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Wikileaks e o fim da hipocrisia na administração pública Imprimir E-mail
Escrito por Marcelo B. Santos   
Sexta, 14 de Janeiro de 2011
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O fenômeno Wikileaks tem dado muito o que falar. Sob a perspectiva da curta história da Internet, pode ser visto como mais uma manifestação de vanguarda na rede que abala as estruturas tradicionais e chacoalha os sistemas de controle do establishment. A reação imediata segue a tônica de seus antecessores e têm sido previsivelmente igual a outros casos relevantes: a infra-estrutura de controle operante ainda sob os paradigmas convencionais de direito de autor e privacidade é ativada para esmagar os arrogantes moleques que surfam na crista da onda digital.

 

Assim foi com o Napster, com o Pirate Bay e recentemente com o TV Shack, para exemplificar alguns. O caso do Wikileaks tem ainda uma componente mais patética, pois é uma tentativa de desacreditar a organização através de acusações totalmente fora da esfera profissional, no intuito de, provavelmente, desviar o foco e enfraquecer sua popularidade na opinião pública. Em síntese, a mensagem é: que se corte a cabeça de mais um mensageiro e deixemos a revisão dos paradigmas para a próxima geração, enquanto o rei continua desfilando nu.

 

Mas o último vazamento de Wikileaks no final de novembro do ano passado tem uma diferença radical com os outros casos: mexe com um vespeiro que até então seguia em relativa paz com a internet cá no ocidente: a administração pública. E não exatamente qualquer administração pública, e sim o epicentro (ainda e por enquanto) do poder político do ocidente, quer seja, a Casa Branca. O vazamento dos telegramas que indicam como funciona a comunicação interna da diplomacia estadunidense ganhou status de escândalo rapidamente, graças não à escancarada brecha de segurança, como se poderia esperar, mas sim devido ao tom das ações e comunicações reveladas, que vão do desprezo à prepotência, manipulação e espionagem e que fundamentalmente explicitam a hipocrisia das relações internacionais dos EUA com o resto do mundo.

 

Não cabe aqui recriminar especificamente os EUA, há outros foros para este fim. Tampouco parece justo afirmar que os EUA são os únicos que praticam política nestes termos. O fator relevante é que pela primeira vez a sujeira debaixo do tapete sai à tona em tempo real e esta conjuntura técnica faz com que o resultado seja infinitamente amplificado. Isto fica claro se tomamos alguns recentes exemplos da diplomacia a posteriori, em que Obama se desculpou com a população guatemalteca pelos experimentos relacionados à sífilis e gonorréia nos anos 1940 ou revelações como as conversas de Nixon com Kissinger planejando a derrocada de Allende no início dos 1970. O impacto midiático e a reação da opinião pública internacional são desproporcionalmente menores quanto mais pretérito for o caso, a revelação, o crime ou até a omissão.

 

A administração pública, ao ser analisada neste contexto, tem uma particularidade importante: é, ou deveria ser, a expressão representativa de todo o povo que a elegeu. Portanto, um funcionário, concursado ou indicado, deve responder publicamente por seus atos – inclusive por suas palavras – e deve seguir um estatuto particular que caracteriza o serviço público. Dentro destas premissas básicas que compõem a ética do funcionário público, uma tem ganho muito espaço com a chegada da internet, aquilo a que se batizou transparência.

 

Justamente a radical transparência dos telegramas involuntariamente revelados é o que incomoda. Ao mesmo tempo esta radicalidade alberga algo da quintessência do serviço público. A nova questão que levanta a exposição das tripas da diplomacia estadunidense é que paira no ar a necessidade de remarcação – senão a supressão total – da linha tradicional entre o confidencial e o público na máquina estatal. Afinal, se um deputado, presidente, ministro ou diplomata deve, teoricamente, representar o povo, não poderíamos pleitear que até mesmo aos seus pensamentos o eleitor e o cidadão comum deveriam ter direito de acesso? Mas será possível pensar uma administração pública sem segredos de Estado? Será possível pensar que a administração pública no âmbito das relações internacionais não tivesse segredos de Estado?

 

Em tempos que convergem a instantaneidade – em que a rede digital conecta e copia infinitamente dados em tempo quase real sem a perda de qualidade da cópia analógica –, a massificação das tecnologias de registro e emissão de mídia – celulares, câmeras e afins - configuram uma impensada onipresença midiática atomizada em cada um dos cidadãos, potenciais emissores/produtores/cineastas – e a viralidade das redes pessoais – amplificando sobremaneira a velocidade de propagação das mensagens e alterando os filtros de informação, deslocando a referência exclusiva dos meios de massa para o amigo do facebook ou a personalidade no twitter – talvez seja a hora de não apenas as figuras públicas, mas qualquer cidadão comum repensar sua postura diante do mundo, pois fica cada vez mais difícil separar de forma controlada vida profissional de vida pessoal, comunicação externa de comunicação interna, relações exteriores de internal affairs.

 

Arriscando soar utópico, é possível cogitar se estaremos em tempos em que a ubiquidade tecnológica e a cultura de redes forçará todo e qualquer indivíduo a unificar suas diversas "personas", seus discursos moldados segundo a conveniência conjuntural ou a circunstância, de forma a integrar e integralizar tantas facetas em uma única e absoluta identidade. E Assange, juntamente com a garotada do Pirate Bay e do Napster, certamente serão absolvidos, não pela ação de advogados web 2.0, mas pela dinâmica da história.

 

Marcelo Luis B. Santos é mestre em Ciências da Comunicação e Semiótica, professor, escritor e consultor em comunicação e democracia.

 

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Última atualização em Segunda, 17 de Janeiro de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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