A economia brasileira em 2010: todos felizes – ou “quase” todos

 

A política econômica brasileira em 2010 seguiu o padrão observado desde 2003: uma gestão subordinada ao imperativo político de não suscitar conflitos sérios com os grandes interesses econômicos (tanto externos como internos), e voltada, dentro desses limites, a propiciar melhoras incrementais nos campos do emprego e da renda dos trabalhadores. Essa valiosa moeda eleitoral continuou a ser complementada por outra – os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

 

A retomada do mercado interno, iniciada no 2º trimestre de 2009, teve continuidade em 2010. O primeiro trimestre do ano – período final de vigência dos substanciais descontos de imposto concedidos nas compras de carros, geladeiras, fogões e lava-roupas – foi um momento de auge de consumo. O posterior refluxo das vendas foi breve: já em maio as vendas do comércio varejista voltaram a crescer, e mantiveram-se em alta (a um ritmo mais moderado) até o final do ano.

 

A redução do ímpeto das vendas do varejo não chegou a impactar o mercado de trabalho, que se aqueceu de forma ininterrupta. A taxa de desemprego nas grandes regiões metropolitanas chegou em novembro (a leitura mais recente) a menos de 6%, de acordo com o IBGE, e os trabalhadores obtiveram ganhos de poder de compra de, em média, 6%. Os maiores ganhos foram obtidos pelos trabalhadores da construção civil (10%); os menores, pelos empregados da indústria de transformação (praticamente zero).

 

Esses extremos na evolução dos rendimentos estiveram associados, naturalmente, ao crescimento bastante forte da construção civil e ao ritmo mais modesto da indústria de transformação. E, num quadro de alta tanto das exportações como (em ritmo mais forte) do mercado interno, o que explica a maior timidez da produção (e dos reajustes salariais) na indústria é o rápido aumento da penetração dos produtos manufaturados importados.

 

É evidente que um fator importante por detrás desse processo é a progressiva queda da cotação do dólar no Brasil – o real cada vez mais forte reduz os preços das importações (além de aumentar os preços, em dólares, das nossas exportações industriais).

 

As autoridades, que basicamente vinham se limitando a comprar a "sobra" de dólares presente no mercado – engordando as reservas do Banco Central, mas incorrendo num custo alto, dado que a taxa de juros a que essas reservas são remuneradas é incomparavelmente mais baixa do que aquela que o governo brasileiro paga ao emitir títulos de dívida interna para custear a compra de dólares –, tomaram no final do ano mais medidas para conter a apreciação do real. As medidas ajudaram a estancar, mas não se sabe por quanto tempo, o "derretimento" da cotação do dólar no Brasil.

 

Num quadro em que o crescimento da economia cria uma sensação generalizada de "satisfação", os segmentos da indústria mais ameaçados pela valorização da moeda brasileira são o setor social que tem feito ressalvas mais claras à política econômica. Isso sem falar, claro, dos milhões e milhões de brasileiros que, a despeito das transferências de renda, continuam em condições de vida que por qualquer critério são reconhecidas como miseráveis – mas não têm voz política. Com os movimentos sociais desmobilizados e enfraquecidos, alguns deles até mesmo aderindo ao "jogo do contente" que vem predominando na esfera da política partidária, o atroz isolamento dos miseráveis parece se agravar. Se "todos" estão felizes com a farra de consumo, que os infelizes excluídos fiquem quietinhos pra não atrapalhar a festa.

 

No final do ano a política econômica também voltou a pisar no freio: o Banco Central, que já tinha aumentado a taxa de juros básica (Selic) entre abril e julho, reduziu o dinheiro que os bancos têm à disposição para emprestar. E é bem possível que em 2011 as autoridades venham a lançar mão de novas medidas para segurar o ritmo de alta da demanda – assim como de novas iniciativas voltadas a conter a apreciação do real ou seus efeitos. Mas isso é tema para outro artigo, sobre as perspectivas econômicas para 2011.

 

Jurandyr O. Negrão é economista.

 

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