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América Latina: ‘não querem deixar passar quem tem intenção de respeitar os direitos sociais’ Imprimir E-mail
Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito   
Segunda, 01 de Novembro de 2010
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Na última semana, a reportagem do Correio da Cidadania visitou a Casa dos Embaúbas, convento localizado na cidade de Embu, região metropolitana da capital paulista, para conversar com o bispo D. Raul Vera Lopez, da diocese de Saltillo, estado de Coahuila, norte do México. Considerado por muitos um ‘mártir’ nacional, D. Raul contou sua história de luta pelos direitos humanos de diversos grupos sociais.

 

Reconhecido na Noruega neste ano com o prêmio Rafto (como acadêmico e defensor dos direitos humanos nascido no país nórdico), entregue a figuras que se destacam nessa seara, D. Raul compartilhou conosco um pouco de sua extensa história de vida, que já passou por diversos estados mexicanos e enfrentou diferentes chagas sociais do país, que, a seu ver, encontra-se "dividido".

 

Relatou sua experiência com os indígenas de Chiapas e o movimento zapatista nos anos 90, a defesa de mulheres e o trabalho que atualmente mais o ocupa: a defesa dos migrantes centro-americanos, em geral em busca de uma nova vida na América. Neste caso, em meio às notícias de chacinas cometidas pelo narcotráfico, denuncia que a impunidade que reina no México presta um ótimo serviço de contenção da imigração para os EUA, além das evidentes imbricações do crime com o Estado.

 

Sobre a conjuntura brasileira, diz que os mexicanos enxergam Lula com "simpatia" e crê que o país se encontra no grupo progressista da região, ao lado de Equador, Bolívia e Venezuela, com presidentes de "preocupação social". Sobre um dos temas que mais ocuparam a agenda política brasileira, o aborto, fez duras críticas à forma com que o debate foi apresentado ao público, lembrando de todas as mazelas sociais que levam uma mulher a abortar e ressaltando que o tema não pode ser discutido em seu aspecto moralista. "Os mesmos que financiam propagandas contra o aborto, em suas empresas demitem empregadas que engravidam e que ganham uma miséria".

 

A entrevista completa com o bispo Raul Vera Lopez pode ser conferida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Primeiramente, o senhor podia nos contar um pouco de sua trajetória? Como tem sido sua experiência de luta pelos direitos humanos, especialmente no México?

 

D. Raul Vera Lopez: Bem, minha primeira experiência como bispo foi na diocese de Altamirano, onde há grande pobreza e violência. Nesse tempo, o narcotráfico produzia a base da heroína a partir da flor de papoula, além de maconha. Essa atividade gerou uma situação muito difícil entre as pessoas, pois o lugar já era por si só violento. Nós fizemos um estudo para a pastoral e descobrimos que as pessoas estavam muito ressentidas, o que gerava reações muito violentas, levando-nos à necessidade de criar um centro de defesa dos direitos humanos. Foi quando contemplei pela primeira vez tal necessidade, mas também que se devia criar um ambiente mais favorável aos direitos humanos, pois era muito perigoso, inclusive, denunciar alguém neste lugar, já que a vingança era muito comum e se dizia que matariam quem denunciasse.

 

Dessa forma, considerei oportuno esperar um tempo antes de criar um centro de defesa dos direitos humanos. Mas, antes de se fazer oportuna esta realização, fui transferido para Chiapas, e não pude começar o trabalho. No entanto, criamos um centro social para atender situações que o Estado não cobria, incluindo a defesa das mulheres mal tratadas, nossa primeira iniciativa. Depois, começamos a atender famílias. Minha intenção era restabelecer uma justiça à qual as pessoas não tinham acesso.

 

Fui então pra Chiapas, e lá, sim, vivi uma experiência muito forte, onde estive por quatro anos, e onde estava o levantamento zapatista. A diocese trabalhava pela paz e reconciliação, sempre apontando o tema de estabelecimento de justiça. Sem isso, não há paz. Antes de chegar a Chiapas, fui nomeado para uma comissão de bispos para apoiar os bispos de Chiapas, com vistas à reconciliação. Um ano e meio depois, fui nomeado bispo e, após seis meses, conhecendo a situação plenamente, incorporei-me à defesa dos direitos indígenas. Nesse momento, já havíamos fundado um centro de defesa dos direitos humanos, que evoluiu muito positivamente, pois o que era antes um centro de defesa voltado aos povos indígenas virou um centro dos povos indígenas, ou seja, eles estão incorporados como os próprios promotores dos direitos humanos, distribuídos por todo o território da diocese.

 

Em seguida, comecei um trabalho que nos faria correr o maior perigo de nossas vidas, pois envolvia a ação ativa dos paramilitares contra os indígenas. O governo tinha uma dupla atuação: de um lado, apoiava a pacificação que promovíamos e tentava o diálogo, enquanto, por outro, alimentava os paramilitares, colocando-os para treinar com o exército, que os armava e pagava.

 

Nesse momento, tivemos de fazer um trabalho em nível nacional e internacional muito forte. Em 1997, tive a oportunidade de denunciar, em Sevilha, cinco dias após a matança de Acteal (chacina de 45 indígenas tzotziles), diante da imprensa espanhola e internacional, a guerra de baixa intensidade contra os indígenas - pois fui a Sevilha no dia em que ocorreu o massacre, que me foi confirmado quando entrava no avião. Graças a Deus, Acteal deu a chance de denunciar abertamente o que se fazia com os indígenas. Apesar de o Estado negar até hoje que a ação tenha sido feita por paramilitares, foi uma mostra das mentiras que contavam.

 

Foi neste momento que, ao mesmo tempo em que trabalhava no centro de direitos humanos - do qual sou membro da direção até hoje, e também co-presidente –, me tocou também a causa de defesa dos migrantes. Junto de uma equipe, impulsionamos outra casa perto da fronteira, em Saltillo, para defender os direitos dos migrantes, que são assassinados em grande número quando passam pelo México, pois o crime organizado os seqüestra - o que já me levou a fazer denúncias junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

 

Também defendemos mineiros, após uma explosão, na seqüência de várias outras explosões menores, em 19 de fevereiro de 2006, que matou muitos deles, sendo que até hoje não entregaram os corpos (refere-se à explosão da mina de carvão de Pasta de Conchos, Coahuila, com oito resgatados e 63 mineiros até hoje desaparecidos). Não o fazem para que não se saiba como era a mina, mas a essa altura temos razões para achar que abandonaram os mineiros sobreviventes por esse motivo. Deixaram de buscá-los em cinco dias, sendo que estavam a 150 metros de profundidade! A desculpa foi de que a mina tinha explodido completamente e os corpos, se desintegrado. Perícias da Secretaria do Trabalho, a mesma que defende a empresa, não deixam que se chegue à verdade. Mas cremos no abandono com muita firmeza.

 

Tocou-me, ademais, defender direitos de mulheres violentadas por soldados do exército, e conseguimos que prendessem alguns deles, além de causas de trabalhadores.

 

Agora, atuamos cuidando dos casos dos desaparecimentos resultantes do crime organizado em Coahuila, estado da minha diocese. Já descobrimos 80, e estamos em contato com as famílias para que compareçam e participem das investigações. Os atuantes na causa pelos direitos humanos e também seus defensores devem tomar suas atitudes.

 

No caso das minas, foram as viúvas que fizeram presença. No caso dos migrantes, tivemos de mudar a mentalidade com a qual se encaram essas pessoas a partir delas mesmas. No caso das prostitutas, os soldados ameaçaram-nas de morte após tratarem-nas de forma degradante, obrigando-as a uma série de barbaridades. E mesmo com as ameaças, elas denunciaram. Sempre se deve potenciar as pessoas envolvidas.

 

Correio da Cidadania: Esse bravo conjunto de lutas pelos direitos humanos narrado pelo senhor comprova como o Estado mexicano tem sido parceiro da violência que assola o país, sem apoiar quem se compromete com tais causas, não?

 

D. Raul Vera Lopez: Sim, e, além do mais, tentam nos intimidar com ameaças.

 

Correio da Cidadania: E como está sua relação atual com o governo mexicano e com a Igreja, no México e também fora do país, diante de das lutas que o senhor tem empreendido e da repercussão que provocam?

 

D. Raul Vera Lopez: Alguns na igreja não entendem esse tipo de atuação, mas aos poucos vão entendendo. A situação é tão grave neste momento que muita gente passa a entender as coisas. Dentro da igreja, os sacerdotes e bispos são ameaçados, há lugares em que nem podem ir. Temos cada vez mais aliados, pois é crescente o número de pessoas que padecem as conseqüências.

 

De modo que, quando estive em Chiapas, éramos gente estranha, o governo se infiltrava no episcopado, com alguns bispos que faziam trabalho de contra-informação, sob a desculpa de que o governo lhes dava informação privilegiada, que na verdade era ‘especial’, sobre os acontecimentos. E quando íamos falar, contra-argumentar, diziam que mentíamos, exagerávamos.

 

Nesse sentido, nosso trabalho era muito difícil, pois havia muita desconfiança sobre nós como bispos, já que o governo insistia em que a diocese havia impulsionado o levante e a guerrilha. Foi bem marcante. Certa vez, fui conversar com um bispo e ele me disse: "Devo acreditar em quem, em você ou no exército?".

 

Digo isto para ressaltar o fato de que, diante daquilo que governo e imprensa diziam sobre os bispos, lhes convinha manter a discórdia. E o governo jamais confiará em nós, mesmo tendo informações de que não foi a igreja de Chiapas que impulsionou o movimento.

 

Mas o governo sempre soube de tudo perfeitamente, até por terem grupos de inteligência. Sabiam da existência de grupos armados que chegaram a propor aos indígenas que se levantassem.

 

Correio da Cidadania: E fora de Chiapas, a atuação do governo foi no mesmo sentido?

 

D. Raul Vera Lopez: Sim. Inclusive, no trabalho que faço, alguns grupos que defendem presos políticos me pedem colaboração, como no caso de San Salvador Atenco, que teve presos políticos condenados a 60, 100 anos de prisão. Participei de manifestações pela pacificação e justiça no local e, após um ano, conseguimos que eles fossem soltos.

 

Correio da Cidadania: De todo modo, mediante a gravidade e extensão das situações de agressão aos direitos humanos no México, o senhor citou que tem aumentado o número de aliados para as causas que defende. A correlação de forças estaria, neste sentido, se invertendo, em face de uma maior conscientização das pessoas e movimentos sociais?

 

D. Raul Vera Lopez: Realmente, as pessoas têm feito um trabalho diário muito forte. Nós entramos a partir do momento em que elas pedem. Digamos que nosso centro de direitos humanos está vinculado à rede de direitos para todos. E veja bem, há mais gente da igreja envolvida nos centros. É gente que desde Chiapas comecei a conhecer, nos vemos freqüentemente em reuniões sobre o tema.

 

É preciso pessoas de presença moral nesses movimentos. Não somente ligadas à igreja, como no meu caso, mas também há outras pessoas ligadas mais diretamente à política, como a figura de Rosário Ibarra, que começou a luta civil pelos direito humanos no México por conta da perseguição a jovens e estudantes nos anos 70, derivada do movimento de 68 - eu estava na universidade nessa época e também estive envolvido nesses movimentos antes de ser frade. Rosário também faz chamados à participação nos grupos de direitos humanos. Somos, portanto, parte de uma mesma caminhada.

 

No grupo contra a impunidade, desde que sou presidente honorário da comissão contra a impunidade, vi serem soltos seis presos políticos. Somos como um escudo de proteção a tais grupos.

 

Na igreja, muita gente diz que nos metemos em assuntos demais, mas eu lhes pergunto: "Como vocês querem que a gente não se meta?". Ainda mais que essas pessoas e grupos sabem muito bem que sou bispo e tenho obrigações na diocese. Por exemplo, desde que estou aqui (em São Paulo), de ontem pra hoje, me procuraram dois membros do sindicato dos eletricitários, cuja estatal foi extinta, extirpando 44 mil empregos; eles vão fazer uma enorme manifestação na Cidade do México.

 

Correio da Cidadania: E quanto à igreja, no México em especial, e também ao redor do mundo, como o senhor enxerga hoje a possibilidade de evolução de sua atuação em torno às questões afetas aos direitos humanos?

 

D. Raul Vera Lopez: Respondo a esta pergunta com uma ilustração. Colaborei com a Comissão Episcopal da Pastoral Social (CEPS), que tem a ver com tudo isso, e ela é muito fraca atualmente. A voz, a presença da igreja neste momento, é muito fraca, e isso me entristece, pois precisamos dela mais forte, claro que precisamos.

 

Correio da Cidadania: Como o senhor analisa os movimentos e lutas sociais no atual contexto político da América Latina? Que países o senhor considera que têm governos mais progressistas e propensos ao acolhimento dessas causas?

 

D. Raul Vera Lopez: Bom, o Brasil tem um bom papel neste momento, e agora me dou conta do que se passa por aqui nesses dias, com todos os irmãos do Cesep e bispos muito preocupados com a situação atual do país. Há os exemplos da Bolívia, Equador, também a Venezuela, mesmo que haja nestes países uma conjuntura mais tensa.

 

O ressurgimento de governos de presidentes que têm interesse social é uma esperança, pois o sistema globalizado criou políticos que entram na política por negócios.

 

Correio da Cidadania: O senhor enxerga o Brasil de forma próxima às experiências dos países citados, Bolívia, Equador e Venezuela, que parece terem, cada um a seu modo, experiências mais ‘radicalizadas’ - - criticadas pela direita, mas tidas como mais progressistas por grande parte da esquerda - na condução das suas política e economia?

 

D. Raul Vera Lopez: Bom, vemos o Brasil com esperança, pois, em meio à crise econômica, soube tomar posições muito sérias. Conversando com os bispos, muito críticos, vejo que eles têm opinião favorável de que Lula criou um novo processo no país, essa é a opinião que ouço. No México, Lula é visto com simpatia.

 

Lamento muito a maneira como se tem tratado o aborto aqui no Brasil, algo bastante desagradável, dizendo-se coisas espantosas. Também lamento muito que em Honduras a igreja tenha ficado ao lado do golpe, com a conferência episcopal avalizando-o imediatamente. A maioria dos migrantes que chega à nossa casa é de centro-americanos, são hondurenhos, que não têm futuro. E a igreja diz que defendia o golpe porque conservava o Estado de Direito. Mandei para eles um documentário sobre esses migrantes, pois, além do mais, eu tinha colaborado para a arrecadação de fundos para um filme, que se saiu muito bem, tendo ganhado prêmios, com tradução para outros idiomas... Pois bem, depois disso, disse-lhes: "Aqui estão os hondurenhos que chegam à minha diocese. Esse é o Estado de Direito que vocês defendem? Para quem, para quantos? Quantas pessoas tiveram seus direitos humanos e cidadãos respeitados?".

 

Outra coisa que me assustou foi a intentona no Equador, pensei que vinha outro golpe, o que, graças a Deus, não ocorreu.

 

De toda forma, vejo com muita esperança a integração que os países latinos estão começando a ter, e lamento que estejamos ainda ligados à América do Norte, porque nos demos muito mal com essas questões de mercado comum...

 

Correio da Cidadania: Nesse sentido, o México, um país mais visceralmente ligado aos Estados Unidos, pode ter alguma esperança maior de avanços sociais com o fim da era Bush e a eleição de Obama?

 

D. Raul Vera Lopez: Entendemos que Obama, como pessoa, e seus discursos de campanha são fenomenais, mas sabemos que Obama não é os EUA, e que age limitado por muitos condicionantes. A crise econômica foi um exemplo, quando fez propostas muito boas para o país sair dela, mas não o deixaram levá-las adiante, e elas acabaram muito reduzidas. E ainda penso que é melhor tomar cuidado mesmo, pois se já mataram Kennedy...

 

Também há o outro lado: o governo mexicano é muito frágil, nosso regime é realmente muito fraco, inclusive diante do assunto do narcotráfico. O Estado está cada dia mais fraco. Além disso, enfrenta o narcotráfico sem a Procuradoria de Justiça, o enfrentamento é puramente bélico.

 

E isso tem um duplo efeito: primeiramente, os direitos humanos das pessoas que são violados; em segundo lugar, como se dedicam apenas a matar os membros do crime organizado, eles não são levados à justiça. Como vão desbaratar as imbricações do crime com o poder político e todo o poder econômico, que é exercido através de empresas e centros financeiros, sem levarem os narcotraficantes à Justiça e ao Ministério Público?! Parece até, é o que pensamos, que fazem de propósito. "Enterramos os expedientes e ficamos todos livres".

 

Correio da Cidadania: Ou seja, mais uma atuação meramente retórica, para não dizer criminosa, do governo do México.

 

D. Raul Vera Lopez: E também tem o problema dos migrantes. Neste momento, o crime organizado seqüestra muitos migrantes, fazendo um grande favor aos EUA em detê-los. Eles fazem seus negócios, e um dos efeitos é que muitos migrantes têm medo de ir ao México hoje em dia, até pela impunidade. Ao deixar correr tanta impunidade, o México contém a imigração para os EUA, configurando outra vez seu jogo duplo.

 

Correio da Cidadania: Estamos no Brasil em uma conjuntura eleitoral, na qual o aborto foi tema central dos debates, e, conforme observado pelo senhor, utilizado de forma ‘espantosa, com o objetivo de influenciar nas votações. Como o senhor analisa a postura de alguns membros da igreja, confrontando os candidatos a governar um Estado laico de forma a induzi-los a terem um posicionamento de caráter religioso?

 

D. Raul Vera Lopez: No México, temos uma experiência semelhante. Lá, foi dessa maneira que contiveram o candidato mais popular, e claro que conseguiram muitas coisas, principalmente aquilo que foi mais claro: a fraude eleitoral que elegeu o atual presidente (Felipe Calderón). De toda forma, a população poderia ter tido uma reação mais forte para obrigar a recontagem dos votos, como queríamos. Depois, o candidato organizou um plantão pelas ruas do México e a imprensa esteve ao lado, ou seja, era tudo parte daquilo que vinham forjando.

 

Assim, também fico preocupado com o Brasil. Como eu disse, nós vemos com simpatia o governo Lula, mas acho que seria muito triste se se recuasse nos avanços obtidos - e que, além do mais, usem para isso argumentos como o do aborto, que está ligado a uma série de injustiças. A mulher aborta após sofrer uma série de injustiças em uma estrutura social espantosa. No México, é a mesma coisa, a igreja não foca a questão integralmente. É fácil ver o bebê que morre, mas não se dão conta de todas as condições e toda a ruína que a vida impõe a ele, não só no ventre materno, mas por toda a vida. É isso que não conseguem enxergar. E os mesmos que financiam propagandas contra o aborto, em suas empresas demitem empregadas que engravidam e que ganham uma miséria.

 

Ou seja, esse tipo de tratamento é muito parcial, e o que vemos no Brasil acontece mundialmente: não querem deixar passar, ir adiante, aqueles que têm a intenção de respeitar os direitos sociais, econômicos e culturais. E manipulam a questão de forma muito individual e moralista. Os pecados individuais não são discutidos na dimensão social, e isso é um defeito enorme.

 

No México, não se manipulou a questão do aborto, mas outros temas, como, por exemplo, que íamos ser como Hugo Chávez, que ele seria compadre do presidente da República, que iria levar adiante suas políticas, deixando nossos filhos na rua. Os filhos do México estão mesmo deixando o país, estão nas ruas, mas não por causa de Chávez, e sim por causa do narcotráfico.

 

Portanto, quando não se olha para a dimensão social, as conseqüências são terríveis. Estamos muito preocupados, porque, além de tudo, estão dividindo o país. Passaram-se quatro anos da eleição fraudulenta e essa divisão não cessou.

 

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

 

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Última atualização em Sexta, 19 de Novembro de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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