Lembrando as mentiras colloridas

 

A campanha Dilma, mesmo tardiamente, se deu conta de que Serra se parece cada vez mais com Collor na campanha de 1989. Ele está procurando aplicar o mesmo estelionato eleitoral contra o povo brasileiro, combinando uma campanha midiática de promessas com a difusão massiva de mentiras e calúnias contra a candidata do PT.

 

Promete tudo, mesmo que as contas para realizar o que está prometendo representem dois ou três produtos internos brutos do país. Promete reforçar a Petrobrás, o Banco do Brasil e a CEF, mesmo que seu passado no governo FHC tenha sido o de tentar privatizar essas poucas estatais que sobraram da privataria selvagem daquele governo.

 

Promete melhorar a educação, embora sua participação no governo FHC tenha contribuído para quase liquidar as universidades e o ensino público no Brasil. Promete implantar o ensino técnico, embora no governo FHC tenha aplicado uma política de desmonte desse ensino e esconda que o governo Lula deu um salto na construção e funcionamento das escolas técnicas federais.

 

Promete salário mínimo de 600 reais, embora tenha concordado com as políticas de arrocho desse e de outros salários durante o governo FHC. Promete emprego pleno, embora tenha aplicado rigorosamente a política de desemprego pleno e de alastramento da miséria, que caracterizaram o governo FHC.

 

Promete crescimento econômico e desenvolvimento social, embora tenha contribuído para o desmonte da indústria nacional e para a subordinação do Brasil às ordens do FMI, segundo o qual crescimento causa inflação. Arvora como grande sucesso a implantação do real e do controle da inflação, embora esse sucesso tenha sido obtido à custa da economia nacional, que praticamente quebrou, e à custa do padrão de vida do povo, que desceu a um dos níveis mais baixos de sua história.

 

O sucesso de uma política anti-inflacionária se mede pelo grau de crescimento econômico e de emprego, como vem fazendo o governo Lula, e não pelo grau de quebradeira industrial e desemprego, como ocorreu no governo FHC. O uso de remédios que fazem o doente morrer "muito melhor", como a política aplicada por FHC-Serra, deveria ser considerado, na melhor das hipóteses, como erro médico ou, na pior, como crime contra o país e o povo.

 

A campanha suja contra Dilma segue o mesmo padrão de mentiras, lembrando a campanha collorida contra Lula em 1989. Lula seria analfabeto e incompetente, teria casa no Morumbi, possuiria dinheiro em paraísos fiscais, iria acabar com as religiões e fechar as igrejas, liberar o aborto, desapropriar ou dividir as casas, tomar as fábricas e os negócios, implantar o comunismo e dar o calote na poupança. Excetuando o calote aplicado por Collor, a campanha suja contra Dilma acrescentou a essas acusações a de que ela seria terrorista e lésbica, e teria assassinado inocentes.

 

Tudo isso era esperado por quem acompanhava as ações de PSDB e do DEM no parlamento e na imprensa. No entanto, a coordenação da candidatura Dilma acreditou que a campanha seria de "alto nível", como Serra prometia. Assim, ao invés de utilizar, desde o primeiro minuto do primeiro turno, o antídoto do debate político sobre os temas mais candentes da realidade brasileira, a coordenação da campanha Dilma acreditou que bastava a popularidade de Lula para garantir a vitória já no primeiro turno. Ficou arrogante e fez ouvidos moucos a todos os alertas sobre os perigos de sua política de "salto alto".

 

Para piorar, achou que a campanha midiática era a principal e desdenhou a experiência anterior do PT e de Lula, de que candidatos do PT só têm chances de vitória se amassarem o barro das ruas sem asfalto, onde ainda mora uma grande parte do povo brasileiro, e se realizarem uma campanha massiva de corpo a corpo com a população, incluindo comícios, carreatas e outras formas de contato direto com o eleitorado.

 

Em virtude, principalmente, desses dois erros estratégicos, a campanha Dilma permitiu que uma parte da esquerda e da juventude migrasse para Marina, que levantou bandeiras que historicamente eram do PT e da esquerda. O que propiciou a Serra escapar da polarização no primeiro turno, embora em nenhum momento tenha abandonado os dois veios principais de sua estratégia: promessas aos milhares e mentiras e calúnias constantes, neste caso com o apoio explícito de Veja, O Globo e outros jornais da grande imprensa.

 

Apanhada de surpresa com a ida ao segundo turno, a coordenação da candidatura Dilma, pelo menos na campanha na TV, começou a fazer o que deveria ter feito no primeiro turno. Tem respondido aos ataques de Serra e passou a desmascarar as promessas do candidato tucano, mostrando a incoerência do que fez durante o governo FHC e introduzindo um certo debate político sobre o futuro.

 

O problema é saber se isso será acompanhado da massificação dos contatos com o povo. Embora o tempo seja curto demais para saldar toda a dívida acumulada nesse terreno da estratégia, tal massificação talvez seja essencial para tirar do marasmo aqueles apoiadores de Dilma que acreditavam na vitória fácil e agora estão deprimidos com a dureza do embate. Sem jogar todas as forças no combate, a candidatura Dilma corre sério risco de assistir às mentiras colloridas vencerem mais uma vez.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #3 Mentiras a RodoRaymundo Araujo Filho 21-10-2010 15:34
Wladimir Pomar se iminscui definitivamente em um caminho sem volta.

Collor disse recentemente: "Não fui eu que me modifiquei. Foi Lulla que passou a fazer o que eu sempre preconizei, por isso estou aliado a ele".

Não li uma só contestação a esta declaração de boa repercussão, a partir de uma entrevista na TV, em um Domingo em horário nobre.

Outro dia, o atual presidente do PT, o Marechal Dutra, declarou que "as Reformas de FHC na área do Petróleo foram a alavanca para este sucesso que agora realizamos".

Talvez esteja aí uma das pistas para que Wladimir Pomar possa, finalmente e com atraso, nos descortinar a que se referia, quando escreveu sobre "algumas reformas positivas de FHC". Ainda nos deve esta...

Ultimamente, respondi a cerca de 50 ou 60 artigos de Wladimir Pomar, os contestando com fatos e dados oficiais sobre esta falácia Lullista.

Não há uma só contestação nem dele, nem de algum defensor de suas idéias(?), dignas de nota ou de alguma credibilidade. Reduzem tudo ao maniqueísmo eleitoral, na luta por um Poder Sem Povo, e tão sequestrado por elites, como a do campo Serrista-PSDBista.

Se não fosse muita pretensão, sugiro uma leitura destas contestações, disponíveis aí o lado da página do Correio, clicando em Wladimir Pomar.

Depois, sugiro que leiam o artigo de Mauro Santayana, Os Negócios e a Soberania (http://titaferreira.multiply.com/market/item/1890), sobre o acordo militar com os EUA, assinado à revelia do Povo Brasileiro, pelo ministro Joban, recentemente, certamente a mando de Lulla e Dilma, da qual será ministro da Defesa, inconteste.

Dpois vão lá na urna e cliquem em Dilma, sem que achem que é a mesma coisa que Serra. Duvido que consigam....
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0 #2 fernando ponte 20-10-2010 15:20
mas Collor não está com Dilma?
as analogias históricas precisam ser melhor qualificadas.
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0 #1 Luciana Roberto 19-10-2010 08:40
O Wladimir fez a comparação que desde o primeiro turno estava me assombrando. Como esta campanha lembra a disputa entre Collor e Lula! Aquela em que se dizia que o Lula confiscaria a poupança do povo, o que o Collor fez assim que assumiu, quebrando a economia e enfartando grande parte da população. O que me espanta é ver que de fato o povo não tem memória e é facilmente manipulável. Estamos vivendo uma época em que não escolhemos o Melhor candidato, mas o Menos pior. Infelizmente.
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