Guerra carioca

 

O cenário de guerra que o Rio vive há cerca de uma semana permite uma grande variedade de abordagens, que se ligam numa cadeia complexa de causas e efeitos. Esta complexidade, no entanto, não pode nos inibir nesta hora grave. A sociedade precisa se manifestar e nós, da ASA, aqui estamos, mir zainen do, contribuindo para debater saídas para os graves problemas que o narcotráfico levanta.

 

Para começar, lembremos que o Rio continua sendo, na feliz expressão do jornalista Zuenir Ventura, uma cidade partida. Somos divididos em bairros privilegiados e miseráveis, em cidadãos de primeira e segunda categoria. Com uma educação pública sofrível, a expectativa de realização pessoal de parcela expressiva da população, que supõe acesso a empregos decentes e a bens materiais e imateriais, é reduzida. A desigualdade foi acentuada em décadas de administrações incompetentes, repressivas e, não raro, corruptas. Criou-se, notadamente em setores da classe média, uma cultura da exclusão, que criminaliza e discrimina a pobreza.

 

O tráfico de drogas obedece à lógica de mercado. Disputa por consumidores, eliminação da concorrência, diversificação na oferta, aumento na escala de produção/oferta, acesso a produtos importados. É um braço do modo de produção capitalista. A guerra em curso no Rio começa quando os fornecedores, pequenos varejistas, passam a ter problemas de distribuição. Fortemente armados (um fuzil AR-15 alcança no mercado negro preços que chegam a R$ 50 mil), enfrentam outro poder armado, com quem estão habituados a ter relações incestuosas (corrupção policial não é novidade e facilita o acesso a drogas e armas).

 

Aqui começam as interrogações. É um mercado que arrecada, segundo o economista Sérgio Ferreira Guimarães, do Ibmec-RJ, entre US$ 200 milhões e US$ 370 milhões anuais (o mesmo que o setor têxtil no Estado). Onde fica depositada essa dinheirama? Certamente não no Complexo do Alemão ou outra favela. É um volume de capital que alcança o mercado financeiro e cujos controladores não calçam chinelos de dedo, nem andam por aí de bermudão e sem camisa. Estarão sendo monitorados ou esta ponta da questão é negligenciada? O ex-secretário de Segurança Hélio Luz, lembrando que "à noite Ipanema brilha" (referindo-se às festas da alta classe média movidas a cocaína), perguntava se nossa sociedade está preparada para aceitar que policiais invadam apartamentos na avenida Vieira Souto com a mesma desenvoltura com que arrombam barracos nas favelas. Está?  

 

Mercado é oferta e demanda. O noticiário costuma concentrar-se na oferta, no intermediário, no traficante, no bandido armado. Onde andará a demanda? Viciar-se, por exemplo, em cocaína, não é um hobby barato. São os extratos sociais médios e altos que sustentam o mercado, procurando, em escala crescente, todos os tipos de droga. O comércio ilegal das AR-15 é abastecido pelas cheiradas e tragadas dos viciados. A pergunta é: por que alguém precisa entorpecer-se para seguir vivendo? Que sociedade é essa, que substitui o prazer da busca pelo conhecimento, da construção afetiva, da luta política, pelo prazer fugaz de uma "viagem"? Bastarão políticas públicas que inibam o consumo de drogas (pela repressão, por exemplo) ou essa história só se resolve com transformações sociais profundas, que criem caminhos e opções diferentes – e estimulantes -  para os cidadãos?

 

A neutralização do tráfico no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro deve ser saudada por todos nós, especialmente pelas centenas de milhares de moradores dessas comunidades, que afinal são as grandes vítimas dessa guerra. No entanto, que ninguém se iluda. Não desapareceu a corrupção do aparato policial. As rotas de entrada de armas e drogas importadas não foram mexidas. As milícias continuam aterrorizando o povo nas favelas e bairros pobres. Os gestores dos milhões de  dólares do tráfico não foram perturbados. A demanda por drogas não desapareceu, apesar do estrangulamento temporário da oferta. Como o Estado brasileiro enfrentará essas questões? Mais ainda: estará a sociedade brasileira realmente interessada em soluções duradouras ou preferirá acomodar-se, já que os beneficiários dessa calamidade são extratos de sua elite ?

 

Rio de Janeiro, 29 de novembro de 2010.

Diretoria da ASA – Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação.

 

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