Estados Unidos: o que fazer no Oriente Médio

 

A feitorização do Oriente Médio pelos Estados Unidos segue a todo curso. O recolhimento das tropas do Iraque não interrompe o processo de modo algum, mas apenas o altera. Washington continua a implementar a infra-estrutura necessária na região para prover sem sobressaltos suas operações.

 

O orçamento de manutenção e ampliação destinado àquela área jamais se reduz. Uma das justificativas invocadas é a necessidade de adequar as tropas americanas ao combate constante ao terrorismo, o que envolve também a preparação de militares ou de policiais dos países em cujo território os complexos são fixados.

 

Desta maneira, solidifica-se a estranha aliança entre a democrática república norte-americana e as autoritárias monarquias regionais. Apesar do visível relacionamento estreito, nenhuma delas se posiciona a favor de uma abertura política maior, mais próxima do Ocidente.

 

Em solo iraquiano, permanecem unidades de elite estadunidenses, com a finalidade de assessorar e apoiar efetivos locais. Em um primeiro momento, não se prevê a participação em escaramuças, a fim de poupá-las de desgaste, especialmente da opinião pública.

 

Além do mais, Bagdá não dispõe de forças armadas ainda completas, como na aeronáutica, por exemplo. Por isso, o país dependerá da equipagem norte-americana por longo período, caso queira sentir-se seguro diante de seus vizinhos.

 

Por outro lado, a presença de batalhões assegura aos Estados Unidos a reiteração dos laços políticos com o Iraque, ainda suscetível de bastante pressão por parte dos governos do Irã, da Síria e mesmo do Líbano, por meio do Hizbollah.

 

Nenhum deles deseja a permanência duradoura dos americanos na região médio-oriental. É inevitável, no entanto, a continuidade, uma vez que a acolhida é antiga em outros países, como o Kuwait, por exemplo – estima-se a existência de cerca de 15 mil combatentes.

 

Adicione-se que há outras bases naquele país. Por isso, o Departamento de Defesa autorizou o funcionamento de uma divisão da Agência Logística de Defesa, lá estruturada durante a gestão de John Kennedy em outubro de 1961 - http://www.dla.mil/.

 

Em face da exposição, observam-se com ceticismo os comunicados da Casa Branca de retirar-se do Oriente Médio e adjacências em poucos anos. Concernente ao Afeganistão, a data original havia previsto 2011 para a saída dos contingentes – na perspectiva do General David Petraeus, antes de 2012, ela não seria possível; no momento, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) menciona 2014.

 

A despeito dos custos da Guerra do Afeganistão, em torno de um bilhão e meio de dólares por semana, o Pentágono não reconhece a desutilidade de sua atuação; ao contrário, estende-a ao instável Paquistão.

 

O produto interno bruto afegão chegou em 2009 a pouco mais de 14 bilhões de dólares ou pouco mais de 250 milhões de dólares por semana, quantia várias vezes menor que a dos gastos norte-americanos - https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/af.html.

 

Eis a tragifarsa da ação ocidental naquele país: em vez de investimentos sociais, voltados para o desenvolvimento de longo prazo, e, portanto, para a redução da desigualdade, há os militares, de curto alcance e comprovadamente de pouca efetividade no benefício da população.

 

Em suma, Washington gasta somas vultosas há uma década no Oriente Médio e vizinhanças, sem satisfazer de modo algum seu interesse nacional, entrelaçado em toda aquela área em três questões básicas: disponibilidade farta de recursos energéticos fósseis, estabilidade regional duradoura e reiteração da primazia americana.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de História da mesma instituição.

 

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