Informação e qualidade

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Vivemos uma época de muita informação. Este fato é visto como um privilégio dos que atualmente vivem. Para onde quer que olhemos há informação em forma, poderíamos dizer, de chuva, de torrentes. Entretanto, há muita informação e poucas idéias. O pensamento gerador de idéias encolheu. As pessoas optaram por usar idéias prontas de outros.

 

É muito simples estar a par do que se passa e do que se pensa em todo o mundo dando uma olhadela na Internet, na TV, nas publicações da chamada grande mídia, no celular ou até, ainda, ouvindo o rádio.

 

Nem sempre, evidentemente, foi assim. Para nos atermos apenas ao pensamento ocidental, Sócrates teve relativamente muito poucos ouvintes, além de seus discípulos Xenofonte e Platão. É notável que Sócrates não deixou sequer uma página escrita, tendo suas idéias e pensamentos sido revelados por obras de seus alunos. O mesmo se deu com os latinos Epicuro, Lucrécio, Cícero e Sêneca, que também tiveram poucos ouvintes, mas deixaram obras registradas ricas em idéias e pensamentos originais e que até hoje nos servem de referência. Os iluministas franceses tiveram mais influência, já que suas idéias registradas introduziram importantes alterações nas relações políticas e sociais que até hoje perduram e fazem parte de qualquer biblioteca de referência e qualidade.

 

Na atualidade, todavia, o cenário é outro. Não que haja grandes pensadores. Há, ao contrário, poucas idéias novas ou originais, mas há muita informação dispersa, superficial e redundante. Um ambiente deste tipo não contribui para a formação do pensamento. O mais comum hoje em dia é as pessoas adotarem idéias dos chamados "expoentes" da mídia e passarem a repeti-las como se novas e originais fossem.

 

Nos países centrais, onde o nível cultural da população está acima da média global, há uma espécie de fiscalização por parte dos leitores, telespectadores ou ouvintes sobre aquilo que é veiculado pela grande mídia. Este poder tem sido capaz de evitar que interesses comerciais e de grupos possam desviar os meios de comunicação de sua tarefa de informar os fatos. No caso de países de desenvolvimento sócio-cultural retardado e cuja população, em sua maioria, tem pouca ou nenhuma capacidade de avaliação, como o Brasil e outros da chamada periferia do capitalismo, nos quais a grande mídia comercial é sustentada por anunciantes, é somente natural que esta, em vez de ser imparcial e informativa, adote posições que representam o interesse de seus mantenedores, mesmo que volta e meia isto implique em atropelar a verdade e os fatos.

 

Este é, portanto, o maior risco para quem dá crédito à grande mídia nos países em que ela está a salvo da crítica: ser vítima da doença da credulidade ou ter sua cabeça feita por interesses menores e de minorias. Há, no Brasil, exemplos claros de informação comprometida com interesses de grupos. Há o caso de uma revista semanal de boa tiragem que tem mais páginas dedicadas à propaganda do que às notícias. Uma emissora de TV, durante seu telejornal, no horário nobre, dedica também mais tempo aos intervalos comerciais do que às notícias. Nosso cérebro tem o lobo frontal dedicado ao raciocínio, à análise e ao pensamento. A falta de uso de tais faculdades resultará, com o tempo, numa atrofia dessa área de nosso cérebro. Não permita que isto ocorra com o seu cérebro! Um cérebro cujo lobo frontal está atrofiado é terreno fértil para a implantação de idéias alheias não avaliadas e sem qualquer valor e qualidade.

 

Não temos hoje Sócrates, Platões e Sênecas na grande mídia comercial, mesmo porque se vivos fossem não se prestariam, por certo, a essa tarefa obscura de serem ferramentas do poder de minorias.

 

Como, então, diferenciar - na mídia - a informação de qualidade da informação desqualificada? É simples: a informação de qualidade assume compromisso com a verdade e é facilmente comprovável. Cuida do social, do conjunto das pessoas, das condições de trabalho, do salário, da habitação, da educação, da saúde e da segurança  públicas.

 

A informação desqualificada é parcial, pessoal e se posiciona a favor do interesse de grupos ou de minorias. Cuida do lucro, do investimento privado, da taxa de câmbio, dos juros, do rendimento de aplicações financeiras, da especulação disfarçada e da assistência governamental ao interesse de empresas e empresários sob a desculpa de "gerar empregos". Embutido na "geração de empregos" está, é claro, o lucro do empresário. Contudo, a informação desqualificada disfarça com competência suas posições egoístas e menores.

 

Em nossa avaliação faz-se, portanto, míster usar nosso lobo cerebral frontal para diferenciar, mesmo nos dias de hoje, um Platão de um Nero, um Descartes de um Luís XVI e um sábio de um proxeneta.

 

Argemiro Pertence é engenheiro, foi vice-presidente da AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás) e é comentarista internacional do programa Faixa Livre (Rádio Bandeirantes 1360 AM, Rio de Janeiro).

 

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