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2010 não soprou ventos favoráveis aos EUA Imprimir E-mail
Escrito por Virgilio Arraes   
Terça, 21 de Dezembro de 2010
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O fim da nova década assinalou-se bastante desfavorável aos Estados Unidos, apesar da expectativa positiva da sociedade internacional no ano anterior. Basta lembrar a premiação do presidente Barack Obama com um Nobel da Paz, por não ter desencadeado nenhum conflito, ou seja, por supostamente favorecer a cooperação entre povos.

 

No Oriente Médio, os democratas mantiveram a postura de seus antecessores republicanos: mais militarização, mesmo sem perspectiva alguma de êxito. Possivelmente, a continuidade de tal postura foi a de prolongar a presença das tropas, enquanto se visualizava um possível modo de retirada menos danoso à imagem norte-americana – o ressurgente espectro do conflito do Vietnã.

 

Se a presença no Afeganistão justifica-se ainda por causa do enfrentamento ao terrorismo integrista, no Iraque não, de maneira que não restou aos Estados Unidos nenhuma alternativa viável, a não ser a transferência maciça das tropas de lá para o território afegão.

 

Com o deslocamento, a Casa Branca impõe a si mesma uma rotina desnecessária, haja vista a repercussão claramente ineficiente de suas ações em toda a região. O combate ao fundamentalismo não se limita ao solo afegão, mas se estende ao paquistanês, o que embaraça o governo americano, tendo em vista ser este um país aliado.

 

A novidade de 2010 não se situou, portanto, no segmento bélico, mas na ampla divulgação de documentação militar e diplomática confidencial do país, através da rede digital, por um grupo de jornalistas de várias nacionalidades, inclusive brasileira. Sem dúvida, o vazamento provocou o maior constrangimento do atual governo norte-americano até o momento.

 

Executada em duas fases durante o transcorrer deste ano, a disseminação documental envergonha Washington por dois motivos: a relativa fragilidade da proteção de arquivos relacionados à segurança nacional e a superficialidade dos dados enviados aos órgãos de análise.

 

À primeira vista, não houve uma investida cibernética à base de dados do país, mas sim uma ação interna, aparentemente empreendida de maneira inaudita por um único militar de baixa patente. Encarcerado, ele poderá passar o restante da vida em uma prisão por acusação de traição.

 

O segundo vincula-se ao teor da informação divulgada até hoje, especialmente na segunda parte da apresentação ao público: o conteúdo resume-se a juízos de valor extraídos de autoridades nacionais de primeiro escalão por diplomatas.

 

Em sua maioria, as observações expressam impressões pessoais tão-somente, vindas à tona de modo informal, sem conseqüências políticas maiores para o relacionamento dos Estados Unidos com os outros países.

 

Na prática, elas chegam a resvalar quase no mexerico, em vista da superficialidade do conteúdo ou da ausência de indícios corroborantes dos fatos desvelados nos últimos anos ao Departamento de Estado basicamente.

 

A conseqüência negativa disso é o eventual impacto no momento da formulação e da execução da política externa do país. Em que medida se distorce o processo, uma vez que a informação trazida por servidores é, ainda que involuntariamente, inconseqüente, inverídica ou mesmo impossível de ser aferida?

 

Na Guerra Fria, a atuação dos serviços diplomáticos e secretos das diversas potências, mesmo periféricas, sofisticou-se muito, em um período em que o armazenamento e a consulta dos dados eram mais simples naturalmente – arquivos manuais. Ainda assim, tais agências ou departamentos eram sobremodo respeitados, em face do alcance da eficiência de suas ações na coleta de dados.

 

Pode-se aferir a influência no imaginário da sociedade na segunda metade do século XX, ao checar-se ainda hoje em dia o sucesso de filmes e romances de espionagem, em que se destacam mais James Bond, do britânico Ian Fleming (1908-1964), outrora bastante apreciado pelo presidente John Kennedy, e o recém-recuperado Jason Bourne, também de iniciais JB, do americano Robert Ludlum (1927-2001).

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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Última atualização em Terça, 21 de Dezembro de 2010
 

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