Entre o péssimo e o pior

0
0
0
s2sdefault

 

O processo eleitoral, nesse segundo turno, nos coloca diante de uma situação deplorável. O nível político caiu ao rés do chão. Brotou com todo vigor um estapafúrdio fundamentalismo religioso de feição medieval. Os dois candidatos se apressam em se mostrar contritos beatos num gesto de deslavado oportunismo. Ao invés de se usar o processo eleitoral para a elevação do nível político das massas populares, o que se observa é a capitulação, o agachamento aos atrasos e aos preconceitos das massas despolitizadas, desinformadas, e isso é profundamente lamentável.

 

Temos dito, com a devida insistência, que a participação dos verdadeiros socialistas nos processos eleitorais no âmbito do capitalismo tem propósitos tão somente táticos, pois, seguramente, não será por essa via que o povo trabalhador, a dona de casa, os explorados e oprimidos hão de desmantelar o poder burguês e construir um verdadeiro poder popular. Sendo a participação dos verdadeiros socialistas de natureza tática, resta responder ao seguinte questionamento: qual das duas candidaturas poderá ser pior para os nosso objetivos estratégicos? A direita explícita, representada por José Serra, ou a direita travestida de esquerda, representada por Dilma Rousseff?  

 

Desse questionamento poderá florescer uma outra saída, a saída do voto nulo. Ora, essa saída implica em dizer que não existe a mínima diferença entre um e outro candidato, mas, tão somente, semelhanças. Mas será essa saída a melhor? Terá ela realmente os fundamentos que se pretende? Não há diferença entre o explícito e o simulado?  Em qual dos dois governos teríamos maiores possibilidades de praticar ações de oposição?

 

Diferente das questões de princípio, que exigem apenas serem fundamentadas, as questões de natureza tática não nos fornecem, necessariamente, elementos de convicção. Por tal razão é que devemos ser inflexíveis nos princípios, porém, abertos às questões de natureza tática. Tornar livre a discussão das questões táticas é permitir uma saudável vida política. 

 

Gilvan Rocha é presidente do CAEP - Centro de Atividades e Estudos Políticos.

Blog do autor: http://www.gilvanrocha.blogspot.com

 

{moscomment}

Comentários   

0 #4 Nem péssimo nem pior. Dilma na cabeça!José Roberto Franco Reis 27-10-2010 12:23
Lulismo que derrotou a classe trabalhadora, verdadeiros socialistas, natureza tática, mal menor, dona de casa que quer derrotar o poder burguês, o erro de ficar do lado do povo mesmo quando ele está errado (fazer a revolução para a classe operária sem a classse operária!). Acho que estou vivendo na estratosfera, pois o Brasil que eu observo não dá respaldo a nenhuma destas leituras. Embora tenha grande respeito pelo Gilmar Mauro,
me parece que a luta política de certa esquerda no Brasil virou uma ação entre amigos (nem tão amigos) que fica brincando de revolução. Enquanto isso a dona de casa e os trabalhadores querem avançar no reconhecimento e consolidação dos seus direitos, lutando por causas concretas diante das imensas dificuldades que eles tem que encarar todo dia. A questão é: como articular a luta por estas causas concretas com o amadurecimento e o crescimento da consciência social, na direção de um projeto de transformação que tenha como horizonte o processo civilizatório do socialismo (sem fantasiar que tal processo dará a direção das lutas no chão real das necessidades históricas). Mesmo na revolução socialista russa o que as pessoas queriam era paz, pão e terra!!!. Então para mim não tem conversa de mal menor, ou quarto pior melhor. A opção que permite avançar é a vitória da Dilma!
Citar
0 #3 Tática sem estratégiaJulio Miyazawa 26-10-2010 08:39
> Gilvan. Considero o seu texto importante para uma meditação nessas alturas. Porém, onsidero que, se o individuo não define sua estratégia, a tática poderá ser qualquer uma, aleatória, lógico que, tendo em vista sua experiência. A partir de uma estratégia tendo em vista a transformação revolucionária, acredito que o lulismo derrotou a classe trabalhadora que levará decadas para se recuperar. Lula tem afirmado que nada mais existe e que tudo começou com ele. Esqueceu que tudo começou com o trabalho e pela sua apropriação, a luta de classes. Ambos, Serra e Dilma, hoje representam os interesses da classe dominante. Para mim, a única tática que deve prevalescer nessas cirscunstâncias, é o voto nulo, pelo menos para quem deseja ver definido o aspecto luta de classes nesse atoleiro eleitoral. Cordialmente, Julio Miyazawa - 26/10/2010
Citar
0 #2 Canais de conversação ou porrada?Azarias 25-10-2010 12:08
Fico com Dilma, pois o nosso interesse é fazer nossas reivindicações e garantir nossos diretos e não levar porrada(como acontecerá com Serra). Não poderemos ser refém do próximo governo, como o foram os partidos de esquerda e os sindicatos.
Citar
0 #1 VOTO NULO COMO UMA QUESTÃO TÁTICARINALDO MARTINS 24-10-2010 19:51
Muito explanativo o texto de Gilvan. Entendo que o voto nulo, nessa atual conjuntura eleitoral, pode ou poderia ser utilizado como tática política de grande valia, organizada pelos setores de esquerda. Mas como esses setores infelizmente têm os seus próprios projetos, essa tática política acabou, novamente, não acontecendo. Para justificar os seus oportunismos (o que quer sempre ficar ao lado do povo, mesmo que ele esteja equivocado em suas decisões)inventaram agora o argumento do "mal menor". Esse argumento, nas discussões políticas desses mesmos setores, nunca foi utilizado, pelo contrário, sempre foi criticado. As questões de princípio não devem estar só vinculadas a uma estratégia, atendem também as questões de natureza tática. Defender princípios, em conjunturas tão depravadas como a atual, é também uma tática política. Aliás, uma grande tática política.
Citar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados