Os farofeiros e as aéreas

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“Só falta a farofa”, eu observei. “Falta nada, quando o avião sai essa grama aí do jardim fica cheia de farinha”.

 

Foi assim que me respondeu o taxista do aeroporto de Petrolina, depois que fiz um vôo que era para ser direto de São Paulo a Petrolina, mas, quando surgiu cliente, a empresa foi primeiro para Caruaru, depois Juazeiro do Norte e só depois a Petrolina.

 

E era o povão. Gente que nos acostumamos a encontrar nos ônibus que vão para São Paulo. Aqueles que viram uma casa comunitária, com forró tocando a noite inteira, farofa passando de banco em banco e todos brincando como se fossem conhecidos há décadas, no melhor da real hospitalidade e fraternidade nordestina.

 

Pois foi essa sensação que tive no avião. Claro, todo mundo meio quieto, sem farofa, sem som alto, sem o forró. Mas quando desceu em Caruaru, uma parte desceu e o avião lotou novamente. Por R$ 300,00 reais o cabra iria estar em São Paulo cinco horas depois, numa viagem que custaria o mesmo de ônibus e duraria pelos menos cinqüenta horas. Portanto, o povão brasileiro agora também freqüenta aviões e aeroportos. É quase indisfarçável o constrangimento dos engravatados com essa invasão da plebe. E isso é extremamente interessante.

 

Como será o futuro é difícil saber. Faz-se de tudo em nível mundial para ocultar a contribuição da aviação na emissão de CO2 na atmosfera, portanto, sua importante contribuição no aquecimento global. Mas voar deixou de ser privilégio das classes médias e altas. O povão tomou de conta dos aeroportos.

 

Esses dias, no São João, peguei quase trinta horas no aeroporto de Recife para chegar a Petrolina. Depois soubemos que a companhia lotou o vôo em São Paulo, foi direto a Petrolina e nos deixou em Recife. Venderam mais passagens que os lugares que tinham.

 

Tem dia que falta avião, no outro falta tripulante, no outro sobra passageiro, no outro falta controlador. Assim está nossa aviação, que faliu depois que a Varig faliu. A baderna é geral, bem brasileira. O povão nem liga. Uma boa farofa – muito melhor que as barrinhas e pãezinhos que nos dão – deve mesmo tomar conta dos aviões. Quem sabe com forró a bordo.

 

Quanto aos controladores de vôos, merecem mesmo um pouco mais de dinheiro para não permitirem que essa baderna vire tragédia. Aí complica. E os militares, se querem demonstrar autoridade sobre os controladores, nem mais precisa. Já sabemos em que nível está. Basta dar o aumento e a baderna será brasileira e segura.

 

 

Roberto Malvezzi é coordenador da CPT.

 

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