Quem pode?

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“Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, frase exaustivamente repetida nas empresas, nas escolas, nas penitenciárias, nos hospitais, nas ordens religiosas, nos quartéis.

 

Outra versão: manda quem pode, obedece quem precisa. Obedece, assim, aquele que teme. Obedece quem não sabe o que é obediência. Obedecer para não ser demitido, punido, excomungado, exonerado, rebaixado.

 

A obediência não é um desvalor. Não fere a nossa criatividade, se obedecer for muito mais do que cumprir ordens calado. Obedece quem pode, sim, obedece quem sabe, quem aprendeu, quem tem força, coragem. E obedece, não porque o outro manda, chicote em punho, mas porque o outro, ao mandar com justiça, manda bem.

 

Obedece quem tem juízo, sim, mas não por medo do juiz, do chefe, do carrasco, do feitor, do supervisor, do inspetor, do manipulador, do fiscalizador, do torturador, do delator. Obedece, não porque é ajuizado na covardia, mas porque o ato de obedecer, de obedecer com personalidade, é mais do que obedecer burramente, a cabeça baixa, o coração cheio de raiva.

 

“Obedecer” vem do latim ob-audire, “ouvir atentamente” — o obediente ouve algo mais do que o simples mandamento. E, por ter boa audição, saberá desobedecer a ordem idiota, quando idiota a ordem for.

 

Obedece quem sabe amar o conteúdo da boa ordem. Obedeço, sobretudo, ao que manda minha consciência quando esta vê coincidência entre mandato e verdade. Se alguém me ensina o certo, obedecer ao certo é mais do que certo.

 

Obediência requer ciência, inteligência, sapiência. Não é obediência obedecer por temer a advertência. Obediência requer um querer livre. Livre das seitas, dos tiranetes, dos esqueminhas.

 

O pacto da obediência pressupõe a colaboração entre quem manda e quem obedece. E quem manda saberá ter juízo para ouvir, aprendendo novos mandatos daqueles que geralmente o obedecem.

 

Os filhos obedecem aos pais, mas os pais obedecem aos filhos, aprendendo com eles a serem pais carinhosos, sem paternalismos.

 

O funcionário obedecerá ao chefe, mas o chefe obedecerá ao funcionário, descobrindo que funcionário não é coisa que funciona à base de ameaças.

 

O aluno obedecerá ao professor, mas o professor obedecerá ao aluno, descobrindo no aluno a pergunta mais exigente: “pra que aprender a classificar oração subordinada, fessô?”.

 

O subordinado obedecerá ao principal, mas o principal obedecerá ao subordinado — na sintaxe da vida, estamos todos unidos por conjunções e preposições.

 

Só pode mandar quem tem juízo.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site: http://www.perisse.com.br

 

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