Estados Unidos: perspectiva negativa para 2011

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Eleito em novembro de 2008 sob expectativa de mudança, Barack Obama tem 2011 diante de si sem perspectiva assaz positiva, por causa de dois aspectos: a natural decepção da população, em decorrência do acanhamento na proposição de iniciativas importantes, com exceção da saúde, prevista para implementação, porém, apenas em 2012; e a perda da maioria significativa no Congresso na eleição de novembro de 2010 – anteriormente ao pleito, os democratas compunham 60% dos parlamentares. No Senado, houve a perda de seis cadeiras – de 59 para 53 – e na Câmara a redução foi de 63 assentos – de 256 para 193.

 

Portanto, o resultado foi muito desfavorável, uma vez que o encolhimento deixou o Partido Democrata com pequena maioria senatorial e com menos de 45% das vagas na Câmara dos Deputados.

 

A diminuição da representação democrata no Capitólio espelha maior cautela em 2011, em especial na política externa. Tome-se o exemplo da área nuclear. Em abril de 2010, o país assinou com a Rússia novo tratado de redução de armas atômicas. Contudo, falta sua ratificação pelo Senado.

 

Lá, os republicanos postergam a aprovação para as calendas gregas, o que embaraça a diplomacia norte-americana e desestimula, sem sombra de dúvida, novos passos em setor tão vulnerável, tão sujeito à suscetibilidade pessoal de dirigentes, notadamente de países autoritários.

 

Por outro lado, a interrupção na análise da questão nuclear incentiva os republicanos a ousar em outros segmentos. Seus alvos principais são: reforma do sistema de saúde, considerada por eles inconstitucional, e regulamentação do sistema financeiro, nada obstante ter sido a ausência de acompanhamento do setor a origem da crise econômica de 2008.

 

De mais a mais, os lucros na economia do país distribuem-se mais uma vez de maneira extremamente desigual: enquanto os altos executivos terão reajustes expressivos em suas bonificações no final do ano, os trabalhadores, não. Estes circulam em busca de empregos, mesmo temporários – em torno da metade das novas vagas no segundo semestre de 2010.

 

A dificuldade na obtenção de uma ocupação não faz com que Washington anime-se a compensar os efeitos deletérios da condição atual destes trabalhadores, ao prover um seguro desemprego mais robusto ou acesso à qualificação profissional.

 

O índice de desemprego ainda se situa pouco abaixo de dois dígitos, número similar ao de dois anos atrás. Desta maneira, o vencimento não aumenta para o setor trabalhador, a despeito dos progressivos ganhos derivados da melhor produtividade – automação crescente.

 

A justificativa para maior remuneração extra dos executivos decorre dos lucros aferidos pelas corporações ao atuar nos países do Terceiro Mundo, locais em que comumente a mão-de-obra é barata e desorganizada, a tributação é relativamente baixa, a legislação trabalhista e ambiental é arcaica e a fiscalização é insuficiente.

 

Outrossim, entusiasma os republicanos a possibilidade de bloquear outras proposições relativas à nova estruturação da imigração, principalmente se vinculadas a algum tipo de anistia aos ilegais lá residentes, à sistematização federal da taxação da energia e à reconfiguração do setor sindical, por meio da qual o funcionamento das entidades representativas seria mais adequado.

 

Sob o subterfúgio de severamente limitar os gastos governamentais de um orçamento combalido do ponto de vista social, o Partido Republicano esmera-se em anular a viabilidade de tais projetos.

 

No entanto, o real objetivo da movimentação é naturalmente impedir em novembro de 2012 o êxito democrata no pleito presidencial, ainda que em detrimento não somente da população norte-americana, mas da própria sociedade internacional.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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