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O bode expiatório Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Terça, 08 de Fevereiro de 2011
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Notícias do Estadão, apresentadas como vindas do Palácio do Planalto, apontam para divergências com a China. Semanas atrás, o ministro do Desenvolvimento pareceu apontar na mesma direção, ao tomar as dores dos fabricantes de calçados e ameaçar a adoção de medidas protecionistas contra os sapatos chineses. Outras notícias, ainda relacionadas a sapatos e têxteis, falavam da desconfiança de que a China, para escapar das cotas estabelecidas pelo governo, estaria exportando seus produtos baratos através de triangulação com o Vietnã, Camboja e Malásia.

 

O Estadão também informou que o atual debate estratégico no governo Dilma, no sentido de elevar a competitividade nacional, na verdade estaria centrado em "conter a enxurrada de importações" chinesas.

 

Ainda segundo tais informações, o governo Dilma estaria tendendo a adotar "tarifas dirigidas para produtos industrializados" da China, "uma fiscalização mais rígida nas alfândegas", "mais processos antidumping" e "novas regras para mineradoras estrangeiras", de modo a evitar que a China consolide "seu controle sobre as riquezas minerais brasileiras".

 

O Estadão também deu espaço para Maurício Cárdenas, diretor do programa latino-americano da Brookings Institution, de Washington, segundo o qual o novo governo brasileiro estaria "buscando grandes mudanças" no rumo dos Estados Unidos, como parceiro mais confiável, o que teria "conseqüências para toda a América Latina, já que muitos outros países, experimentando os mesmos problemas" com a China, "devem seguir o exemplo do Brasil".

 

Para não dizerem que o jornal deixou de ouvir o "outro lado", o Estadão transcreveu opiniões alertando que "redefinir a relação com a China é algo mais fácil na retórica do que na prática". Simples: o comércio bilateral, de cerca de 2 bilhões de dólares, em 2000, se elevou para 56,2 bilhões de dólares, em 2010. Em outras palavras, "a China superou os EUA como maior parceiro comercial do Brasil" e, em 2010, foi a principal origem de "investimentos estrangeiros diretos, com cerca de 17 bilhões de dólares". Isso teria ajudado a economia brasileira a alcançar o "crescimento mais expressivo em duas décadas", incluindo aí um superávit comercial com a China de 5 bilhões de dólares.

 

Paralelamente, ministros do governo Dilma se reuniram, em São Paulo, com lideranças empresariais. Na prática, ouviram a pauta já cantada pelo Estadão. Porém, como era de esperar, explicaram que não é fácil adotar medidas protecionistas, nem acusar a China de dumping, sem levar em conta os dados globais do comércio bilateral, ou desprezar as regras estabelecidas pela OMC. Ainda paralelamente, o secretário do Tesouro e o presidente dos Estados Unidos anunciaram visitas ao Brasil, com alguns jornalistas insinuando que ambos gostariam de tratar com a presidenta Dilma de como enfrentar a China.

 

Bem vistas as coisas, Washington, empresários brasileiros descontentes e até FHC, que declarou o governo "ingênuo" nas relações com a China, formaram um coro para transformar a China no grande bode expiatório dos problemas do Brasil no mercado internacional. É verdade que a política de diversificação implementada pelo governo Lula ajudou a reduzir a dependência do Brasil aos Estados Unidos e Europa. Mas os Estados Unidos perderam a posição de maior parceiro comercial do Brasil por seus próprios problemas. Querer reverter a situação criando intrigas não é um bom caminho.

 

Em termos concretos, não há dúvida de que as relações entre o Brasil e a China, apesar das vantagens globais que têm trazido para o Brasil, estão realmente desniveladas. Mais de 80% das exportações do Brasil para a China são de minério de ferro, soja e algumas outras commodities minerais e agrícolas. No entanto, ao contrário do que insinua o Estadão, as exportações de minério não são realizadas por mineradoras chinesas no Brasil, mas fundamentalmente pela Vale.

 

É fato, também, que muitas indústrias brasileiras ficaram de fora do "boom" econômico do ano passado, e que elas estão culpando os chineses pelo risco da "desindustrialização". Para examinar isso, vamos deixar de lado o fato de que muitos dos empresários, que hoje brandem o perigo chinês, não soltaram sequer um "ai" quando a política neoliberal de Collor-Itamar-FHC realizou a mais intensa "desindustrialização" que o Brasil já conheceu. Vamos apenas nos limitar a lembrar como esses empresários enfrentaram, nos últimos 15 anos, a emergência da China.

 

Ainda no final dos anos 1990, o governo FHC e boa parte dos empresários brasileiros continuavam aferrados à idéia de que o crescimento chinês era uma bolha sem futuro. O governo FHC chegou mesmo a iniciar medidas para fechar o consulado brasileiro e o escritório do Banco do Brasil em Shanghai. E a maior parte dos empresários brasileiros, ao invés de se capitalizarem através de investimentos e negócios com a China, sequer se mexeu, mesmo quando já eram evidentes a aceleração industrial chinesa e a ampliação de seu mercado interno. Alguns só começaram a acordar quando o presidente Lula, em sua visita presidencial à China, carregou atrás de si cerca de 500 empresários.

 

Apesar disso, as principais iniciativas empresariais para aproveitar as oportunidades oferecidas pelo crescimento chinês continuaram sendo as do governo brasileiro e, em parte, das empresas chinesas, que vinham ao Brasil para comprar produtos ou para se instalar aqui.

 

Conta-se nos dedos o número dos empresários brasileiros que foram à China pesquisar oportunidades. A maior parte ficou esperando a vida levar e ver o que ia acontecer. Nem se deu conta de que, a partir de 2006, cresceu substancialmente o número de empresas chinesas dispostas a investir em plantas de fabricação no Brasil e, portanto, participar não de um processo de "desindustrialização", mas sim de industrialização.

 

Algumas das principais dificuldades para os investimentos diretos chineses no Brasil são a ausência de projetos privados e, em certa medida, também governamentais, a desconfiança com que boa parte dos empresários encara os investidores chineses, e o emaranhado de leis, decretos e regulamentos que "protegem" certos ramos industriais, dominados por corporações estrangeiras, contra a entrada de outros concorrentes..

 

Uma avaliação mais fria das relações do Brasil com a China aponta que uma parte do empresariado brasileiro quer responsabilizar esse país por sua própria incapacidade de investir em inovação, ganhar competitividade e enfrentar os problemas da crise econômica gerada pelos Estados Unidos e demais países desenvolvidos. É essa crise que tem reflexos diretos sobre o câmbio e a exportação de manufaturados, mas esses empresários preferem desviar a atenção para a China e, pior, apresentar como saída, além do desgastado protecionismo, uma nova aliança com os Estados Unidos, como teria insinuado, segundo a matéria do Estadão, "uma autoridade próxima a Dilma".

 

Ou seja, eles querem resolver os desequilíbrios existentes, que envolvem não só os chineses, através do uso do tacape contra a China.

 

No entanto, nas relações com a China, uma tentativa dessas não passará de estupidez. Primeiro, porque a postura do governo Dilma, como foi a do governo Lula, é a de desenvolver a indústria no Brasil. O que demanda, além do adensamento das cadeias produtivas industriais, destruídas durante o predomínio neoliberal de Collor-Itamar-FHC, a gigantesca modernização do verdadeiro custo Brasil, isto é, da infra-estrutura energética, de transportes e telecomunicações, além da infra-estrutura urbana e da ciência e tecnologia. Esse é o caminho certo para dar nova musculatura econômica e comercial ao Brasil e torná-lo um player internacional em igualdade de condições com os demais.

 

Segundo, porque ,se esse é o caminho, a China não pode ser tomada como inimiga. Ao contrário, a China é hoje o país que melhores condições oferece para o Brasil contar com capitais de investimento direto, que podem ser investidos para tirarmos o atraso da alquebrada infra-estrutura nacional e para adensar as cadeias produtivas industriais. Além disso, a China possui, a preços mais competitivos, grande parte das máquinas, equipamentos e tecnologias que o Brasil ainda precisa importar para seu processo de industrialização. Negociar para que essa participação chinesa seja win-win depende da capacidade de negociação dos brasileiros, não dos chineses.

 

Terceiro, porque o pedido feito por Soraya Rosar, especialista em comércio da CNI, para o governo brasileiro "pressionar para um maior acesso ao mercado chinês", só teria sentido se os empresários se dispusessem realmente em acessar tal mercado. Como pressionar a China a abrir ainda mais seu mercado se boa parte dos empresários brasileiros não faz, nem quer fazer, pesquisas de mercado, nem quer investir para conquistar nichos daquele crescente mercado?

 

Se a atitude dessa parte dos empresários brasileiros continuar sendo a de deixar a vida levar e o governo resolver seus problemas, e a presidenta Dilma quiser acelerar ainda mais o crescimento, atraindo mais capitais externos para investimentos diretos, em algum momento ela terá que intensificar a criação de estatais que respondam mais rapidamente aos desafios que esses empresários se negam a enfrentar.

 

Com isso, talvez consiga não só equilibrar as relações com a China, mas também dar um salto na indústria brasileira.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

 

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Última atualização em Sexta, 11 de Fevereiro de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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