Entre seis ou meia dúzia: os dilemas da esquerda brasileira

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Presume-se construir um caráter progressista em torno de Dilma através do artifício de mostrar o conservadorismo reacionário de Serra e de acusar Marina Silva de ter se pintado de "azul-tucano". Tal como no costume antigo, os marqueteiros de Dilma usam a carantonha de seu adversário para espantar os espíritos maus. Abriremos um parêntese para deixar claro que não vamos nos ocupar, por ora, de Serra e de sua gente, pois o consideramos o que de pior temos no quadro político brasileiro, representantes de uma direita retrógrada e de triste lembrança para os brasileiros. Assim, centraremos no "outro lado".

 

Se buscarmos parâmetro para verificar quem representa quem nesse quadro eleitoral através do financiamento das campanhas, verificaremos que, "nos últimos sete meses, o PT arrecadou R$ 44 milhões, enquanto a coligação PSDB, DEM, PPS, PMN e PT do B arrecadou R$ 19,4 milhões" (Brasil de Fato, 26/08-01/09). Serão os pobres que estão financiando a campanha de Dilma?

 

Lembremos que o governo Lula foi o governo do "valerioduto"; da reforma da previdência; que colocou Meirelles no Banco Central e o "blindou", apesar das inúmeras denúncias de crime contra o sistema financeiro que o perseguiam; que contrariou setores progressistas ao favorecer o agronegócio, inclusive beneficiando as práticas produtivas que utilizam abusivamente agrotóxicos (o governo destinará 120 bilhões ao agronegócio em 2010/2011 e cerca de 20 bilhões para a agricultura camponesa); que elevou a produção do superávit primário ao longo do seu mandato para agradar ao FMI e à banca internacional; que recusou a avançar em medidas como a auditoria da dívida, o fim da DRU (a derrubada da CPMF passou a contragosto); elevação do percentual do PIB investido na educação (permaneceu praticamente o mesmo da era FHC); derrubada dos vetos de FHC ao Plano Nacional de Educação de 2001; regulamentação do Imposto sobre as Grandes Fortunas, e muitas outras.

 

Por outro lado, sobre aquele que seria o traço progressista distintivo do governo Lula, os números mostram que a "inclusão" dos pobres, ou as políticas assistencialistas, focalizadas, de "combate" (superficial) da pobreza, não afetam em nada a dinâmica da acumulação do grande capital; por isso devem ser vistas muito mais como concessões (além de irrisórias) necessárias e funcionais para a manutenção da ordem cada vez mais favorável ao grande capital.

 

Além de tudo, e o mais grave, Lula tem sido um dos maiores responsáveis pela desarticulação da esquerda e de qualquer projeto social anticapitalista, pela desmobilização, despolitização e cooptação dos movimentos sociais (vejam-se os casos da CUT, UNE etc.).

 

Para se ter uma idéia do favorecimento ao grande capital como contraface do "auxílio" à pobreza do atual governo, "só no primeiro mandato de Lula, os empresários tiveram um aumento de 400% dos seus lucros. Já o salário mínimo teve um aumento de 57% nesses oito anos" (Brasil de Fato 30/07). Por sua vez, na era FHC os bancos lucraram R$ 34,3 bilhões, enquanto que nos dois mandatos de Lula a previsão é de algo em torno de R$ 170 bilhões, ou seja, cinco vezes mais (idem).

 

As prioridades do governo Lula podem ser vistas na proporção em que se distribuem os gastos sociais e os gastos com pagamento da dívida pública. Segundo dados do IPEA, nos últimos sete anos, o governo gastou 1,27 trilhão de reais com juros. "Os gastos com juros (apenas com o pagamento dos juros), portanto, superam em oito vezes o que foi aplicado em educação e em 10 vezes os investimentos para o país crescer". Entre 2000 e 2007, o total de gastos da União com saúde, educação e investimento correspondeu a somente 43,8% do total das despesas com juros.

 

Em 2009, segundo a PNAD, o Brasil possuía 14,5 milhões de analfabetos e mais da metade dos domicílios não possuíam rede de esgoto. No entanto, o governo destinou 35,57% de seus recursos para amortizar a dívida contra 2,88% para a educação e 0,08% para saneamento. Seria aconselhável, também, darmos uma volta pelas periferias de nossas cidades e vermos a vergonha de nossas favelas e sabermos que o governo destinou 0,01% para habitação (Brasil de fato, 04/10/2010).

 

No ensino superior, criou o PROUNI, talvez inspirado num dos pais do neoliberalismo Milton Friedman, que propunha que o Estado pagasse bolsas para alunos pobres em escolas privadas. E fez muito marketing nos dois últimos anos com o Reuni, quando passou os outros seis sem maiores investimentos. Tanto que o governo FHC, de tristíssima lembrança para a educação, conseguiu abrir mais vagas para alunos em seus oito anos de governo do que Lula em seus oito (ver INEP, Censo da Educação Superior).

 

Ao tempo em que se comemora a diminuição da pobreza no Brasil, cabe observar que a desigualdade entre renda do trabalho e os ganhos de propriedade no Brasil são maiores hoje do que no fim da década de 1980. O principal motor a acelerar essa disparidade são as altas taxas de juros que levam mais água aos moinhos do capital. O ex-presidente do IPEA, Marcio Pochmann, afirma que esses dados são incompatíveis com um país civilizado. "Nas nações com menor desigualdade, a renda do trabalho varia entre 60% e 70% do PIB e, conseqüentemente, a remuneração da propriedade fica entre 30% e 40%" (http://www.brasildefato.com.br/node/2239).

 

A diminuição da desigualdade social é resultado basicamente do Programa Bolsa Família (1% dos recursos da União), cujo investimento anual não atinge 10% dos recursos destinados ao pagamento apenas dos juros da dívida pública (que foi duplicada no governo Lula e já beira os 2 trilhões de reais). Estima-se que este ano o pagamento de juros ficará em torno dos R$ 160 bilhões, quase 14 vezes mais do que o consumido pelo Bolsa Família, que atende mais de 11 milhões de famílias - todos sabem a quem beneficiam esses juros! Além do mais, a "diminuição da desigualdade" é medida entre maiores e menores salários e não entre a renda do capital e a renda do trabalho.

 

Antes de nos contentarmos com o fato de que os outrora miseráveis foram elevados à categoria de pobres - ao mesmo tempo em que ajudam a consolidar o atual estado de coisas por gratidão aos benefícios recebidos e cruzam os braços, tornando-se uma massa dócil -, seria interessante observar como funciona o mecanismo sócio-econômico nas suas diversas facetas.

 

Descartada qualquer possibilidade de cogitação de Serra e sua turma reacionária (vide o seu vice), esse texto não pretende demover ninguém do voto na candidata Dilma, até porque na disputa com o tucano ela parece ser uma opção melhor. Sua pretensão é qualificar o debate, questionar as falácias que envolvem os argumentos que defendem a candidatura Dilma e afirmar que, em última instância, as duas candidaturas se encontram nos limites estreitos dos interesses do grande capital.

 

Trata-se, para os trabalhadores, para os "de baixo", de escolher, dentre os feitores, aquele que lhes pareça menos malvado e o chicote mais brando.

 

Justino de Sousa Junior é doutor em Educação e professor na UFC;

 

Antonio Julio de Menezes Neto é doutor em Educação e professor na UFMG.

 

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Comentários   

0 #17 Qual esquerda?Chico Xarão 03-11-2010 21:43
Profssor Justino e Antonio. O artigo não aborda a saída dessa situação. Como chegamos a ela eu sei: a opção por uma estratégia reformista. Mas qual é a saida? Pelos votos do PSTU, PSOL, PCB e PCO bater no PT e lamentar que Lula é um traidor da classe parece, ao menos, por hora não ter surtido efeito. Então arrisco dizer que o problema não esta tanto com a estratégia de Lula/Dilma/maioria do PT mas mais com a estratégia ou falta dela da esquerda socialista. No meu modo de ver se a esquerda socialista apresentasse um candidato único com um programa socialista teria se saido melhor. Nesse contexto faz sentido demarcar com várias políticas do governo Lula. Fora disso é chorar sobre leite derramado.
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0 #16 6 ou meia duziaivete frança 23-10-2010 16:30
a questão não é tão simples assim não, meus senhores. Caso fossem tão iguais , por q do ointeresse do grande capital em serra?
vide trecho abaixo Mídia imperialista internacional prega voto em Serra
Renomados veículos da imprensa internacional, porta-vozes do capital financeiro, dos grandes monopólios e oligopólios econômicos e dos interesses estratégicos do imperialismo, publicaram reportagens, editoriais e colunas nos últimos dias sobre a eleição presidencial brasileira, pregando abertamente o voto no candidato do PSDB, José Serra
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0 #15 O mais do mesmoJudson Clayton Maciel 22-10-2010 01:19
Excelente artigo. Vale lembrar também que 'nunca antes na história desse país', os banqueiros lucraram tanto como no governo Lula: 170 bilhões de Reais. Já o salário mínimo, do fim da era FHC, para o fim da era Lula, teve um reajuste de míseros 310,00 reais. Eles se parecem mais do que imaginam. Entre a merda e a bosta, só muda a mosca! VOTO NULO!
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0 #14 EncruzilhadaAroldo Magno de Oliveira 21-10-2010 17:55
O fato é que estamos em uma boa encruzilhada. As duas candidaturas do 2º turno já foram forjadas há muito, nenhuma novidade. Creio que o que há de mais urgente a fazer é acelerar a formação da frente permanente de esquerda revolucionária e a retomada de uma luta sem tréguas dos movimentos sociais populares. Obviamente, há bons quadros que sabem bem o que fazer com a nossa podre mídia de massa brasileira, sobretudo a TV aberta.
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0 #13 Conclusão incompreensívelBenedito Ferreira 21-10-2010 15:18
Excelente argumentação, mas acaba ficando incompreensível a conclusão.
Após mostrar que o governo lula foi de direita travestida de esquerda, como ainda cogitar o voto em Dilma???
Os autores rejeitam por princípio o voto nulo??
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0 #12 seis ou meia dúzia?José Roberto Franco Reis 19-10-2010 14:42
Entre seis ou meia dúzia? A ultra-esquerda no Brasil não aprende! O governo Lula é entreguista, serve tanto ao capital como o anterior do príncipe da sociologia , deu algumas migalhas à população que passou a comprar nas Casas Bahia e por isso é popular, cooptou lideranças sindicais e de esquerda (transformismo), bem como anestesiou os movimentos sociais, que abandonaram a luta em troca de benesses e parcas verbas públicas e por aí vai.... Por isso essa esquerda teve, nesta eleição, menos votos somados que o Tiririca! Em verdade o que se passa é que a história nessa leitura não tem contradições e o processo civilizatório do socialismo é uma mera questão de tempo, melhor dizendo, de ação voluntariosa e de governos que não capitulem e não traiam os interesses populares e as causas de esquerda. Em resumo, não tem luta de classes na história, porquanto se trata apenas de levar a frente o projeto de transformação social tal como se apresenta no velho e surrado manual do esquerdismo doença infantil.... Aqui, não existe bancada ruralista nem polícia pra dar porrada no trabalhador rural, não existe mídia poderosa e defensora do status quo, burguesia industrial, banqueiros e um sistema financeiro dispostos a tudo em defesa dos seus milhões e do seu projeto de poder. E mais, a sociedade civil, esse ente indiviso e progressista, se encontra maduro para o socialismo, não defende valores conservadoras ou mesmo reacionários. É o velho trem da história que caminha rumos às planícies ensolaradas do socialismo. Nesse caso, o Governo Lula (seis ou meia dúzia?) é que não esteve à altura de suas tarefas históricas, sempre por capitulação ou traição. O problema é que as pessoas vivem suas vidas de dor, sofrimento, alegria, luta, etc., como adverte o grande historiador inglês E.P. Thompson, durante o trajeto do trem e não é possível esperar a promessa da planície ensolarada pra receber o seu quinhão em uma humanidade finalmente reencontrada. Por isso o Zé povinho que não é bobo, se sente com direito, tal como os professores universitários, de consumir certos bens nas Casas Bahia, de se encantar porque tem água e luz em casa e aí cisma de votar no governo entreguista, que só serve ao capital, deu migalhas à população, cooptou lideranças, anestesiou os movimentos socais e blá, blá, blá...Só falta o Serra voltar para as coisas retornarem ao seu devido lugar...(nesse caso não tem mais direita travestida de esquerda – seis ou meia dúzia?- e o movimento popular irromperá em alegria revolucionária) . É o trem feliz da história (sem contradição e pleno de teleologia...)
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0 #11 entre seis ou meia duzia...edi 17-10-2010 23:01
O grande drama da esquerda brasileira é que a mesma, nestes últimos trinta anos só jogou suas fichas na construção do petê e da consolidação da liderança de lula. Agora que a esquerda oficial deu no que deu, ficamos vendo os defeitos de todo o processo político de então. Quais são as alternativas? O pessol é fruto da mesma gênese do tipo "nós é que somos os donos da verdade"; não vejo nenhum sinal de que se esteja construindo algum instrumento de participação popular. E caso isso não seja levado a sério, daqui a outros cinquenta anos estaremos novamente criticando os "líderes" de ocasião.
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0 #10 Lúcido artigoDanilo Enrico Martuscelli 17-10-2010 20:49
Caros Justino e Antonio, o lúcido artigo que escreveram cumpre plenamente com o objetivo de "qualificar o debate, questionar as falácias que envolvem os argumentos que defendem a candidatura Dilma e afirmar que, em última instância, as duas candidaturas se encontram nos limites estreitos dos interesses do grande capital."
No segundo turno, boa parte da intelectualidade de esquerda preferiu ocultar o caráter conservador da candidatura Dilma, levando a sugerir que o governo Lula foi impecável ou vir a sugerir que dentro dos limites estruturais do capitalismo brasileiro, Lula fez o máximo possível.
Combater a aliança demo-tucana é uma questão de princípio para todo socialista, mas não podemos assinar um cheque em branco para a candidatura Dilma-Temer.

Saudações
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0 #9 Dilma, por falta de opçãoReikainosuke Nekomata 17-10-2010 12:39
O comentarista anterior que me perdoe, mas acho que não fez uma leitura mais atenta do texto. Os dois professores não fazem apologia do Serra, muito pelo contrário, recomenda votar na Dilma. Entretanto não podemos, por honestidade política, deixar de perceber como a gestão Lula foi prejudicial à classe trabalhadora e favorável ao capital. Não houve nenhuma concessão real aos desfavorecidos, pois o sistema financeiro está muito bem, obrigado. De uma certa forma foi até mais prejudicial aos trabalhadores do que FHC, pois ao angariar simpatias por medidas populistas, conseguiu tomar de assalto direitos conquistados a duras penas.

Confrontado com Serra, com certeza Dilma é a melhor opção, para afastar a era das trevas tucana. Mas não se deve propagar ilusões, ambas as candidaturas visam manter a hegemonia dos agentes do capital.
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0 #8 VOTO NULO E DE DENÚNCIARINALDO MARTINS 16-10-2010 15:25
O texto está muito explanativo. Não há diferença alguma entre Serra e Dilma. Ambos servem ao grande Capital, cada um com sua forma específica de destruir o país e o povo. Só divirjo do final do texto, que diz que votar em Dilma é uma opção melhor. Infelizmente, com essa visão pragmática, do suposto "mal menor", vários setores ditos de esquerda estão declarando voto a Dilma, quando estão perdendo a oportunidade conjuntural de DENUNCIAR o impasse a que chegou o país justamente criado por essa política à serviço dos dominantes perpetuada pelos partidos que ora estão em disputa.
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