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Vandré na Globo News Imprimir E-mail
Escrito por Duarte Pereira   
Sexta, 01 de Outubro de 2010
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A entrevista concedida pelo compositor e cantor Geraldo Vandré ao jornalista Geneton Moraes Neto, transmitida pela Globo News no último dia 25 de setembro, continua repercutindo, o que revela o interesse que a vida e a obra do grande artista da música popular brasileira ainda despertam.

 

Infelizmente, a entrevista foi superficial e enviesada para o sensacionalismo. Passou a impressão de que o principal objetivo era arrancar de Vandré que não teria sido torturado fisicamente e que tudo que fez, após voltar do exílio em 1973, foi voluntário. Como se não existisse tortura psicológica e Vandré não se encontrasse em extremo isolamento, com grandes dificuldades financeiras e mentalmente perturbado. Vandré, pelo que se comenta, sempre foi uma pessoa de trato difícil, com poucos amigos e com alguma doença mental – esquizofrenia na opinião de alguns, ou bipolaridade na de outros. Perdido no exílio e com dificuldades de sobrevivência, buscou um acordo para poder retornar ao Brasil.

 

Para isso, fez na ocasião e repete até hoje declarações ambíguas. Como afirmar que nunca foi antimilitarista, argumentando que toda nação precisa de forças armadas, mas que também nunca foi militarista; ou insistir que nunca pertenceu a nenhum partido político, nem a nenhum grupo de ação armada, o que é verdade, mas sem mencionar sua posição geral de oposição à ditadura militar e de simpatia com as lutas operárias, camponesas e estudantis; ou ainda reiterar controvertidos elogios à Força Aérea Brasileira, os quais, como detalhou na entrevista, tendo lido inclusive a letra de famosa canção dedicada à FAB, não passam de uma exaltação à aviação em geral e à "loucura humana de voar".

 

Vandré lembrou que, de volta ao Brasil em 1973, ainda no governo Médici, tentou retomar a carreira, informação que o entrevistador não se preocupou em aprofundar. Mas, diante das pressões militares e policiais e das manobras de emissoras e gravadoras – as quais não é difícil imaginar para quem viveu e resistiu no período –, preferiu, para não ser forçado a fazer concessões indignas, silenciar. Insistiu que, desde então, não tem mais nada a ver com o Brasil que encontrou, "massificado" culturalmente e marcado por pobreza ainda maior do que na época em que ele compunha e cantava. Recusou-se a enviar mensagem para a juventude atual, alegando que não teria nada a dizer para ela, ou a opinar sobre as tendências contemporâneas da música brasileira, por reconhecer que não as acompanha. Admitiu, com humildade, que foi ultrapassado pelos acontecimentos.

 

Vandré fez elogios ao talento e à produtividade de Chico Buarque e uma crítica concisa apenas aos tropicalistas, lembrando que teria dito a Gilberto Gil no passado (e fez questão de repetir na entrevista) que não faz "qualquer coisa" para obter sucesso. Manifestou também uma opinião bastante crítica e incisiva sobre a anistia, que, segundo ele, pressupõe que o anistiado reconheça explícita ou implicitamente sua culpa, o que ele nunca admitiu – opinião que, mais uma vez, o entrevistador não procurou esclarecer melhor. Vandré disse que de nada se arrepende e tudo que fez foi por vontade própria.

 

O inesquecível compositor e intérprete intercalou, portanto, momentos de grande lucidez e memória com outros de silêncio ou dificuldade de expressão. Com tocante dignidade, não escondeu sua solidão, nem sua tristeza.

 

A entrevista chegou ao fim sem cumprir o prometido. Ao contrário do alarde da Globo News, não elucidou satisfatoriamente a trajetória pessoal e artística de Vandré, nem as razões de seu desaparecimento. Aliás, o entrevistador não procurou investigar essas razões junto a emissoras de televisão, empresas gravadoras de discos ou produtores de espetáculos musicais (apesar do protesto de Vandré, por exemplo, contra o desaparecimento das imagens de sua participação no III Festival Internacional da Canção Popular, gravadas pela Globo). O entrevistador também não procurou ouvir correntes partidárias e intelectuais de esquerda, que têm dado provas de sectarismo e falta de solidariedade com o grande artista.

 

Por que não se divulga sua obra passada? São tantas as regravações de obras de outros compositores e cantores, alguns muito menos importantes! A obra de Vandré não se resume a Disparada e a Caminhando, mencionadas repetidamente pelo entrevistador. Vai muito além, abrangendo inclusive canções de amor de comovente sensibilidade, ainda que não piegas e inseridas no contexto social da época.

 

Assisti ao documentário sobre o festival de 1967 e a outros sobre a história da Bossa Nova, de Chico Buarque, de Caetano e Maria Bethânia, de Gilberto Gil, de Rita Lee e os Mutantes, para citar alguns. Li também vários livros analíticos e biográficos sobre o período e sobre esses compositores e cantores mais destacados. É com base nessas fontes e em minhas próprias lembranças que esbocei, em outro texto, a distinção em alas da música popular e, em particular, juvenil nos primeiros anos da ditadura militar: uma ala de esquerda (representada pela música de protesto de Vandré e de um Sérgio Ricardo), a de centro (simbolizada pelo lirismo de Chico Buarque) e a de direita (liderada pela Jovem Guarda de Roberto Carlos, individualista e pretensamente apolítica, da qual iriam aproximar-se os tropicalistas).

 

Trata-se de uma diferenciação principalmente política e não estética (embora as duas dimensões não possam ser desvinculadas de modo completo, é possível distingui-las). E de uma diferenciação alusiva a um período bem restrito, anterior ao endurecimento do regime militar, que criou uma situação nova no meio artístico, e bem anterior ao gradativo retorno de muitos artistas exilados e à retomada de suas carreiras em condições menos sufocantes, o que não aconteceu com Vandré. É fácil ridicularizar a passeata contra a guitarra elétrica, tantos anos e tantos recuos depois, como faz o documentário sobre o festival de 1967, mas o problema não era a guitarra em si, mas o que ela simbolizava, como bem explica Chico de Assis no referido documentário. Erros táticos à parte, que possam ter sido cometidos, o problema essencial era e é: estava ou não tomando corpo uma invasão cultural e desfiguradora dos Estados Unidos em nosso país e na América Latina em geral?

 

Alguns destacam que a música de Vandré desapareceu do cenário atual e pretendem enxergar nesse fato uma suposta confirmação de sua precária qualidade. Eis uma boa pesquisa a ser feita. Vários fatores contribuíram para essa situação, empobrecedora para todos nós. Um deles é a própria mudança na situação política e cultural do país, que tirou a atualidade militante de algumas composições e interpretações de Vandré. Mas é interessante observar que, sempre que reaparece uma conjuntura de maior combatividade do movimento popular, com passeatas e entreveros mais duros, algumas das canções de Vandré, impregnadas de espírito de luta e mobilização, voltam de repente a ser entoadas.

 

Outros fatores para o relativo esquecimento da música de Vandré têm sido o boicote dos donos e controladores da produção cultural e a omissão de intérpretes progressistas. Se Vandré está desestruturado e arredio, por que outros intérpretes não regravam, nem reapresentam suas belas canções, que ainda inspiram e emocionam a quem não abandonou as idéias de transformação social e os valores de abnegação e solidariedade na luta, que perpassam essas canções?

 

Por último e mais importante: independentemente da situação atual de Vandré e de suas possíveis explicações, é indiscutível que ele, apesar de todos os seus defeitos e de sua trajetória trágica, prestou uma contribuição política e estética indelével no primeiro quinqüênio que se seguiu ao golpe de Estado de 1964. Merece, por isso, e sempre merecerá, nosso respeito, nossa gratidão, nossa escuta.

 

Duarte Pereira é jornalista.

 

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