Veto a Lobato

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Enquanto a campanha eleitoral transcorria da forma despolitizada que tem caracterizado os últimos pleitos, o Conselho Nacional de Educação aprovava por unanimidade um parecer contrário ao uso de reedição recente do livro de MONTEIRO LOBATO, Caçadas do Pedrinho, em salas de aula do ensino fundamental.

 

Ainda bem que, para entrar em vigor, a proibição do Conselho Nacional de Educação precisa ser homologada pelo ministro Fernando Haddad, da Educação, que prometeu que não tomará uma decisão antes de ouvir acadêmicos e educadores, ressaltando que é preciso pensar melhor sobre o tema.

 

As perseguições à obra infantil de Monteiro Lobato com base em preconceitos ideológicos, muitas vezes fantasiosos, não são novas. Nos anos 1950, na Bahia, um padre católico, monsenhor Salles Brasil, publicou um livro caricatural e tendencioso intitulado Monteiro Lobato ou o comunismo para crianças. Na época, felizmente, não foi adotada nenhuma medida legal contra a literatura infantil do grande autor paulista, que acabara, aliás, de ser homenageado com a inauguração de uma biblioteca pública com seu nome no largo de Nazaré, em Salvador, onde gerações de crianças e de adolescentes conheceram sua obra e a de muitos outros autores de livros infantis e juvenis.

 

Hoje, a legislação vigente possibilita que se pleiteie a censura à obra de Lobato com base em argumentos progressistas relacionados com o combate (necessário!) à discriminação da população de cor negra, descendente de africanos trazidos como escravos para o Brasil. Conviria que os movimentos negros debatessem com mais cuidado se o veto à distribuição e à leitura de obras de relevância pedagógica e literária, como as de Monteiro Lobato, constitui a maneira mais democrática e eficaz de combater os preconceitos racistas. O estímulo à leitura crítica dessas e de quaisquer outras obras, com a identificação dos preconceitos racistas e de outra natureza que possam conter e com a análise do contexto histórico em que foram escritas, pode ser, ao contrário, a maneira mais efetiva de lutar contra esses preconceitos em nossa época.

 

Monteiro Lobato foi um escritor progressista, embora com as limitações inevitáveis de seu tempo e de sua condição social. Contribuiu para abrir a cabeça e aguçar o senso crítico de muitas e muitas crianças, o que poderá continuar fazendo, se equívocos como o do parecer do Conselho Nacional da Educação não prevalecerem. Não se deve subestimar a inteligência das crianças, nem seu sentimento espontâneo e generoso de solidariedade com os oprimidos e marginalizados, como a tia Anastácia do Sítio do Picapau Amarelo.

 

Duarte Pereira é jornalista.

 

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Comentários   

0 #8 Lobato Aliado ou Inimigo?Paulo de Tarso 15-11-2010 09:52
São justos os protestos contra os termos destinados aos negros e na obra de Lobato. No entanto quero contextualizar Monteiro Lobato. Ele não Foi um Carlos Lacerda. Teve uma atuação politica importante. Lutou pela nacionalização do petróleo antes do petróleo é nosso e muito antes do pré-sal. Entre outras lutas e posturas.
Em sua literatura discutiu o racismo em “O Presidente Negro” .
Quanto a caracterização de figuras temos o Jeca tatu. Que é uma critica ao modo do caipira. Creio eu que a ideia não é ofender, mas chamar a reflexão.
Quando se voltou para a literatura infantil creio que trouxe com sigo na figura da boneca Emília uma língua desbocada com o intuito de chamar a reflexão. Ela não apenas se dirige aos negros com palavreado vulgar, mas a todo e qualquer um. Faz critica a tudo e a todos não respeita ninguém, o que vai mudando ao longo da obra. Foi a forma como encontrou de se expressar sem ser censurado. Mal sabia ele que décadas depois seria por este fato sofrer esta censura.
Meu intuito aqui é abrir a discussão para quem se sente ofendido por lobato a tentar ver nele mais do que os termos que o ofenderam. Lobato (sua literatura) na verdade é um instrumento de luta pela liberdade e pela justiça social. Não se descarta aliados em um mundo onde há tão poucos.
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0 #7 Veto a LobatoRoque S. de Sopuza 12-11-2010 09:21
É sempre bom está atento as tentações nada recomendáveis. Os meninos da Bahia aprenderam lendo os livros de Lobato.
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0 #6 Preconceito & DiscriminaçãoHélio Q. Jost 09-11-2010 15:14
Há alguns anos vi na capa de uma revista jurídica a chamada "O DIREITO DE TER PRECONCEITO". Fiquei chocado. Mais ainda quando, abrindo as páginas, vi que o autor era um Jurista negro. - Como um negro poderia falar algo assim? Discorrendo sobre o assunto, o nobre jurista deixou claro que há uma enorme confusão entre preconceito e discriminação. Como diria o filósofo: "uma coisa é uma coisa e outra,..". Brincadeira à parte, à verdade é que o preconceito tem uma raiz cultural. - Ou não é assim? Bem, citado jurista condenava a DISCRIMINAÇÃO, porquanto o PRECONCEITO é uma questão de "foro íntimo" que se situa na liberdade de consciência, de livre pensar que não permite patrulhamento ideológico. Já a discriminação não, ela é acintosa, ofensiva e é esta, segundo o jurista que pode sofrer as sanções legais. Quer admitamos ou não, somos todos preconceituosos em relação à pessoas quanto a raça, gênero, crença, etc. De avante, admitir que só o branco é discriminados ou preconceituoso, é uma falácia. - O que se diria se alguém formasse um conjunto musical com a denominação BRANQUITUDE JÚNIOR, ou RAÇA BRANCA. - Lei Afonso Arino nele!!! Agora, NEGRITUDE JÚNIOR e RAÇA NEGRA pode. Escrever "carnes negras" ou (algo parecido) a meu ver não é ofensivo, assim como não seria escrever "carnes brancas" ou "branquela". Assim, nem tanto ao mar, nem tanto à terra,...e viva o povo brasileiro, negros, brancos, amarelos, índios, de tal ou qual crença religiosa, esse caldo cultural multicolorido e maravilhoso. Viva a miscigenação, como diria Darcy Ribeiro.
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0 #5 Paulo Monteiro 09-11-2010 10:25
É inegável o caráter racista e eugenista da obra de Lobato ( a figura sempre abobalhada da Tia Anastácia ou "a negra beiçuda"). Concordando com o argumento da "leitura crítica" como possibilidade da discussão acerca do racismo, vale ressaltar que, essa leitura de caráter deve só é possivel à crianças de faixa etária adequada à sua compreensão e dentro de contextos que favoreçam essa discussão. O uso indiscriminado e muitas vezes idolatrado de Lobato em sala de aula é bastante temerário.
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0 #4 Veto a LobatoMarcia Cristina Araujo 09-11-2010 08:26
Os dito de Monteiro Lobato me ofendem sim!!! sou negra e não acharia nada interessante se uma filho meu me indagasse se era macaco por ser negro, essa comparação não é feita comuns a todos, sim a nós negros, eu é que tenho que dizer se me sentir ofendida ou não, acha a decisão do conselho acertada, pois a escola pública é de todos nós e temos de tomar cuidado com que está sendo passada para as nossas crianças, não é por que ele é escritor famosos que pode tudo, levar em conta o contexto da época só serve para reafirmar ainda mais as mesmas posições racista da época, sinto como se a sociedade quisesse perpetuar o racismo, preconceito e a descriminação para sempre. O questionamento segue: se quem faz os biscoitos são Tia Anastásia por que o nome da marca é Bona Benta??!!!
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0 #3 Veto a LobatoRubens Pinho Teixeira 08-11-2010 21:53
O autor é parente do ilustríssimo e saudoso desembargador ? Só discordo da colocação de que Monteiro Lobato tivesse sido tolido por limitações de sua época. Ele estava a frente de seu tempo. À altura de Anisio Teixeira e Paulo Freire. Como diria o beato Gois (Ancelmo) Com todo respeito.
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0 #2 Monteiro LobatoPaulo de Tarso 08-11-2010 13:16
A leitura de Monteiro Lobato deve ser incentivada sempre. Sua riqueza de originalidade não devem ser deixadas de lado por alguns aspectos que podem e devem ser discutidos e olhados a luz do que Duarte Pereira propõe. Espero que o Ministro Haddad não vete a adoção do livro nas escolas.
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0 #1 Só branco decide?Julio de Castro 05-11-2010 21:08
É polêmico o tema, e não deveria ser desprezada a opinião dos educadores negros. Agora, vir a público,esnobe, o atual presidente da ABL, branco, subestimando formadores de opinião, a afirmar que não tolera "censura à obra" de Monteiro Lobato... Ora, pois!Academia que tem em suas cadeiras de "imortais" José Sarney e Paulo Coelho, é mesmo uma casa de chá e bablablá à toa.

Será que, se fosse livro de ilustre autor desconhecido, utilizando tais expressões preconceituosas aos negros, o Ministro da Educação faria vista grossa? Ou se, em trabalho de redação com apresentação oral, alunos brancos também empregassem expressões do tipo "preto como pau de fumo", "boneco de piche", o professor admitisse?

Infelizmente, também na Literatura brasileira, há tolerância - "liberdade de expressão"? - quando o autor é de renome. Ou será que teríamos que consultar S.Exa. Gilmar Mendes do STF?

Faz lembrar uma apresentação da cantora despolitizada Rita Lee interpretando "Ovelha Negra" num programa de TV ao lado de Dona Ivone Lara. Triste isso. Ou o lulista Chico Buarque ("palmas para a ala dos barões famnitos!")no samba Meu Caro Amigo: "Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta"...

Portanto, se tiver que admitir expressões racistas em educação e cultura, por si só, anula a lei em vigor. Mais uma que não "pega" no Brasil.
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