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100 anos da Revolução Mexicana: comemorar o quê? Imprimir E-mail
Escrito por Guga Dorea   
Terça, 21 de Dezembro de 2010
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Completados cem anos nesse último mês de novembro, qual é o legado da Revolução Mexicana de 1910 para a atualidade? Em um período da política mundial em que a era das grandes revoluções parece ter se esgotado, o que esse período histórico teria deixado de ensinamentos? Uma das principais questões, debatidas até os dias de hoje, é como classificá-la. É notória a sua diferença em relação às grandes revoluções que ocorreram nesse mesmo período, desde a francesa até a socialista de 1917, ainda mais que a mexicana pode ser considerada como um misto desses dois momentos políticos que transformaram o mundo.

 

Para alguns pensadores, como Arnaldo Córdova (A Ideologia da Revolução Mexicana, 1973), tratou-se de uma revolução populista, sobretudo porque foi o resultado de uma disputa pelo poder entre grupos políticos que lutaram pela hegemonia da liderança carismática sobre as massas. Em seu livro "A Revolução Inacabada", Adolfo Gilly acredita, por outro lado, que a revolução sentiu a ausência de um partido político de vanguarda para configurar de fato a passagem do capitalismo emergente no México, naquele instante, para o regime socialista. Emiliano Zapata e Francisco Pancho Villa, diante dessa interpretação, não teriam sido capazes de serem os protagonistas da revolução, sobretudo por conta de suas origens agrárias e não operárias.

 

A luta pelo poder político, nessa perspectiva, veio a se tornar uma peça chave apenas para uma fração da elite burguesa capitalista que não se viu contemplada pelo governo ditatorial de Porfírio Diaz. É possível afirmar, diante disso, que o México vivenciou, entre 1911 e 1940, uma dupla revolução: a que ocorreu em função da luta efetiva pelo poder político e a do "México profundo", com a participação significativa e não populista dos movimentos camponeses e indígenas.

 

Outro ponto fundamental a ser debatido é quanto ao projeto político, econômico, social e cultural dos indígenas e camponeses durante o processo revolucionário mexicano, além de qual é o seu alcance em plena era da globalização. Existem semelhanças possíveis entre as lutas de ontem e de hoje? Trata-se de uma questão difícil de ser respondida em sua totalidade.

 

No entanto, as forças e os interesses políticos e econômicos em jogo, antes e depois de 1910, revelaram e revelam ainda pistas instigantes de como se forjou não apenas o México contemporâneo, mas a América Latina e todas as suas contradições. Na realidade, o México atual não começou a ser delineado no transcorrer de 1910, e sim cem anos antes, quando o país conquistou a sua independência.

 

Segundo Enrique Florescano, em seu texto "Lutas Indígenas e Camponesas"*, foi a partir daí que os indígenas e camponeses mexicanos começaram a perder política e juridicamente suas terras comunais, os chamadas ejidos. O marco desse período foi a Constituição liberal de 1857, quando todos os cidadãos foram vistos como iguais diante da lei.

 

Colocando essa idéia de outra forma, fundamentou-se na sociedade moderna a dicotomia excludente de que, de um lado, estão os "iguais" e, de outro, os concebidos negativamente como "diferentes". Em nome de uma suposta igualdade, portanto, o ser diferente passou a ser sinônimo de atraso, sendo essa uma das alegações mais presentes no México e em grande parte nas Américas para justificar a repressão e a dizimação dos povos indígenas, fortemente ancorados em seus costumes culturais.

 

Diante disso, as forças políticas que se digladiaram entre si na luta por uma fatia no poder conceberam os indígenas e camponeses apenas como instrumentos úteis e necessários para as suas aspirações ideológicas. Florescano elucida que, a partir daí, concretizou-se "uma tripla oposição" contra a tradição indígena e camponesa. Em primeiro lugar, os partidos liberal e conservador, cada um a seu modo, não incluíram os rotulados como atrasados em seu protótipo de mundo.

 

O Estado, por sua vez, passou a combater e a destruir todos os que insistiam em obstacularizar o modelo desenvolvimentista de sociedade. A terceira vertente, como não poderia deixar de ser, foi a da exclusão dos grupos indígenas de todo esse processo. Desenvolveu-se, no imaginário da sociedade, o que o próprio Florescano chamou de "imagem negativa do indígena".

 

Toda essa concepção de progresso capitalista, tanto liberal como conservadora e positivista, somada a uma leitura homogeneizante do conceito de igualdade, justificou, sobretudo no governo ditatorial de Porfírio Diaz, os ataques frontais e aniquiladores contra os povos indígenas. O ser igual, nesse contexto, foi além da concepção de justiça social e econômica, passando a protagonizar um modo de conceber a existência em que o princípio da homogeneidade ganhou forma em detrimento à diversidade humana e cultural.

 

É importante frisar, no entanto, que a dizimação da diferença não começou no regime ditatorial de Porfírio Diaz, e sim que esse foi o auge de um modelo de nação já preconizado desde a passagem do colonialismo para a República no México. Não significa dizer também que o poder da Igreja no período colonial significava amplos direitos assegurados aos povos indígenas.

 

Chegando finalmente às portas de 1910, todas as condições estavam criadas para as mudanças estruturais no México. Duas revoluções estavam em jogo. A que veio de "baixo", representada pelos "ícones" Zapata e Villa, e a que brigou de fato pelo poder, como um reflexo da contradição existente entre liberais e conservadores. Podemos dizer, com isso, que Francisco Madero foi o porta-voz dos que objetivavam recuperar os principais pressupostos liberais já prefigurados na Constituição de 1857, confirmando assim o ideal desenvolvimentista, hegemônico e excludente do México moderno.

 

O que se prefiguraram, pelo menos desde seu governo supostamente revolucionário até a presidência de Venustiano Carranza, foram tentativas constantes de cooptação (muitas vezes vitoriosas) e a dizimação da cultura indígena, sempre tendo o contraponto coerente de Zapata e Villa, que não foram cooptados e, portanto, continuaram a não permitir que a revolução se transformasse apenas em uma passagem do colonialismo para o capitalismo liberal.

 

A Constituição de 1917, nesse contexto, acabou sendo um misto dos interesses da elite burguesa revolucionária e dos movimentos indígenas e camponeses. Para muitos pensadores, a vitória de Carranza sobre o Exército Revolucionário do Sul, de Zapata, e a Divisão do Norte, de Villa, seguida da morte de ambos, decretou o fim oficial da Revolução Mexicana e a vitória da concepção burguesa no combate ao colonialismo.

 

Após o governo de Carranza, veio o governo de Álvaro Obregón (1920-1924), que levou adiante o projeto desenvolvimentista no México. Obregón tentou equilibrar forças contraditórias a esse projeto reprimindo greves e, ao mesmo tempo, fazendo concessões. Iniciou ainda o histórico processo de burocratização do sindicato mexicano e, dentro de um escopo nacionalista conservador, chegou a resistir às pressões imperialistas dos EUA.

 

Segundo Adolfo Gilly, tanto Obregón como seu sucessor, Plutarco Elías Calles (1924-1928), ficaram marcados pelos seus discursos demagógicos de esquerda e, ao mesmo tempo, por criarem um aparato burocrático em torno do sindicalismo operário e dos movimentos camponeses. Apesar de também terem repartido terras, ambos atuaram diretamente na desarticulação dos ejidos, além de reprimirem violentamente todas as tentativas de resistência independente do aparelho burocrático estatal.

Da mesma forma que Carranza, eles também não podiam governar sem a presença dos movimentos indígenas e camponeses, o que explica o discurso demagógico e populista de esquerda proferido por ambos. Obregón chegou a se auto-proclamar como "o Lênin mexicano". Elias Calles, que também se autodenominou como "herdeiro de Zapata", levou a ferro e fogo a visão anti-teológica do liberalismo, reprimindo violentamente a Igreja Católica, o que levou os católicos a resistirem com a chamada guerra dos Cristeros.

 

Em 1929, Calles lançou o Partido Nacional Revolucionário (PNR) com a idéia de aglutinar em seu poder as forças políticas atuantes no país desde novembro de 1910. No entanto, O PNR, segundo Gilly, engendrou em suas fileiras uma ala esquerdista pequeno-burguesa fortemente influenciada pela Revolução Russa de 1917 e que, no interior dessa contradição, surgiu o chamado cardenismo.

 

Após a ditadura de Elias Calles e a tentativa de retorno de Obregón em 1928, quando foi assassinado, quem escreveu parte significativa da História do México foi Lázaro Cárdenas (1934-1940). Foi com o objetivo de criar um "partido de trabalhadores" que, no ano de 1938, ele transformou o PNR em Partido da Revolução Mexicana (PRM), buscando anexar em suas fileiras o que ele próprio chamou de "coletividade organizada". Em outras palavras, significa dizer que o objetivo político desse partido foi o de cooptar e controlar as massas operárias e camponesas em uma única direção burocratizada, sendo essa uma das principais marcas de seu governo.

 

Cárdenas também nacionalizou o petróleo e as ferrovias, que se encontravam nas mãos de capitais estrangeiros, realizando ainda uma política pública extremamente intervencionista, sobretudo nas relações entre o capital e o trabalho. Aos indígenas e camponeses distribuiu mais terras que seus antecessores, embora grande parte da população rural permanecesse sendo explorada pelos grandes latifúndios. Com isso, colocou em prática uma política reformista e nacionalista, ao ampliar o mercado interno de consumo e incluir um número maior de excluídos na lógica do sistema capitalista, abrangendo a reforma agrária e o fortalecimento dos ejidos.

Em uma política extremamente contraditória e dúbia, o PRN se burocratizou no governo Cárdenas e foram os próprios dirigentes do partido que promoveram uma virada ou retorno do México para um período extremamente conservador; no campo político, o poder centralizado do PRN passou a ter o controle dos sindicatos operários e dos movimentos camponeses, o que explica o fato de alguns pensadores decretarem a sua saída do poder como o fim oficial da revolução.

 

Segundo Adolfo Gilly, apesar de Cárdenas ter centralizado a sua política no PRN e priorizado uma educação socialista, não havia de fato um partido revolucionário de vanguarda com força suficiente para bloquear o avanço conservador, o que abriu espaço para que o PRN se transformasse em Partido Revolucionário Institucional (PRI), no ano de 1946.

 

A partir desse instante, a revolução mexicana foi burocratizada definitivamente, iniciando-se a jornada de praticamente 70 anos de um partido só no poder, em uma das ditaduras com roupagem democrática mais longa da história política da humanidade.

 

O grito de "Yá Basta", proferido pelos neozapatistas na entrada do ano de 1995, por outro lado, revelou que o México de Zapata e Villa, supostamente aniquilado pela ala burguesa da revolução, permanece vivo e com novas formas de atuação, vindo inclusive a romper com os pressupostos ortodoxos do que é ser revolucionário.

 

O princípio da homogeneidade não venceu nesses cem anos pós-Revolução Mexicana, o que praticamente exige uma releitura sobre o que é ser igual e diferente na sociedade contemporânea.

 

Guga Dorea é jornalista e cientista político. Atualmente é colaborador do Projeto Xojobil e da revista Incluir, publicação da editora Ciranda Cultural, além de integrante do Instituto Futuro Educação (IFE)

 

*Ver: "Chiapas: construindo a esperança", organizado por Alejandro Buenrostro y Arellano e Ariovaldo Umbelino de Oliveira, ed. Paz e Terra, São Paulo, 2002.

 

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Última atualização em Terça, 21 de Dezembro de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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