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Ei, Vales! – visões do capitalismo árido Imprimir E-mail
Escrito por Wellington Emiliano de Morais   
Quarta, 29 de Setembro de 2010
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E a lenda do misticismo se faz história, história proscrita e perpétua, numa singular expressão de fatos. Se de fato, quanto menos fatos existem, mais ricas são as lendas, como explicar o singelo século XX? Período de grandes feitos perpetuado pela transição de um desenvolvimentismo nacional, desde Vargas a Juscelino Kubitschek – "entreguista" nas palavras de vários economistas, imortalizando assim o mito de economia cepalina.

 

O mundo brasileiro de então se entrega à grande monstruosidade que revelava: a construção de Brasília. O desenvolvimento industrial aflora com a instalação da Volkswagen e o plano trienal do "tar progresio" estampa-se como o mais áurea dos acontecimentos. A rodovia Rio-Bahia, que, desde o início de suas obras em 1937, se impunha como o desbravamento das terras "brabas" do interior brasileiro, possibilitando a integração e a valorização de população secularmente segregada; como afirmou a revista A rodovia em 1945: "O departamento Nacional de Estradas de Rodagem construiu há pouco o trecho Teófilo Ottoni-Rio-Jequitinhonha da Rio-Bahia que permite a comunicação por terra ao norte do país" (...). Já se vai, usando de uma linguagem comum, do Rio a Salvador de automóvel em quatro ou cinco dias. O conteúdo social e econômico dessa realização é de uma importância sem par, porquanto não significa só os interesses que se relacionam com a nossa segurança, mas significa também a nova situação de populações até então isoladas. Sob este aspecto, principalmente, é que a ligação rodoviária pela Rio-Bahia deve ser considerada.

 

Como imaginar que a construção de uma estrada para o "tar progresio" fosse marcada por tantos elementos contraditórios? De um lado, as micas de Governador Valadares, as pedras coradas de Teófilo Otoni e os mananciais de diamante do Jequitinhonha contribuindo no financiamento da rodovia, bem como garantido a ascensão de muitos "senhores" dos Vales. De outro lado, estes emergentes especuladores, com a possibilidade da valorização das terras num raio de 50 km de extensão, ladeando a rodovia, implantam a maior grilagem de terras de que já se deu nota, despojando milhares de antigos posseiros e suas famílias das terras.

 

Essa cruel conotação daquele período não só lançou posseiros na precariedade de sobrevivência, como também possibilitou a formação da propriedade privada, então desconhecida nesses rincões, desarranjando a vida de diversos povoados. Conseqüentemente, surge uma onda de ocupações das terras devolutas, com fins meramente especulativos, caracterizando a formação de propriedades de latifundiário. Este monopólio da propriedade territorial obriga o lavrador, pequeno produtor, a ceder ao fazendeiro parte do que produzia e, devido a técnicas ainda muito rudimentares, se reduziu a margem de lucro a ponto de se tornarem difíceis as suas relações com o mercado. Ademais, para manter tais relações, o lavrador se sentiu cada vez mais seduzido e pressionado às possibilidades de trabalho remunerado, oferecidas pela fazenda. A necessidade de se transformar em assalariado realiza-se à custa do antigo sistema de "cooperação vicinal".

 

Por último, dadas as limitações do mercado de trabalho local, o lavrador é empurrado a migrar, a fim de procurar melhores oportunidades nos centros de trabalho. Como revelou o estudo da professora Maria Izaura Pereira em et al. São Paulo, Inep/ Anhembi; 1957. Note-se bem que o conceito de uso da terra já começa a se metamorfosear, de posseiro passa a lavrador (agregado).

 

É nessa desestabilização de vidas, causada pela grilagem de terras nas regiões dos Gerais, que encontramos um fato um tanto insólito, e que há 55 anos, desde a sua ocorrência, ainda hoje não tem estudos pormenorizados; existe é um breve relato produzido por Carlos Castaldi ("Aparição de Demônio em Catulé"). O trabalho deste autor nos apresenta um conflito que, além da necessidade de garantir a forma secular de vida através das posses das terras, mostra que os habitantes de Catulé (povoado de Malacachetas, situado no interior do estado mineiro) se entregavam a uma ordenação de vida religiosa - "a vida de purificação" - e que, entre a forma antiga de vida e a crueza do presente, pessoas mistificam a aparição do demônio, sendo levadas à prática de algo que a história não deveria deixar cair na mistificação: a auto-eliminação.

 

Diversas pessoas de núcleos familiares, e não se sabe se por transe místico ou por necessidade de eliminação do "excedente" de pessoas na comunidade. O único fato que a história nos prova com um breve olhar no ocorrido é que o latifúndio, antes inexistente, se expande de maneira surpreendente nessa região. E os núcleos de posseiros, até então livres, se deparam com uma forma repressiva; tanto na forma bruta com que foram desalojados de suas terras, como na nova lógica da organização do trabalho.

 

Ou seja, antes indivíduos que trabalhavam e consumiam o resultado de todo o seu trabalho digno; agora, com a formação dos latifúndios, vacilam no meio de reproduzir sua subsistência, diante da figura do "patrão". Onde construíam suas moradas e ali criavam gerações de descendentes, agora são obrigados a "morar de favor". Antes, organizavam a própria jornada de trabalho; agora se sujeitam à marcação e ao relógio do latifundiário.

 

Mais uma vez o "demônio" se manifesta para velar o que a estrutura capitalista causou nas entranhas da originalidade orgânica de muitas vidas. E, ante o espectro do regime comunista que balançou as estruturas sócio-econômicas da Europa no século XIX, veste sua verdadeira roupagem, o capitalismo árido.

 

Wellington Emiliano Morais faz parte da coordenação estadual do MST-MG.

Contato: moraismstbn(0)yahoo.com.br

 

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