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O pequeno José Imprimir E-mail
Escrito por Paulo de Tarso Corte   
Sexta, 05 de Novembro de 2010
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No dia à eleição, a declaração do presidente Lula de que José Serra está saindo "menor" do processo eleitoral, e que causou indignação e raiva em lideranças do PSDB e dos Democratas, merece algumas considerações.

 

Serra realmente está saindo menor dessas eleições, não pelo resultado, muito menos pelos números. Serra está saindo menor porque a campanha evidenciou ao país e ao próprio PSDB que ele não está preparado para governar o Brasil, nem para responder à altura os grandes desafios que o momento exige. A campanha também evidenciou que seu sonho de chegar à presidência é um projeto personalista, individual e oportunista.

 

Começamos pelas máscaras. O Brasil assistiu José Serra aparecer na campanha como um Pinóquio de plantão. Prometeu salário mínimo de R$ 600,00; 13º. para o Bolsa Família, 10% para os aposentados e a construção de um governo nacional "acima dos partidos políticos". Não vou relatar outras promessas para não ser redundante; essas bastam para mostrar sua incoerência e seu oportunismo. O PSDB, se é um partido moderno e de massas como acredita ser, não pode menosprezar a força da sociedade política dessa forma vã e barata.

 

O PSDB, se é um partido moderno e de massas como acredita ser, não pode aceitar promessas que naturalmente vão contra a idéia de responsabilidade fiscal afirmada durante o governo FHC como um valor a ser perseguido pelas forças políticas e sociais. A quem ele, Serra, queria enganar?

 

Mas não é só isso. Vamos recuperar um pouco da trajetória de Serra. Na redemocratização, depois que voltou ao Brasil, começou sua carreira como secretário de Planejamento do governo Montoro (1983-1986). No governo, tratou de cooptar inúmeros prefeitos do PDS e do PFL, trocando verbas públicas estaduais por apoio eleitoral ao seu nome como candidato a deputado federal.

 

O escritor Fernando Morais, seu colega de governo Montoro, disse durante a campanha que sabia o mal que o Serra poderia fazer ao país. Esse, com certeza, é um dos motivos. Depois, Serra, na sombra de Montoro, Covas e FHC, aproveitou-se com grande habilidade das conjunturas internas do PSDB em São Paulo para eleger-se senador junto com FHC.

 

A esse respeito também convém lembrar a própria trajetória do PSDB, articulado durante a Assembléia Nacional Constituinte pelo grupo paulista, encabeçada por Montoro, Covas, FHC e outras lideranças descontentes com o quercismo e com o desgaste do PMDB. FHC, cientista político de primeira grandeza, sabia que em vários lugares do mundo o partido da transição naufragou na própria transição. E FHC foi o mentor intelectual do PSDB, indicando a pretensão de ser um partido social democrata seguindo os passos dos grandes partidos do welfare state europeu. Apenas "esqueceram-se" que os PSDs europeus foram construídos no bojo da luta dos trabalhadores e do forte movimento social europeu na afirmação de direitos e na imposição de limites ao capitalismo. Construíram um partido pregando social-democracia, reunindo fundamentalmente uma safra de novas lideranças do centro que emergiram no processo de redemocratização e lideranças do antigo campo democrático que se formou durante a ditadura.

 

É o único partido "social-democrata" do mundo que chegou ao poder em menos de dez anos de existência, a partir de um acordo de cúpulas e de uma conjuntura favorável, sem nenhum enraizamento mais profundo no movimento social. Chegou ao poder baseado no acordo com setores do capital nacional e internacional em aliança com o que há de mais atrasado na política nacional. Chegou ao poder graças à habilidade e ao senso de bom oportunismo de FHC.

 

Digo bom oportunismo porque há dois tipos de oportunismos: um, o bom, é aquele que se aproveita das janelas que são abertas pelas circunstâncias; o mau é aquele oportunismo tramado, pragmático e orientado por finalidades que não podem ser confessadas publicamente.

 

Do Senado federal Serra foi alçado à condição de ministro do governo FHC onde ocupou duas pastas: comandou e executou o plano de privatizações e depois foi ministro da Saúde, que naquele momento aparecia como uma das grandes queixas da população brasileira. Queixas, na verdade, que envolviam toda a área social do governo.

 

As duas pastas ocupadas por Serra, cada uma ao seu modo, poderiam render muitos recursos políticos para cacifar e alimentar o seu sonho presidencial. O programa nacional de privatizações até hoje gera suspeitas de subestimação de preços mínimos e tráfico de influencias para a formação de caixa de campanha. A privatização das teles é um grande exemplo.

 

E na Saúde, Serra, que se apresentou durante a campanha como o "melhor ministro da Saúde de todos os tempos", apenas executou projetos pontuais de alta visibilidade política: criou os genéricos, apoiou o projeto reivindicado pelo movimento de saúde de atenção aos doentes soro-positivos e instituiu a norma operacional básica que definiu o regime tripartite entre governo federal, governos estaduais e municípios para a gestão do SUS – modelo muito criticado por alguns sanitaristas históricos, diga-se de passagem.

 

Diz que criou o programa Saúde da Família, mas não é verdade. O programa era uma reivindicação antiga do movimento nacional da reforma sanitária que ganhou notoriedade a partir de sua aplicação pelos governos Jereissati e Ciro Gomes no Ceará. Também no ministério, criou condições para a adoção da publicização da saúde no Brasil – nome pomposo criado pelo PSDB – a fim de permitir a mercantilização da saúde, prática do partido, principalmente em São Paulo.

 

Afora isso, a passagem de Serra no Ministério da Saúde não atacou nenhum dos problemas estruturais da saúde pública no Brasil e deixou um episódio – os vampiros e sanguessugas – até hoje escondido nas sombras. Foi uma passagem pontual, que se pautou pela simples adoção de medidas bem pensadas para produzir efeitos de mídia e fortalecer o trabalho de construção de imagem para o ministro. Lembre-se que foi no governo FHC que se pensou a CPMF como instrumento de financiamento da Saúde porque a área fazendária nunca permitiu a aplicação da norma constitucional de financiamento da seguridade social – Saúde, previdência e assistência social.

 

Depois que perdeu a eleição presidencial para Lula em 2002, quando ele, Serra, era a "Dilma" do FHC, teve de reconstruir sua trajetória política. É bom lembrar que a primeira eleição de Lula pode, sim, ser encarada como um julgamento do governo FHC, mas não se pode negar que também foi um julgamento do pensamento, da trajetória e dos conteúdos próprios do candidato Serra. Perdeu para Lula porque, já naquele momento, não teve capacidade de se afirmar no debate democrático da eleição.

 

Elegeu-se depois prefeito de São Paulo pensando exatamente na sua carreira e nos seus interesses eleitorais. Fez alianças, administrou o tempo e governou construindo o trampolim prefeitura-governo do estado-presidência.

 

Na prefeitura pouco realizou: acabou com importantes programas sociais do governo do PT e mudou o nome de outros apenas para descaracterizá-los como ações do PT.

 

A revolução na educação a partir dos CEUs, o programa municipal de transferência de renda (a bolsa família da Prefeitura de São Paulo) e a reforma administrativa do governo Marta, que conferia autonomia e instrumentos de gestão descentralizada às subprefeituras do município, foram descontinuadas no governo Serra. O programa de atenção materno-infantil do PT mudou de nome e foi inaugurado como obra de Serra. Afora isso, investiu e criou as bases para a privatização disfarçada de publicização na saúde e na educação.

 

No governo de São Paulo também exerceu o mandato de olho no calendário eleitoral. Paulo Preto, a liderança ferida, que o diga. Promoveu intervenções pontuais de grande visibilidade (Rodoanel e reforma da marginal, por exemplo) e não encaminhou nenhuma das grandes questões estruturais que se acumulam no transcurso dos governos do PSDB. O programa de ampliação do Metrô é uma piada; a deterioração dos centros de pesquisa e da universidade pública é evidente; a segurança pública tem indicadores alarmantes; e a educação, no principal estado-membro, é uma das piores do país. Nem se fale de salários e de políticas de RH para o funcionalismo estadual.

 

Pode-se até dizer que é legitimo trabalhar com olho no futuro, agindo para construir a trajetória política futura. E é. O que não é legitimo é botar o carro na frente dos bois, construindo estratégias de busca do poder a qualquer custo. Política do chipanzé, a liderança do bando a qualquer preço, nem que seja pela briga com outros iguais.

 

A campanha que acaba mostrou que Serra é um produto de sua pura ambição, evidenciando que nem ele, nem a sua coligação partidária, têm um projeto para o país. E pior que isso, negam o passado construído pelo próprio FHC.

 

Serra passou sete meses elogiando ou criticando o governo Lula a partir de seus próprios interesses, dependendo das situações e da sua conveniência.

 

Passou a campanha atolado na soberba, achando-se o melhor de todos, querendo tirar vantagens eleitorais de todas as situações que se lhe apresentaram. Falseou o debate e menosprezou a capacidade crítica dos eleitores e dos seus aliados.

 

O ex-candidato passou sete meses de campanha se sustentando na idéia de que a "candidata mulher" não tinha passado, nem capacidade política administrativa para exercer a presidência e que somente ele, Serra, era o mais preparado. Mas ao contrário disso, o que ele conseguiu foi evidenciar que não teve e não tem a mesma competência de um FHC ou de um Aécio Neves, por exemplo, que são capazes de sustentar um debate através da defesa de posições ou da crítica consistente.

 

Por fim, vendo que sua estratégia estava por ruir frente à consistência de um governo de resultados, na presença de uma candidata de fibra e de valor, deu início a uma das mais sórdidas campanhas morais da história do país, jogando o tudo ou nada para segurar os votos dos segmentos mais obtusos da sociedade brasileira. Machismo, homofobia, preconceito e fundamentalismos religiosos viraram ferramentas de ação política nas mãos de Serra. Trocou Keynes pelo Espírito Santo; a agenda econômica pela festa de pentecostes.

 

Mas tudo acabou. E acabou da melhor forma possível, desmanchando-se a máscara do democrata, do técnico preparado e do homem comprometido não apenas com a solução dos problemas do país, mas também com o aprimoramento das nossas instituições.

 

Serra acabou. As marcas que ele deixou nesta campanha permanecerão por muito tempo na memória do eleitor e dos seus parceiros de política. Se uma nova campanha eleitoral estivesse começando hoje, eu duvido que uma eventual pretensão de Serra fosse aceita e aclamada como uma decorrência natural dentro do partido e de sua base aliada. A campanha fez ruir sua máscara e mostrou ao país que o PSDB tem melhores quadros e lideranças mais capacitadas para o debate político contemporâneo.

 

Lula, muitas vezes, é acusado de língua solta, mas já há muitas evidências que indicam que os seus comentários normalmente são grandes metáforas sintetizando profundos conteúdos. Serra ficou mesmo bem menor.

 

Paulo de Tarso de Oliveira Corte é diretor executivo do Instituto Henfil, atua como consultor sênior na área de planejamento estratégico situacional e gestão governamental, escola de Artes, Ciências e Humanidades-EACH, USP.

E-mail: ptarso(0)usp.br

 

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