há muita coisa em jogo aqui. Esta é a primeira insurreição séria nos ricos estados do Golfo, mais perigosa para os sauditas que os islamitas que tomaram o centro de Meca há mais de 30 anos. A família de Al Khalifa sabe que os próximos dias serão muito perigosos para ela. Uma fonte confiável me disse que na quarta-feira à noite um membro da família Al Khalifa – que seria o príncipe herdeiro – manteve uma série de conversações telefônicas com um proeminente clérigo xiita, o líder do partido Wifaq, Ali Salman, que estava acampando na Praça Pearl. O príncipe aparentemente ofereceu uma série de reformas e mudanças no governo que ele pensou que o clérigo tinha aprovado. Mas os manifestantes permaneceram na praça. Exigiam a dissolução do Parlamento. E logo veio a polícia.

 

Nas primeiras horas da tarde, cerca de 3 mil pessoas se concentraram em apoio à família real e muitas bandeiras nacionais apareceram nas janelas de automóveis. Esta pôde ser a capa da imprensa bareinita neste último sábado, mas não terminará com o levante xiita. E o caos da noite no maior hospital de Manama – o sangue escorrendo dos feridos, os gritos pedindo ajuda nas macas, os médicos que nunca tinham visto tantos feridos à bala; um deles simplesmente sacudiu a cabeça incrédulo quando uma mulher teve um ataque ao lado de um homem empapado em sangue – somente irritou ainda mais os xiitas desta nação.

 

Um médico que disse se chamar Hussein me deteve quando saía da sala de emergência porque queria me explicar sua revolta. "Os israelenses fazem esse tipo de coisa com os palestinos, mas aqui são árabes disparando contra árabes", bradou em meio à gritaria. "Este é o governo bareinita fazendo isso com seu próprio povo. Estive no Egito há duas semanas, trabalhando no hospital Qasr el Aini, mas as coisas aqui estão muito pior".

 

Roberto Fisk é jornalista e trabalha como correspondente internacional no Oriente Médio.

 

Publicado originalmente no The Independent (Inglaterra), Especial para Página/12 (Argentina).

 

Traduzido para o português por Katarina Peixoto, Carta Maior.

 

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Última atualização em Sábado, 26 de Fevereiro de 2011
 

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