Serra e a política do absurdo

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Apesar de tudo, ainda há gente na esquerda que supõe não existir diferença substancial entre Dilma e Serra. Por quê? Porque ambos supostamente merecem a confiança do sistema capitalista, ambos se proporiam a servir a tal sistema com presteza. Além disso, mesmo sem apontarem a fonte, há quem afirme que Dilma teria sido alvo das maiores contribuições financeiras para sua campanha.

 

O trágico nesse raciocínio é que ele já foi empregado no passado, com resultados históricos que alguns parecem haver esquecido. Os comunistas alemães dos anos 30 também não enxergavam diferenças entre os social-democratas e os nacional-socialistas. Ambos mereceriam a confiança do sistema capitalista, estariam propensos a servir a tal sistema, e os social-democratas seriam os principais alvos das contribuições financeiras dos capitalistas.

 

Portanto, não haveria sentido em fazer uma frente-única para opor-se à subida do nacional-socialismo, ou do nazismo, ao governo. As conseqüências desse tipo de avaliação, que permitiram a vitória de Hitler, foram terríveis não apenas para o povo alemão, mas para a humanidade.

 

Naquela época também havia correntes, entre os comunistas e outras forças da esquerda alemã, que consideravam positiva a derrota dos social-democratas e a vitória dos nazistas. Supunham que isso permitiria libertar os trabalhadores das ilusões reformistas e levá-los à luta contra o sistema capitalista. Ou seja, corporificaram na tática eleitoral daquele momento um velho pensamento das correntes anti-capitalistas, desde os anarquistas, de que quanto pior a situação dos trabalhadores e do povo, melhor para o desenvolvimento de sua luta.

 

Esse tipo de raciocínio absurdo assemelha-se às bactérias que surgiram no início da vida, há alguns bilhões de anos. Às vezes parecem extintas pela evolução. No entanto, quando menos se espera, elas voltam a emergir, em especial nos momentos em que a imunidade cai. O que parece ser uma característica da situação econômica, social e política do Brasil da atualidade. Situação não prevista nos manuais doutrinários, e com baixa imunidade pela ausência de grandes mobilizações sociais e por falta de um debate político mais intenso e profundo.

 

Portanto, não é original a sugestão de que, na hipótese de José Serra ser eleito presidente, as centrais sindicais e estudantis se veriam livres de amarras, os sindicatos abandonariam seu comportamento burocrático e governista e ganhariam as ruas em defesa dos direitos dos trabalhadores e na luta contra o sistema capitalista. A vitória de Serra possibilitaria aos movimentos sociais saírem da imobilidade política em que supostamente o governo Lula os teria jogado.

 

No caso da vitória de Serra, esse raciocínio obtuso também acredita que a imensa legião de militantes da esquerda convencional ver-se-á desempregada, o que a tornaria insatisfeita e propensa a procurar os trabalhadores, os estudantes, o povo em geral. As praças e as ruas seriam conquistadas em nome de uma cerrada oposição ao governo direitista de José Serra.

 

O núcleo desse pensamento estapafúrdio reside naquela suposição de que não haveria diferença entre a social-democracia e o nacional-socialismo, entre o governo Lula e o governo FHC, ou entre Dilma e Serra. Para seus adeptos, a social-democracia, o governo Lula e Dilma seriam a direita travestida de esquerda. No governo Lula, a burguesia teria gozado de vantagens, privilégios e tranqüilidade, porque as centrais sindicais e estudantis e uma massa de miseráveis teriam sido cooptados a troco de migalhas.

 

Portanto, este tipo de direita travestida de esquerda seria mais prejudicial à causa da libertação dos explorados e oprimidos do que a direita desnudada. Esta, que pode ser representada tanto pelo nacional-socialismo quanto pelo governo FHC e por Serra, não teria disfarces. O que permitiria a mobilização dos trabalhadores e do povo.

 

Assim, como supostamente temos diante de nós, nesta campanha presidencial, direita versus direita, caberia escolher o candidato taticamente preferível para mobilizar os trabalhadores e o povo contra o sistema capitalista. Ou seja, a direita desnudada, Serra.

 

Na Alemanha dos anos 30, esse tipo de raciocínio levou à escolha do nacional-socialismo e de Hitler, da direita desnudada. O pior, segundo a política do absurdo, ofereceria as melhores condições para a luta. No Brasil nós também tivemos a ditadura militar, em 1964. Em ambos os casos, não se conheceu nada pior em termos de direita desnudada. E, em ambos os casos, não se conheceu nada pior para a luta dos trabalhadores e do povo, até mesmo para a luta por suas reivindicações imediatas, quanto mais para a luta contra o sistema capitalista.

 

Um dos aspectos perniciosos da direita desnudada representada pelo governo FHC foi o baixo nível de mobilização social, acompanhado sempre de um empenho constante em criminalizar os movimentos populares e democráticos, em especial o MST. Supor que a direita desnudada representada por Serra não se empenhará no mesmo sentido é um erro primário e grosseiro.

 

Portanto, mesmo que Lula e Dilma pudessem ser classificados como direita travestida de esquerda, e eu aceitasse a veracidade de tal classificação, não teria dúvida alguma em rejeitar Serra. Para mim, pior é pior em todos os sentidos.

 

Serra representa um retorno ao desastre FHC. Embora faça um esforço brutal para esconder suas verdadeiras intenções, sua natureza reacionária sobe à tona toda vez que se refere à política externa, às privatizações e a seus pretensos valores morais. Ele voltou a demonstrar, no governo de São Paulo, sua intenção de criminalizar os movimentos sociais. E a idéia do quanto pior melhor tem sido um desastre para a história da luta dos trabalhadores, tanto no Brasil quanto no mundo.

 

Em conseqüência, olhando em perspectiva, o candidato taticamente preferível, mesmo para aqueles que pretendem mobilizar, desde já, os trabalhadores e o povo contra o sistema capitalista, é o apontado por Lula. Só intelectual desligado da realidade pode achar que o povo foi cooptado por migalhas, e que a melhoria da situação econômica de alguns milhões de brasileiros não terá efeitos em sua luta futura.

 

A continuidade das políticas econômicas e sociais do governo Lula, aumentando a participação dos trabalhadores assalariados na força de trabalho e elevando o padrão de vida dos mais pobres, é a garantia de que as lutas futuras partirão de patamares mais elevados. Só por isso, e sem estar ameaçado de ficar desempregado, meu voto será Dilma.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #9 Serra e a Política do Absurdovaleria mauricio 17-10-2010 16:15
Companheiro
Se fossemos analisar os acontecimentos históricos,você tem uma certa razão.
O grande problema é,prever o futuro incerto à que espera a Nação.Talvez fosse melhor a Direita travestida de esquerda mas,não sabemos os acordos que fará e nem com quem!A incerteza do que fará diante de
problemas que o governo Lula, vem adiando durante oito anos como,reforma agrária,mehorias no Sistema de Saúde,melhorias no Sistema Educacional e Defesa dos nossos bens como;a Floresta Amazônica,reservas hambiêntais e outros.
Caso fosse Serra,poderíamos voltar ao velho problema da Privatização de nossos bens e inclusive da inflação(agora dis-
farçada)maior.
Talvez então,não seja o momento de arriscar.Vamos deixar que as coisas fiquem como estão e manter o PT, mais alguns anos no poder por falta de alternativa.
farçad
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0 #8 \"quanto pior melhor da análise\". Um abluiz- sc 16-10-2010 18:25
Inoxidável Vlademir! Cada dia está mais difícil ler um texto teu. É a demonstração clara, do quanto pior melhor, em matéria de interpretação da realidade. A sua comparação com a Alemanha é de um esforço hermeneutico pós-moderno incrível. Que mágica é essa mister W? A suposição: de que as lutas partirão de um patamar mais elevado, está plenamente visível no nível de debate político entre Serra e Dilma, na profundidade dos programas de ambos, e nas assuntos mas estapafúrdios que fazem massas de eleitores migrar de um para outro com ataques tão superficiais e reacionários. A melhora econômica é apenas uma esfera da complexidade humana. Num mundo dominado pelo fetiche da mercadoria, e com o impulso que o governo lula tem dado pra ele, a melhora econômica significou muito mais uma regressão da consciência social do outra coisa. As personificações do capital tiveram um impulso qualitativo e quantitativo com o governo Lula e a máquina burocrática do PT. Teu reducionismo interpretativo sim, é o quanto pior melhor para o capital. Você é o quanto pior melhor na análise. É o reflexo do nível de debate a que está submetida esse engodo eleitoral. abra o olho vivente!
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0 #7 VOTO NULO E DE DENÚNCIARINALDO OLIVEIRA 16-10-2010 15:50
O autor, como sempre, escreve de forma arrogante, como se fosse o detentor da verdade, e os que pensam diferentes são alienados, mentirosos, desligados da realidade,etc.

Respeito o ponto de vista do autor e de vários outros que dizem que há diferença qualitativa entre Dilma e Serra. Não vejo diferença qualitativa nenhuma: ambos os candidatos e seus partidos estão à serviço do grande capital, cada um destruindo o país e o povo do jeito que mais sabem fazer. Não há o "menos ruim" e nem o "mal menor" nesse 2° turno. O voto nulo é de denúncia do impasse a que chegamos, muito alimentado por esses partidos que ora estão em disputa.
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0 #6 Sou do Psol, agora voto em DilmaMarisa Menezes Pinto 16-10-2010 08:55
Caro Wladimir,
nos conhecemos desde os governos do PT em Angra dos Reis, quando vc pessoalmente se empenhava em ajudar a construir a hegemonia da "Articulação" do PT, naquela realidade que, enquanto era provinciana, era mais acolhedora das diferenças. O tempo passou, o PT de Angra nunca mais se ergueu, produzindo uma baixa no município pelos erros semelhantes aos cometidos por LULA e os demais. Hoje, vemos a história se repetir, em escala muito maior. Há o risco do Brasil colher os resultados da capitulação do PT. Rebaixou-se o debate político, a ponto de Dilma fazer concessões sobre temas importantes para a esquerda, como o aborto, acordos pela direita com o PP de Dornelles e com a política de juros exorbitantes, impostos pelo núcleo político do capital, Meirelles, etc. Mas apesar disso, reconheço a petinência dos argumentos que levantas e com uma certo gosto amargo, levanto minha voz a dizer: o pior é Serra, sim. Vamos com Dilma, pro Brasil continuar avançando! O Psol continuará fazendo uma oposição propositiva, pela esquerda, mas não faltará ao povo brasileiro neste momento crucial!!
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0 #5 Esperteza e faláciaElson 15-10-2010 14:44
Interessante e safada comparação com partidos políticos que se enfrentaram na Alemanha de 1930, só para brandir o fantasma de Hitler, e subliminarmente, ou nem tanto, comparar Serra a ele.
Não há termos de comparação, evidentemente. O governo nazista ainda era uma incógnita, o que não acontece em nossa realidade, principalmente como gostam de comparar os petistas, com o governo anterior.
Bem, todo o artigo só nos querem vender o peixe mal cheiroso sim direita travestida de esquerda, e não passa de uma grande chantagem política. O governo Lula não passou da superfício coméstica das políticas sociais, tendo descoberto o Bolsa-Família como grande moeda eleitoral, enquanto gostosamente e como novo-rico serviu fielmente ao capital.
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0 #4 Serra e a politica do absurdorosalva alves portella 15-10-2010 12:27
Muito bom artigo separando o joio do trigo....
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0 #3 Meu voto é SERRABatista 15-10-2010 09:34
E o meu voto, por muito mais que isso é SERRA.

Se o Brasil está tão bom quanto dizem porque o Lula e sua Candidata não mostram o que fizeram, se fizeram tanto quanto dizem porque usam todo o horário gratuito para propaganda política falando de FHC.

Porque não esquecem o FHC que saiu do Governo a 8 anos e começam a mostrar o que fizeram para melhorar o Brasil num todo, o que fizeram de impacto nacional, para melhorar o Brasil beneficiando a sociedade em geral.

Porque não mostram as maravilhosas estradas federais tanto as rodovias quanto as ferrovias, os aeroportos nacionais, os portos, os juros mais altos do mundo, a carga tributária mais alta do mundo, o fator previdenciário que foi criado por FHC e que agora o Lula teve em suas mãos a chance de livrar os aposentados desse massacre e não o fez, o achatamento dos benefícios dos aposentados que no Governo FHC foi de 18% e no de Lula de 43%, a maravilhosa Saúde pública que assola o país, a segurança nacional, a educação, o transporte público, falam-se tanto em emprego e o desemprego está ai, prometeram acabar com ele e não o fizeram.

Resumindo, se eles ocupam todo o tempo falando em FHC é porque não te o que mostrar, estão no Governo a 8 anos e não tem nada de si para mostrar, destarte, vamos falar de FHC.
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0 #2 Serra e a política do absurdoWagner Bezerra 15-10-2010 08:29
Uma vez PT...PT até morrer...
Como diz o texto:
"Só intelectual desligado da realidade pode achar que o povo foi cooptado por migalhas, e que a melhoria da situação econômica de alguns milhões de brasileiros não terá efeitos em sua luta futura."
Acho muito clichê achar que o "candidato taticamente preferível, mesmo para aqueles que pretendem mobilizar, desde já, os trabalhadores e o povo contra o sistema capitalista, é o apontado por Lula."
Acharia mais coerente um texto que falasse que existe sujeira nos dois lados (se a Veja só fala mal do PT, outros meios fazem o contrário...só pra equilibrar).
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0 #1 Diálogo e debateGuilherme 15-10-2010 08:24
Este artigo permite um excelente diálogo e debate com "Entre seis ou meia dúzia: os dilemas da esquerda brasileira" escrito por Justino de Sousa Junior e Antonio Julio de Menezes Neto. São duas análises muito coerentes com o quadro político atual, e que nos levam a pensar de modo qualificado as lutas que temos que tocar independente de quem venha a ser eleito.
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