Governo Dilma: esperanças e interrogações

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O primeiro de janeiro de 2011 assinala um fato único na história do Brasil. Pela primeira vez, uma mulher assume a presidência da República. A sra. Dilma Rousseff, eleita por voto direto do povo, se torna a primeira mulher presidente do Brasil.

 

Ela recebe a faixa das mãos de Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro operário a governar o Brasil, concluindo o seu segundo mandato consecutivo com uma aprovação popular nunca antes registrada.

 

São fatos por demais significativos para deixarem de ser registrados. Constituem-se em sinais eloqüentes da mudança de paradigmas, a sinalizarem um novo processo político em andamento, capaz de alterar em profundidade o futuro do país.

 

Finalmente se desenham os contornos de um projeto de Brasil, pensado para todos os brasileiros, na valorização das extraordinárias potencialidades colocadas a nossa disposição, na superação de discriminações e exclusões, preconceitos e desigualdades.

 

O novo governo da sra. Dilma se inicia, claramente, sob o signo da continuidade. Isto significa que recebe do governo anterior um cabedal de acertos, que precisam ser bem identificados, para serem devidamente valorizados, no aprimoramento que podem comportar.

 

Quando mudam os governantes, e ao mesmo tempo se afirma a continuidade, é sinal de que ela contém indicativos evidentes, que favorecem o prosseguimento de iniciativas em andamento, e que afinal são as responsáveis pela credibilidade do governo que as promoveu.

 

Mas o governo Dilma não tem só a incumbência da continuidade, que poderia parecer falta de inspiração diante da novidade. Ao contrário. O novo governo tem a clara incumbência da consolidação. O novo processo político, impulsionado pelo presidente Lula, precisou contornar e enfrentar muitas resistências, provindas de setores que usufruíam das vantagens políticas, econômicas, sociais e regionais, derivadas da situação de desigualdade que sempre marcou a fisionomia do país.

 

Para que este novo processo político possa vingar e se afirmar, será necessária a condução firme e decidida do novo governo, que a presidente Dilma simboliza e encarna. Não lhe faltará apoio da grande maioria do povo brasileiro, que percebeu a validade de apostar num projeto de Brasil condizente com sua vocação de grandeza, de convívio fraterno, e de abertura para o mundo.

 

Aguardam o novo governo alguns desafios e dificuldades, que podem se avolumar. Em primeiro lugar, no contexto internacional, será preciso administrar com prudência e sabedoria os riscos da inserção da economia brasileira no mercado global. Será necessário compatibilizar, com firmeza, a fome de lucro do capital multinacional, que investe no Brasil em vista das grandes vantagens que aqui encontra, com os legítimos interesses do povo brasileiro. Precisamos garantir os investimentos necessários para um desenvolvimento sustentável, compatível com os recursos naturais que o Brasil possui de maneira privilegiada, mas que precisam ser usados com o imprescindível equilíbrio ambiental.

 

Outra frente de desafios será administrar internamente as forças políticas, de maneira a conseguir, especialmente com o apoio do Congresso e da opinião pública, o consenso suficiente para levar em frente a administração pública, promovendo algumas reformas estruturais que há tempo vêm se mostrando urgentes.

 

A herança política deixada pelo presidente Lula, e a firme disposição da presidente Dilma, asseguram-nos a esperança de que o povo brasileiro deposita no novo governo, invocando sobre ele abundantes bênçãos de Deus, com os votos de plena realização dos seus sonhos.

 

D. Demétrio Valentini é bispo de Jales.

 

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Comentários   

0 #3 Otimista e realista!Dulcinéa Santos Carvalho 12-01-2011 20:00
É por causa de pessoas como D. Demétrio, Frei Betto e outros, que continuo a acessar este blog, pois, repudio aqueles que, embora bem intencionados, alienam-se do real, do passo firme, mas comedido, em busca de uma sociedade mais justa e igualitária.
Compartilho de muitas críticas que fazem, mas recuso-me a aceitar que, no início de um governo, quando a primeira mulher assume a presidência pela vontade da maioria do povo brasileiro, pessimistas de plantão tornam-se profetas do pessimismo.
E atenção, muito preconceito vai rolar contra a Dilma. O machismo do homem brasileiro vai começar a mostrar as suas garras logo, logo.
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0 #2 Resgatar o profetismo na IgrejaRinaldo Martins 11-01-2011 22:07
Respeito muito D. Demétrio e sua posição e prática histórica a serviço dos mais pobres e injustiçados. Sou tb católico e devo concordar com as palavras acima de Nathália. Acho que os setores progressistas da Igreja estão pecando gravemente, pois estão contrários ao testemunho que deveriam dar ao povo, ao passar a mão na cabeça do Lula e agora da Dilma.

Gostaria de dizer que a doutrina social da Igreja não faz críticas ou elogios diretos a governos, mas estabelece critérios claros, centrados nos valores contidos sobretudo no Evangelho de Jesus Cristo, para a nossa devida avaliação, inclusive das conjunturas e das políticas sociais.

Pelos critérios que conheço dessa doutrina católica posso afirmar tranquilamente que o governo Lula se enquadra entre aqueles que estiveram a serviço dos valores da MORTE e não da vida! Pode ter tido uma coloração pouco diferente dos governos anteriores, mas não se distinguiu substancialmente, adotando a mesma política em prol dos interesses do grande capital e, consequentemente, contrária ao povo (sobretudo, os setores mais pobres).

Somente este dado concreto para provar isso: enquanto disponibilizou, nos 8 anos, cerca de R$ 100 bilhões para o bolsa-família, dando R$ 90 mensais para cada um das 14 milhões de famílias miseráveis (considerado o seu maior programa de distribuição de renda!), pagou, só de juros e amortização da dívida pública (será dívida mesmo?) aos banqueiros e especuladores(representando nada mais que 20 mil famílias)a bagatelha de R$ 2 TRILHÕES! Isto pode ser considerado condizente com os valores defendidos por Jesus ? Ele professou que veio para saciar os pobres e os que têm fome e dispensar os ricos sem nada nas mãos. Ou seja, lembrou bem que para que a primeira coisa efetivamente possa ocorra a outra também deve ocorrer, caso contrário é engodo. No governo Lula isso não ocorreu. Os ricos ficaram mais ricos! Ou será que quando se está no governo precisa-se relativizar esse entendimento cristão?

Lula disse que se Jesus estivesse no governo teria que fazer as alianças que ele fez para poder governar. Isto é uma mentira, pois ele morreu na cruz justamente porque não admitiu fazer alianças com os poderosos. A Dilma, como "poste" eleito por Lula, infelizmente não fará outra coisa senão dar continuidade à política de alianças com os poderosos .

Enfim, é preciso que a Igreja levante a cabeça e perca o receio do profetismo, mesmo que isso venha incomodar alguns e, de algum modo, a própria população pobre que precisa entender que ela tem direito a muito mais do que R$ 90 mensais.
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0 #1 Nathalia 05-01-2011 17:13
"O novo processo político, impulsionado pelo presidente Lula, precisou contornar e enfrentar muitas resistências, provindas de setores que usufruíam das vantagens políticas, econômicas, sociais e regionais, derivadas da situação de desigualdade que sempre marcou a fisionomia do país."
Caro Bispo,o governo Lula não apenas recusou-se a contrariar os desejos dos grandes capitalistas do país, como também não foi efetivo na redução da desigualdade do país.Proponho que repense se é justo apenas "dar um pouco aos que nada tinham, e muito para os que já tinham muito."
Sou católica, e acho que falta aos membros do eclesiástico um verdadeiro esforço em fazer o povo enxergar verdadeiramente a realidade, em vez de ajudá-lo a se contentar com as migalhas que recebe.
Parem de tentar mascarar a realidade, e fingir que essa ordem capitalista possa ser, de algum modo, humana.
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