Eleições na Argentina

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Nossa vizinha Argentina é um país riquíssimo, que bem antes do Brasil alcançou desenvolvimento econômico, nível de vida, cultura, e participação dos operários na política em patamares bem mais altos que os nossos de então.

 

Basta dizer que já no começo do século passado foram inaugurados o metrô e o espetacular Teatro Colón em Buenos Aires.

 

Tudo isso era propiciado por uma terra ideal para o cultivo do trigo, do girassol e para a criação de gado.

 

Com a possibilidade de exportar carne refrigerada, a Argentina passou a abastecer os mercados europeus com carne de primeira. Buenos Aires era então a cidade mais bem urbanizada da América Latina.

 

O povo participava – pelas beiradas – dessa imensa riqueza. E havia, sem dúvida, a hegemonia da província de Buenos Aires frente ao resto do país. Economicamente mais fracas, as províncias do interior eram oneradas por altas taxas de exportação cobradas por Buenos Aires, por cujo porto entravam e saíam praticamente todas as mercadorias.

 

Essa situação tinha o apoio do exército argentino que, desde a independência, era o fiel da balança do poder.

 

Nesse contexto, durante a Segunda Guerra Mundial, as limitações impostas pelo conflito propiciaram a industrialização por substituição de importações.

 

Com isso, novo protagonista político surgiu – o operariado. O trabalhador rural argentino, acostumado à solidão e à liberdade nos amplos pampas, tinha um sentimento de independência inexistente, por exemplo, no nosso trabalhador rural. Lá, era livre da proximidade e da tutela permanente do senhor da terra.

 

Ao mover-se para a cidade, não aceitou docilmente as condições de vida do operariado capitalista e começou a pressionar por salários e direitos trabalhistas.

 

Foi quando surgiu a figura do coronel Juan Domingo Perón. Ele encarnou em si e em sua mulher Evita essa bandeira e essa luta. Assim, ficou evidente que o exército já não era, monoliticamente, sustentáculo da antiga oligarquia rural.

 

O sucesso do peronismo foi enorme. Durante anos e anos o casal Perón-Evita concedeu direitos e benesses ao povo, transformando-se em figuras míticas. Essa trama começou a esgarçar-se com o fim do conflito mundial e a desaprovação dos Estados Unidos, melindrados com a recusa de Perón de apoiar os aliados na luta contra o "Eixo".

 

Quando finalmente esse tecido se rompeu, viu-se na Argentina um desfilar de figuras políticas menores, apoiadas pelo partido peronista – ainda o preferido das massas – numa evidente instabilidade política. Isso até que, em 1973, ocorreu o golpe militar que se manteve a ferro e fogo sobre a população durante muitos anos.

 

O primeiro eleito depois da ditadura não conseguiu terminar seu mandato e os presidentes subseqüentes não tinham consistência popular.

 

O fim do golpe militar argentino coincidiu com o advento do neoliberalismo e da globalização. Essas mudanças na economia mundial diminuíram as possibilidades de qualquer política de reivindicação, pressão por melhoria de vida e participação.

 

Além disso, a fortíssima economia argentina entrou em evidente crise com várias reformas monetárias, desemprego e falências. O nível de vida da população despencou. A participação das massas perdeu-se entre os herdeiros de Perón e uma esquerda sem rumo.

 

Foi nesse contexto que a eleição de Kirchner aconteceu. Este, até que se saiu bem, gerenciando a débâcle. Depois de reeleger-se, elegeu sua própria mulher, Cristina, presidente do país.

 

Viúva, Cristina busca hoje sua reeleição sem o carisma do marido. Seu governo tumultuoso foi marcado pela rebelião dos produtores agrícolas e pelos conflitos no interior do peronismo.

 

O atual candidato da esquerda é Pino Solar, que conseguiu unificar todos os partidos e grupos de esquerda, o que já uma vitória. Tendo em vista a dificuldade de reeleição de Cristina, possivelmente a esquerda obterá uma votação próxima dos 10% dos votos, o que seria um resultado expressivo para um partido incipiente.

 

Marietta Sampaio, Andrea Paes Alberico, Carlos Alberto Cordovano Vieira, Elisa Helena Rocha de Carvalho, Guga Dorea, João Xerri, José Juliano de Carvalho Filho e Thomaz Ferreira Jensen, do Grupo de São Paulo - um grupo de pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim da Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Artigo publicado na edição de dezembro de 2010 do Boletim Rede.

 

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Comentários   

0 #1 Jan Rocha 04-02-2011 06:35
O referido golpe militar foi em 1976, nao 1973...........
Jan Rocha
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