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O sistema a que se refere Tropa de Elite Imprimir E-mail
Escrito por Bernardo Caprara   
Sábado, 29 de Janeiro de 2011
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O cinema é uma arte que pode transformar as pessoas. Para as pessoas comuns do mundo colonizado pelos europeus, todavia, mesmo que essa frase faça algum sentido, ele não atua de outra maneira senão entretendo as platéias, guardadas as exceções das mercadorias cinematográficas que se utilizam do sistema para disseminar uma voz destoante na rotina social.

 

Depois que passou a febre no país envolvendo o filme Tropa de Elite 2, recordista nas telonas, resolvi assisti-lo da maneira mais atenta e dedicada possível, para que então pudesse construir as minhas percepções sobre os seus discursos e argumentos. Não é imperativo salientar que toda e qualquer percepção proveniente das avaliações individuais acerca dos fatos que ocorrem nos processos históricos de vidas e gerações, de fato, angariará adeptos e contrariantes. Embora o indivíduo estabeleça-se sempre sob o seu próprio ponto de vista, ele o estará fazendo na medida em que se relaciona com a sociedade, manifesta em qual forem os seus laços, mas constituinte de encontros pessoais – hoje, em muito também virtuais, só que ainda encontros entre pessoas. A emissão das concepções particulares propondo visões da realidade, quiçá da obra em questão, estará existindo como resultado de apreensões de distintas versões sobre todos os assuntos possíveis, portanto, o sujeito emissor nunca estará sozinho.

 

Ditas as introdutórias palavras, propus-me a pensar a mensagem que a obra – insisto nesse significado – apresenta aos seus consumidores. Nesse intuito, as velhas questões que norteiam uma história a ser contada, a despeito de sua aparente limitação, sugerem uma abordagem ampla do ocorrido. Não se trata daquele jornalismo que carrega o talento de sintetizar no parágrafo inicial da sua redação todo o emaranhado de circunstâncias que cobriu, presenciou ou se viu forçado a refletir e produzir com rapidez; trata-se daquele que elabora o seu texto confrontando os seus conhecimentos com os fatos, interpretando-os e detalhando com consistência intelectual aquilo que está sendo contado. Esse trabalhador precisa conhecer as tendências do pensamento que disputam a supremacia na sua sociedade, assim como vivenciar a rua, o seu mundo, a sua prática e aquelas todas que estiverem a sua disposição. Não estou dizendo que uma população para ser pródiga demande tais características aprofundadas, numa espécie de utopia irrealizável. Um bom jornalista sim.

 

A primeira pergunta a se fazer a respeito da película de José Padilha é o que os seus discursos e os seus argumentos transparecem ao público, direta ou indiretamente. Eis um dos pilares do que acredito uma virtude do conjunto de Tropa de Elite, pois é possível observar tanto o dia a dia do profissional do BOPE do Rio de Janeiro quanto o desenrolar das redes de eventos aleatórios que irão exercer alguma interferência na trama. No entanto, paradoxalmente, aí vigora uma questão chave pouco tocada, sob o prisma sociológico, deveras filosófico nalguns lampejos, que é responder o que é o tal sistema tão evidenciado. Em nenhum momento o sistema assume a sua alcunha, nunca são citados os seus complementos preponderantes, sobretudo ele é descrito um sistema maleável, que se reproduz e se perpetua. Mas o que é esse senhor sistema?

 

Não creio que no referido produto audiovisual possamos desbravar uma análise de maior amplitude no caminho para responder a essa fundamental indagação. Porém, seria interessante remexer as sentenças da opressão sobre a cabeça do policial Nascimento, a cada minuto mais entravado pelos tentáculos sistêmicos.

 

O sistema no qual Nascimento está penando é capitalista, e isso quer dizer uma orientação econômica, filosófica e, muitas vezes, inclusive religiosa. Qual é o grande pecado em retratar sem rodeios um modo de produção que se espalhou pelo planeta, sincronizando-se com costumes alheios, engendrando mentalidades e se modificando adaptativamente? As classes hegemônicas européias consolidaram o capitalismo dominante, promovido pelas grandes navegações, e ele chegou ao Novo Mundo. De lá para cá, existe o mercado, a propriedade privada dos meios de produção (material/simbólico), o assalariamento, os lucros, a exploração do trabalho. Existe o capital, existem os negócios, a especulação, a vontade de lucros individuais vantajosos, de riqueza e ostentação, da individualidade intocável e sagrada.

 

Com efeito, o poder do sistema não pode ser definido somente nos termos da economia. É Weber quem bem difunde a idéia da ética protestante constituinte em certo grau do espírito do capitalismo, e demonstra que a história disponibiliza exemplos de uma espécie de filosofia da avareza, ligada ao protestantismo em geral calvinista, nos quais a mentalidade da acumulação de riquezas, do trabalho obstinado e da moral rígida pode florescer antes das relações econômicas capitalistas.

 

A questão do poder nas sociedades capitalistas contemporâneas também tem de ser suscitada no cerne da filosofia social que legitima as suas relações de produção. As pretensões de Hayek, por exemplo, direcionam no indivíduo em si a tarefa do empreender, do fazer e das conquistas particulares que circulariam num mercado dinâmico, progressista, que sem a participação do Estado colocaria a vida humana num rumo adequado. Business, enfim, negócios livres num campo de batalhas de iniciativas particulares, decidindo como se daria a organização social. Temos um quadro que divulga a imagem da preponderância do capital sobre o trabalho, esse último composto pelas pessoas que, ao nascerem, não detinham ligações com outras pessoas que possuíam a propriedade dos meios de produção, e desta forma ofereceram sua força de trabalho numa competição hipócrita e voraz. Muitos, nessa guerra pela sobrevivência e ascensão, ignoram cartilhas de conduta e comportamento, filosofias, éticas ou morais, seguindo os passos dos ensinamentos do individualismo, do salve-se quem puder ou do doa a quem doer.

 

Breve pausa para suspirar e retomar a leitura, já numa segunda pergunta relevante. Quem faz parte desse sistema? Ora, se todos nós vivemos nesse estado de coisas, um pouco dele está em cada um de nós. Somos educados para acreditar no trabalho como base das nossas possibilidades, galgando o sucesso, adquirindo propriedades. Isso tudo considerado natural, o jeito inerente de viver, o calvário humano. A rigor, lembremos, noutras sociedades nem sempre foi assim. Outras maneiras de se relacionar, outros fundamentos de sentido dado às trocas materiais e/ou simbólicas existiram, outras comunidades foram edificadas.

 

No enredo de Padilha, quem está prevalecendo no sistema são os poderosos, políticos em troca de votos e setores do braço repressor do ente público. Não me recordo de referências transparentes aos grandes capitalistas (empresários) que despejam dinheiro nas campanhas eleitorais, filiando seus apadrinhados às variantes das suas pressões e consistindo em parcela dos vigorosos grupos de interesses que estão por detrás dos procedimentos democráticos.

 

Quando o sistema começou? É difícil cravar uma data, mas podemos afirmar que ele ganha ênfase com a derrocada do feudalismo europeu, com a Revolução Industrial, com a Revolução Francesa e com os séculos que se passaram até hoje, conquanto tenha sofrido concisas críticas. Estamos no estágio em que as teorias do livre mercado se fortalecem, malgrado as oposições de alguns confins das Américas, e por conseqüência parece que o sistema se enrijece, o quando se torna o agora e o sistema se vende como natural. O neoliberalismo pode ser visto no desenho do velho capitalismo, como nos ensina Frei Betto, e aqueles que acreditam nele como instância mais avançada das civilizações se assemelham aos teólogos medievais que viam nas mulheres seres ontologicamente inferiores.

 

Onde o sistema é vigente? Nos territórios em que a colonização européia existiu, em geral, mas em outras sociedades. Ele é vigente nos corações e mentes de pessoas que sabem disso e de pessoas que apenas vivem sua vida nas costuras das relações sociais capitalistas. Essas pessoas incorporam um habitus, no sentido de Bourdieu, um conjunto de disposições e respostas para determinadas situações, que se canalizam na defesa do eu, na busca pela ascensão e satisfação individual. Os sentimentos coletivos perdem fôlego, perante uma avalanche de ideólogos individualistas e do funcionamento de um sistema regulado por esses valores.

 

A saber, como o sistema atua? Certamente, em diversas facetas. Na atualidade, tamanha a influência dos meios de comunicação de massa, ele funciona bastante engatado na publicidade e na propaganda, no famoso marketing. Produção requer circulação das mercadorias fabricadas, a fim de concretizar os lucros. Vender é a alma do negócio, vendendo bem, que mal tem? As fortalezas comerciais sustentam o jornalismo, comprando espaços para vender suas mercadorias, e retroalimentam uma sociedade consumista, de realizações efêmeras e individualizantes. Nessa sociedade o conhecimento é posto sob a égide das relações de compra e venda, visto que a própria liberdade está condicionada pelas possibilidades de obtenção deste ou daquele bem.

 

O sistema navega no manual do desenvolvimento econômico capitalista, como a carta redentora da humanidade, e acaba forjando uma mutilação das melhores feições que ela pode adquirir. O respeito, o pensamento relacional, a tolerância, o protagonismo cidadão e seja qual for o vocábulo utilizado para expressar valores sadios para o tecido societário está quase sempre sobrepujado pelo intento vencedor, pela síndrome do medo de falhar, pelo ímpeto ganancioso que busca vitórias e vitórias.

 

O derradeiro questionamento é o mais tortuoso, complexo e desafiador. Por que o sistema predomina? Não pretendo lançar as respostas, porém oferecer algumas assertivas razoáveis, amparadas na compreensão de István Mészáros, filósofo húngaro criador de Para Além do Capital e outros livros valiosos. Num deles, A Teoria da Alienação em Marx (2006), Mészáros investiga em dado instante a relação entre o desenvolvimento do modo de produção capitalista e a ascendência de uma espécie de "culto" do indivíduo. Logo de início, questiona se Aristóteles e os filósofos clássicos compreenderiam as categorias propostas pela filosofia moderna, que estipula a existência de "direitos naturais do indivíduo". Empregando as colocações do grego, explana como as concepções anteriores ao estabelecimento do capitalismo observavam as sociedades humanas dotadas de um instinto social "colocado em todos os homens pela natureza". Em função disso, a sociabilidade proposta pelo Estado seria uma criação anterior ao indivíduo, na medida em que este não é auto-suficiente quando isolado.

 

Uma implicação da evolução do capitalismo é o desaparecimento dessa noção de que a natureza delega aos seres humanos um instinto social. Pelo contrário, tonifica-se a sugestão que ao reino da natureza pertenceriam liberdades individuais, enquanto os laços sociais consistiriam em artificialidade e imposição, de fora do indivíduo auto-suficiente.

 

Mészáros defende que a partir do século XVII os filósofos passaram a dedicar atenção crescente à temática da "liberdade individual", contrastando com as opiniões predominantes até fins da Idade Média, que propunham o homem consciente de si mesmo apenas quando inserido em categorias gerais – raça, povo, partido, família, corporação etc. Ao passo que o desenvolvimento capitalista de produção tende a exigir a extensão universal da "liberdade" para todas as pessoas, de modo que elas pudessem firmar "relações contratuais livres" com outros indivíduos e alienar tudo o que lhes pertencia; a concepção do primado natural da liberdade do indivíduo marcha na direção de um dogma. No amanhecer do século XX, a crença de que a liberdade é inerente ao indivíduo isolado (tal um direito natural) adquire um caráter dogmático.

 

Não é de nenhum modo casual que a liberdade individual, como um ideal político e moral, esteja ausente do mundo antigo, e apareça apenas com o Alto Renascimento. Como todos sabemos, essa "dependência direta da natureza" é suplantada pelo desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo, implicando a realização da liberdade individual em sua universalidade formal. O avanço vitorioso das forças produtivas do capitalismo cria um modo de vida que coloca uma ênfase cada vez maior na privacidade. À medida que avança a liberação capitalista do homem em relação à sua dependência direta da natureza, também se intensifica a escravização humana ante a nova "lei natural" que se manifesta na alienação e reificação das relações sociais de produção. Diante das forças e dos instrumentos incontroláveis da atividade produtiva alienada sob o capitalismo, o indivíduo se refugia no seu mundo privado "autônomo" (2006: 236).

 

O conceito de natureza humana representa o artefato de sustentação quase metafísica para uma ordem social que mantém os homens numa brutal solidão, opondo uns aos outros como antagonistas, subordinando-os ao controle das coisas mortas.

 

É por aí que Mészáros classifica que os problemas da atualidade não resultam de uma falta de autonomia do indivíduo, mas de uma estrutura social que impõe ao homem o culto da tal autonomia e que isola uns dos outros. "Claramente, o culto do indivíduo – ele mesmo um produto da alienação – não pode oferecer nenhum antídoto contra a alienação e reificação", ao inverso, "só pode ampliar o abismo que separa o homem, no capitalismo, de sua integração social" (2006: 244).

 

Recordando o conceito de "transcendência positiva da alienação", como alternativa à realidade capitalista, Mészáros afirma que, se no bojo das capacidades reais dos seres humanos, os seus problemas, necessidades e aspirações forem transformados no eixo sistematizador abrangente de todos os esforços coletivos, integrando reciprocamente os indivíduos reais no interior da dilatada estrutura educacional, teremos condições de falar em uma sociedade mais harmônica.

 

Por fim, Tropa de Elite 2 deve ser qualificado no ranking dos bons filmes nacionais, disso não restam dúvidas. Entretanto, ao apontar sua mira para o sistema, Roberto Nascimento, soldado de elite do Estado repressor, não consegue alcançar os fundamentos do seu acusado. Esse sistema tem nome, tem história e é hegemônico neste século, ainda que não seja natural, tampouco a única estrada a se percorrer.

 

Bernardo Caprara é professor estadual, sociólogo e jornalista.

 

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Última atualização em Segunda, 31 de Janeiro de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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