República refém dos ricos

 

Além da popularidade do Lula, aferida em pesquisas publicadas nos jornais da semana, três coisas crescem, estas com velocidade vertiginosa, na sociedade brasileira: a lucratividade da casta financeira, a violência nas ruas e a corrupção nos altos escalões da República. A semana, para espanto e tristeza do cidadão, produziu novos emblemas da marcha ensandecida de cada um destes processos que dilaceram o tecido social e aprofunda a barbárie que nos envolve.

O fluxo de entrada de capital especulativo no Brasil aumentou, entre janeiro e abril, quase cinco vezes em comparação ao mesmo período do ano passado. O bolo, que era de 4,842 bilhões de dólares em 2006, cresceu agora para 24,147 bilhões de dólares e se tornou o principal canal de entrada da moeda americana no país. A banca privada, sempre ela, faz a festa. Toma empréstimo de curto prazo e juros mais baixos no exterior e podem aplicar tais recursos no cassino estratosférico da taxa Selic. É o famoso capital motel, que os países sérios costumam enquadrar no rigor da lei. Um dinheiro quente que entre e sai com alta rotatividade e adora se hospedar nos paraísos do rentismo e da maracutaia.

Cinco jovens riquinhos da Barra da Tijuca, no Rio, espancaram “por brincadeira” e com estupidez brutal uma empregada doméstica que aguardava condução em um ponto de ônibus. Menos mal que foram presos logo, graças à iniciativa de outro trabalhador, um motorista de táxi, que anotara a placa do carro dos espancadores. Um dos riquinhos, ao chegar na delegacia, disse que logo estaria solto porque sua família, como os bancos, tinha dinheiro. O pai de outro riquinho classificou de absurda a prisão dos espancadores, pois tanta coisa pior está acontecendo. A arrogância dos endinheirados, mau exemplo que vem de cima aos borbotões, frutifica e prospera no “baixio das bestas”.

No planalto central do país, aquela solidão imensa que se transformou no que se vê, segue a novela da corrupção nos altos escalões da República. O capítulo da vez é estrelado pelo antes vetusto Senado Federal, onde contracenam Renan e Roriz, dois riquíssimos ruralistas que fazem bico no câmara alta. Ambos criam porcos e vacas que, talvez por viverem em fazendas luxuosas, só podem emporcalhar e avacalhar outros lugares. Flagrado no grampo, Roriz se explicou naquela linha que só complica. Recebeu um cheque de dois milhões quando só pedira emprestado trezentos mil (devolveu o troco em espécie) para arrematar com a bagatela a “prenhez” de uma vaca premiada. O benemérito é um potentado que enriqueceu com concessões públicas na área dos transportes. Um “amigo de missa” do senador encalacrado e que também reza muito ao lado de outros políticos que lhe facilitam a “prenhez” de sua fortuna.

Enquanto isso, o presidente faz cara de paisagem. Sereno como um santo de bordel, ele se afirma no pedestal sustentado nas estacas da pequena política. Seu governo, por considerar que qualquer nitidez prejudica a “governabilidade”, ostenta como vantagem o empirismo radical. Navega confortavelmente nas águas do fato consumado. E, quando o fato consumado governa o governo, são os poderosos de turno que continuam mandando. As forças opacas do mercado extrapolam de suas tamancas e avassalam o poder público, que se amesquinha na desmoralização. O rato roeu a roupa da República. A “real-poltik” resulta em renda rápida para os ricos e é repleta de riscos para o resto. A reta razão recomenda retomar a rota da rua: resgatar a República, refém dos ricos.

Léo Lince é sociólogo.

 

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