Algumas lições para o futuro

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A última semana da campanha eleitoral será como era de se esperar. A direita, já sem bandeiras, em virtude da contra-ofensiva política da candidatura Dilma, jogará nas ruas toda a baixaria de seu arsenal de armas sujas, com a participação escancarada de Veja, Globo, Folha e outros órgãos que se consideram os intocáveis da grande imprensa.

 

De todo modo, qualquer que seja o resultado do segundo turno, será necessário que a esquerda, em geral, e o PT, em particular, extraiam dessa campanha algumas lições essenciais para o futuro, se quiserem ter papel saliente no processo de transformação da sociedade brasileira.

 

Talvez a primeira, e mais evidente, é que a popularidade e o apoio explícito de Lula não carimbam passaporte para a vitória de outros candidatos do PT e da esquerda. O papel de Lula é importante, mas na disputa pela conquista dos corações e mentes dos eleitores é fundamental ter propostas econômicas, sociais e políticas que correspondam a suas necessidades e expectativas, e sejam entendidas como propostas para valer.

 

Se isto não acontece, a diferenciação não se dá. E aparecem fenômenos como os do Tiririca; das derrotas em regiões onde Dilma venceu, mas seus candidatos a governador e a senador perderam; da emergência de uma suposta terceira via, com a candidatura Marina mascarando a disputa de projetos opostos; e a imposição de um segundo turno.

 

Portanto, estar na direção do governo não isenta a esquerda de fazer política. Ao contrário, exige que ela se empenhe ainda mais em conhecer as reivindicações e expectativas das grandes camadas populares e da classe média, tanto as antigas que não foram satisfeitas quanto as novas, e responder a elas com propostas concretas e os correspondentes apelos de mobilização.

 

O governo pode e deve fazer propaganda de suas conquistas, como a redução da miséria e da pobreza. Mas tanto ele quanto a esquerda não podem e não devem cair no conto da emergência de uma nova classe média e do tudo bem. O Brasil ainda possui muita pobreza, muita falta de saneamento, muitas doenças quase endêmicas, estruturas educacionais e de saúde com muitas falhas, e há muito a fazer. Se não respondermos a essas necessidades e nos contentarmos com a suposta classe média C, inclusive esquecendo que há um abismo entre as classes médias C e B, corremos o risco de sermos abandonados até mesmo pelos que se beneficiaram.

 

Outra lição que salta à vista é que o fato de o governo democrático e popular aplicar políticas que beneficiem as camadas populares não significar, de antemão, a percepção popular de que a melhora de suas condições de vida, como emprego, salários e aumento da renda, são resultados diretos daquelas políticas.

 

Tal percepção pode ficar ainda mais nublada numa situação como a brasileira, em que o foco principal é o desenvolvimento das forças produtivas. O que significa, queira-se ou não, uma melhoria ainda maior da lucratividade das empresas e da burguesia e a manutenção das grandes diferenças de renda.

 

Por não haver compreendido que essa contradição não pode ser abolida administrativamente, mesmo que tivesse ocorrido uma revolução popular vitoriosa no Brasil, uma parte da esquerda transformou-se em oposição ao governo Lula e o acusa, assim como ao PT, de haverem se tornado "capitalistas".

 

De outro lado, grande parte da esquerda que apóia o governo se deitou no berço esplêndido da enorme popularidade de Lula. Abandonou o trabalho político árduo de discutir tais questões com as camadas populares e a classe média e de elaborar novas propostas de avanço nas reformas que o Brasil necessita, inclusive numa perspectiva socialista.

 

Desse modo, deixou inclusive que algumas de suas bandeiras tradicionais fossem levantadas como armas de combate contra ela própria. Para complicar ainda mais, acreditou que a burguesia estava satisfeita com o desenvolvimento da economia e viria em bloco no apoio ao candidato que Lula apontasse. E subestimou a capacidade de articulação política do setor burguês de oposição ao governo democrático e popular.

 

Ou seja, por um lado alimentou ilusões de que a luta de classes acabara e, por outro, foi arrogante em relação ao inimigo. Tais concepções levaram essa parte da esquerda a não entender que as alianças com uma parte da burguesia não significam apenas unidade em torno do desenvolvimento das forças produtivas, mas também luta, com razão e com limite, pela maior participação popular na política, por melhores salários e melhores condições de trabalho e de vida, e por outras reivindicações populares.

 

Aquelas concepções também contribuíram para que parte da esquerda não atentasse para a necessidade de aprender a combinar a defesa do governo democrático e popular com a direção prática das lutas dos trabalhadores e das camadas populares, seja para forçar o governo de coalizão a avançar no atendimento das reivindicações populares e democráticas, seja para forçar a burguesia a dividir parte de seus lucros.

 

Em outras palavras, aquelas concepções obscureceram a necessidade de praticar unidade e luta, tanto dentro do governo, quanto na sociedade. Se a esquerda que está no governo houvesse praticado essa combinação política, pelo menos durante o segundo mandato do governo Lula, as condições políticas para a campanha eleitoral seriam diferentes.

 

Como não o fez, continuou acreditando que estava totalmente certa e, ainda por cima, cometeu uma série de erros estratégicos e táticos durante a campanha Dilma do primeiro turno. É certo que a superação parcial desses erros no segundo turno pode levar à vitória. O que, se ocorrer, reforçará ainda mais a necessidade de avaliar e discutir em profundidade as lições desse período.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #6 Mais um SerristaRaymundo Araujo Filho 02-11-2010 16:53
è triste mas bele e firme a carta de José Arbex Jr. demitindo-se do Conselho Editorial do Jornal do MST.

É emblemática a sua frase "eu não vou participar disso", divergindo da adesão da direção do MST em seu apoio a Dima e mais ainda da utilização do jornal para campanha ferrenha para Dilma.

Parabéns ao Arbex Jr., o novo direitista ao ver vesgo dos Lullo Petistas.
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0 #5 EsquerdaRaymundo Araujo Filho 28-10-2010 14:16
É engraçado o WP!

Qualquer setor que critique o Lullo Petismo pela esquerda é chamado por ele de "aliado da direita".

Já a "esquerda" Lullo Petista pode atuar como quiser, com as alianças que quiser, com as práticas pelegas e pequeno burguesas que quiser, que continuam a merecer o título "esquerda" do WP.

Isso se chama Paixão Corporativa. Aliás, imprestável para a boa política.

WP me parece um pouco envergonhado pela direitização de Dilma. Eu não esperava outra coisa. Nem dela e nem dele....Apenas, a direitização de dilma é verdadeira, e a vergonha de WP, a meu ver, é falsa, constituindo-se apenas falas autosalvacionistas.
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0 #4 Dilma não é LulaLúcio Braga 27-10-2010 14:24
O Brasil mudou. Mas como você mesmo disse há muito o que fazer.
Acredito que Dilma fará juz a sua formação política ao lado de Brizola e Collares e vai assumir de vez as reformas emergenciais do país.
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0 #3 PT ou PSDB?Peixoto 27-10-2010 12:21
Faço parte do grupo dos que não "entenderam" o que acontece no governo e acreditam que o PT já não é um partido de esquerda.
Realmente não consigo acreditar que melhoria em alguns poucos pontos da vida dos trabalhadores (esquecendo de segurança pública, saúde, educação, moradia e tantos outros tópicos que continuam péssimos), junto com melhoria ainda maior da lucratividade das empresas e da burguesia, a manutenção das grandes diferenças de renda e o apaziguamento dos diversos movimentos sociais (por meio de pequenas concessões, sem transformações reais) sejam traços de um governo de esquerda socialista.

O Brasil caiu nas rédeas do PT. Não tenho dúvida que a forma de governo Lula é melhor que o modelo FHC, mas não está nem perto do que o Brasil precisa.
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0 #2 Algumas lições para o futuroEzio José 26-10-2010 23:38
É interessante notar que a campanha para Dilma ficou mais difícil do que foi para o Lula. Está muito mais difícil para o Serra.
A Dilma prega e é obrigação, dever, pregar a continuidade do governo Lula. Apresentar novos projetos seria demagogia demais pois o atual governo fez bastante do que prometeu, porém falta alcançar todos os fins e fianis de seus projetos. Afinal de contas, o Brasil vem de corrida de revesamento de bastão de muitos longos anos e que nos levou a viver cada vez pior nos governos anteriores. Istoé é a maior dificuldade que o Serra teria se o povo tivesse raciocínio e memória política. Mas em virtude de uma classe que perdeu o juízo, ele está aí disputando o segundo turno.
Fico a pensar: Ele pertenceu a um governo que vivíamos como vivíamos e faz parte dele. Praticará quailo que não foi concluído. Isto faz parte de um projeto e com certeza será reavivido. FHC estará governando com idéias às suas sombras como estará o Lula na sombra da Dilma se ganhar. Tudo faz parte de projetos profundos que a sociedade não entende ou não quer entender.
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0 #1 as esquerdas e LulaJosé Safrany Filho 26-10-2010 19:56
De fato, as esquerdas, no Brasil e no mundo, ainda estão, em sua maioria, estonteadas, sem rumo, desde o fim dos regimes do leste europeu. O forte alinhamento com Moscou, da maior parte delas, fê-las perder ou amolecer o senso crítico e autocrítico, que tanto Marx apregoava não deixar de praticar.
Precisamos voltar ao primário dos ensinamentos dos clássicos e reapredender a utilizar corretamente as ferramentas deles, principalmente o método dialético de análise das realidades e conjunturas! O sectarismo de uns, tidos como fundamentalistas, pois querem ser mais conhecedores da teoria que os grandes teóricos e quase sempre sem prática, outros acomodados com algumas benesses oferecidas por partidos do tipo PT que lhes cooptaram, para melhor dominá-los e evitar que os verdadeiros comunistas conquistassem espaços e, finalmente, a desilusão de outros que não viram resultados imediatos, conduziram à atual situação de refluxo e, até, paralisia em alguns países ou regiões. Contudo, o mundo não parou e novas formas de luta e resistência ao grande capital reaparecem sem cessar: Chiapas, FARC, bolivarianismo, etc. estão apontando novos caminhos com vistas ao objetivo estratégico. Temos muito que aprender com eles!
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