Pequeno Grande Rio

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O Rio de Janeiro, apesar de tudo, continua lindo, hospitaleiro, alegre e combativo. A cidade possui alguns dos mais belos cartões postais do mundo. Seu povo, aberto não apenas aos brasileiros de outros estados e cidades, mas também aos estrangeiros dos mais diversos cantos do mundo, mantém sua natureza jovial e culturalmente democrática. Embora seus ritmos musicais apresentem traços nostálgicos, eles são capazes de contagiar de alegria até os mais sisudos. E sua história está cheia de lutas, seja contra o arbítrio dos mandantes, seja por melhores condições de vida.

 

Isso tudo, apesar do que foi feito nos últimos cinqüenta anos, desde que o Rio deixou de ser a capital da República, para apequenarem a cidade, liquidarem sua beleza e tornarem seu povo mal-humorado, triste e conformado. A ditadura militar, em especial, fez tudo a seu alcance para quebrar a espinha dorsal popular e a natureza democrática dos cariocas. Acumularam-se desmandos e situações que a democratização pós-ditadura militar ainda não foi capaz de eliminar.

 

Foram dezenas de anos sem crescimento econômico e sem geração de empregos. Foram mais de vinte anos de perseguições políticas e culturais. Foi outro tanto de desprezo e de abandono, praticados por diferentes e continuados governos, em relação às camadas pobres da população, em particular às que vivem em favelas. Tudo isso criou as condições para transformar milhares de jovens (e também crianças) em "soldados" do tráfico de drogas, dos assaltos e roubos, organizados ou desorganizados, do assassinato por encomenda, e de uma série de outras atividades anti-sociais.

 

No vácuo da ausência do Estado e de políticas e serviços públicos que possibilitassem o mínimo de dignidade para os que viviam em áreas de favelas, estas se transformaram em territórios de poder e governo de bandos criminosos armados e em entrepostos de venda de narcóticos para as classes médias abastadas. Situação agravada, ainda por cima, com a conivência de policiais e outras autoridades corruptas, com a formação das "polícias mineiras" ou milícias, compostas de policiais, e com a ausência efetiva de oportunidades de trabalho e de perspectivas de futuro.

 

As tentativas de organização comunitária para reagir a essa situação foram constantemente desorganizadas e eliminadas, seja pelos bandos criminosos, seja pela polícia. A população moradora nas favelas conviveu sempre com o preconceito de grande parte da população não-favelada, para a qual todo favelado era um bandido em potencial, e com o duplo perigo de ser atingida e massacrada. Foram inúmeros os massacres praticados tanto por bandidos quanto por policiais, de forma independente ou em conjunto.

 

A política de ocupação dos territórios das favelas, através das UPP (Unidades de Polícia Pacificadora), e da introdução de serviços públicos, tem mostrado que a maioria absoluta dos favelados é formada por trabalhadores, embora grande parte ainda continue desempregada. Além disso, a presença de órgãos do Estado, mesmo mínima, mas com uma atitude diferente da polícia tradicional, criou um ambiente favorável para a vida e a organização comunitária.

 

Se a economia continuar crescendo e aumentando a oferta de empregos, a atividade do Estado nas favelas contribuir para a formação educacional e profissional de jovens e adultos, e ambos possibilitarem a organização comunitária autônoma, a política de ocupação territorial pode limpar o cenário das contradições sociais, encobertas até então pela presença escancarada do tráfico, e ajudar a superar décadas de descaso e de abandono.

 

Por outro lado, a política de ocupação dos territórios precisa estar associada a uma política de apelo à rendição, entrega das armas pelos "soldados" dos bandos armados e ressocialização efetiva dos jovens ganhos pelo tráfico em virtude da ausência de esperança de vida. O que demanda uma reforma profunda do sistema prisional brasileiro.

 

Contra a "guerra regular de posições", praticada pelo governo, sem ofertas de rendição e tratamento diferenciado de ressocialização, os "soldados" vão seguir à risca a orientação de seus chefes. Vão travar uma "guerra de guerrilhas", de caráter terrorista, contra a população civil e contra a polícia, e tendem a lutar até a morte quando não tiverem mais qualquer território onde se recolherem.

 

Talvez tenha chegado a hora de colocar a política no comando das ações militares, de modo a evitar um banho de sangue de grandes proporções.

 

Não se pode esquecer que a crise atual foi gerada numa fase ainda preliminar da criação das UPP. A maior parte das favelas do Rio ainda não conta com a presença das UPP. Desse modo, sem uma política de atração dos "soldados", com oferta clara de uma nova perspectiva de vida, teremos a repetição de novas crises, à medida que a ocupação dos territórios avançar.

 

A oferta não pode ser apenas prisão ou morte, porque nas condições prisionais brasileiras ambas são quase a mesma coisa. Precisa ser prisão com condições diferentes das atuais, educação, formação profissional e ressocialização. Se isto não for tentado, estaremos apenas trocando os sofás de lugar e será difícil o Rio sair da pequenez em que foi jogado há mais de meio de século, e voltar a ser grande, que é o que merece.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #2 Tem Paulista no Samba....Raymundo Araujo Filho 05-12-2010 09:13
Confesso que nos mais de 60 artigos do Wladimir Pomar que já comentei criticamente aqui no Correio (facilmente acessáveis na coluna de colunistas, aqui ao lado), já experimentei vários tipos sentimentos e abordagens, afinal não aprendemos a fazer o debate político, de forma monocórdia, e sem estar envolvido afetivamente nele, em um posicionamento mais Barroco do que Parnasiano, onde a forma ascética e vistosa é o que mais interessa, estando o sentimento das coisas sobrepujados por maquilagens estéticas do texto. E, considero que existem excelentes obras Parnasianas. Mas o Barroco, ah! O Barroco...(Triste Bahia / Ou Quão de semelhantes / Triiiiiste...(Caetano Veloso cantando Gregório de Mattos, em Tropicália).

Confesso que me vem à tona, lendo este artigo do Wladimir Pomar sobre o Rio, um certo ar de galhofa de minha parte, algo que pretendo não ofensivo à pessoa do WP, e nem aos paulistas em geral, nem à Sampa, onde tenho vários amigos e parentes, e que considero estupenda cidade, sob alguns aspectos. As pizzas são excelentes, por exemplo.....E o Metr^po, para quem tem o do Rio, é coisa do terceiro milênio. Ah! O Grupo Rumo, já extinto, é paulista.

Mas, sem querer estimular aquela guerrinha boba entre paulistas e cariocas (mas que, no conteúdo, tem um fundo de antagonismos relevantes), não posso deixar de perguntar, sem contudo, querer suprimir o direito de WP escrever sobre o que lhe aprouver, mas lembrando que "quem escreve o que quer, lê o que não quer...". .

Em vez de eu ficar a criticar de forma mesquinha que "com tantos problemas em Sampa, porque o WP (assim como outros paulistas de carteirinha)resolveram se ocupar do Rio? E ainda como frios analistas, coisa impossível de se fazer em se tratando do último baluarte da Cultura Livre Brasileira e de um "modus vivendis" único neste país, mas agora, ao que parece, finalmente derrotado e sob um "golpe de misericórdia", de difícil, se não impossível superação. Corre o risco de viramos Sampa rapidamente...

E olha que nunca fui considerado um destes cariocas que se sentem superiores ou "mais esperrrtos", dentro da mediocridade geral(afinal, também muito presente no Rio). Mas, como dizem por aí "O Rio é o Rio". E não precisa de corrida de Fórmula 1 para chamar turistas uma vez ao ano, acrescento eu. E isso representa alguma diferença. Acho.

Pois bem, considero esta intervenção de WP sobre o Rio, uma enorme "barriga" jornalística.

Em primeiro lugar, pois deixa transparecer, por parte de WP, a falta de intimidade e, ao menos, frugal conhecimento do Rio, o Rio verdadeiro e não o das articulações políticas pelo Poder e para o Poder, com a qual a nossa Ex Esquerda Corporation S.A. parece ter se encontrado para um casamento eterno...e feliz!

Depois, e isso não é fato novo, mas sim o motivo de minhas críticas aos textos do WP, é a deslavada incorporação do discurso das classes e do regime político dominantes, onde o máximo de divergência permitiodo é o limite imposto para que não se tente quebrar a hegemonia do pensamento, quase único (reconheço), que o Capitalismo e o Capital é que podem, neste momento, gerar riquezas para os países e seus povos, a meu ver, em clara capitulação ideológica, que por "coincidência" (tem bobo que acredita nisso, no Rio e em Sampa...)com a chegada no Poder daquele setor que veio com o discurso mudancista (que, hoje sei, feito apenas à mudança de classe social, concedida a alguns neo barnabés do "stablishment"). Pois a tão propalacda mobilidade sócio econômica "é o maior KAÔ, chará" (pomo se diz nos morros cariocas)

Assim, sem levar em conta as várias contradições insanáveis deste triste episódio da (falsa) guerra contra a bandidagem, os meandros subterrâneos (não só a fuga pelas galerias pluviais)que geraram aquela pantomima que muitos, mas muito mesmo, acreditam ser a ordem natural das coisas, e apenas a reação expontânea do Poder, aos bandidos que, como todo o bom "lumpen", apenas luta em favor de suas necessidades imediatas e (curta) visão de mundo.

Sem me alongar muito, mas registrando o apoio implícito de WP, por exemplo, ao treinamento de soldados brasileiros no Haiti, para intervenção urbana, em ação escamoteada pelos reluzentes Capacetes Azuis da ONU, sobre os quais me reservo o direito de não divulgar comparação chula que me vem à cabeça.

Para terminar mais esta crítica a mais um texto de WP, transcrevo este fragmento "A política de ocupação dos territórios das favelas, através das UPP (Unidades de Polícia Pacificadora), e da introdução de serviços públicos, tem mostrado que a maioria absoluta dos favelados é formada por trabalhadores"

Comento: Só se for aí em Sampa, e por alguns paulistas alienados que a presença em maior número de trabalhadores e gente de razoável prática e índole honesta, não era conhecida como verdade. Aqui no Rio, tirando uma elite abjeta e alguns neo petistas e Lullo Petistas, todos sabem.

É o que dá ficar lendo A Folha e o Estadão. O Globo, para quem lê subtexto, é muito melhor e menos aristocrata, não tenham dúvidas, embora um jornal de direita. Um pouco menos radical do que Wladimir UPP...

Creio que WP estaria prestando maior serviço aos brasileiros, a maioria pobre dos brasileiros, se entendesse e escrevesse que o que acontece aqui no Rio hoje, em termos de "limpeza social" e deslocamento dos pobres para as periferias, nada mais é do que já aconteceu e acontece em Sampa, com 3 décadas de atraso.

E este atraso é só por um motivo: O Rio é o Rio......E aqui não dizemos "Meu Rei.".

Sugiro que visitem titaferreira.multiply.com e leiam verdadeiras análises, em vários artigos, sobre o acontecido no Rio, sob ângulo que não incorpora as idéias das classes dominantes, como verdade histórica.
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0 #1 PoucoWendell Setubal 04-12-2010 19:12
É pouco o que esta análise oferece. Culpar a ditadura militar pelo empobrecimento do Rio é camuflar o papel do capitalismo, MESMO NO GOVERNO LULA, que traz a desindustrialização do país, e o Rio de Janeiro foi bastante afetado. Esta desindustrialização não tem sua origem na ditadura militar e sim no neoliberalismo, a partir de FHC, de certa forma continuado no governo Lula. Sem trabalho, sem reforma agrária, os pobres e os novos pobres vão para a informalidade e alguns para as atividades ilícitas. Isso é o capitalismo no Brasil, na periferia, comprando os produtos chineses, onde estão as grandes empresas mundiais, devido à mão de obra mais barata. De certa forma, a China, tão cara ao Pomar, ajuda o aumento da criminalidade carioca. É pouco também tecer loas à UPP, "esquecendo-se" que só servem ao grande capital, que quer segurança na área da Copa do Mundo, por onde passam as UPPs criadas. Por fim, não dá pra discutir o assunto sem mencionar a questão das drogas, a discussão séria sobre sua legalização, o que o governo, refém dos fundamentalistas evangélicos, evita, apostando que o exército resolva o problema das favelas no Rio. Jobim e Cabral agem como capitães do mato, mas como são aliados do lulismo até vozes mais lúcidas, como a do Pomar, tropeçam e se acumpliciam com a barbárie da mídia.

Wendell
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