A frase infeliz

 

Antigamente, quando uma situação mostrava-se insolúvel, repetia-se a frase carregada de sabedoria: “O que não tem remédio remediado está”. Se a ministra Marta Suplicy, ao invés do infeliz “relaxa e goza”, tivesse empregado outras palavras para nos pedir a virtude da paciência em relação à crise dos aeroportos, não perceberíamos tão claramente o tom de deboche.

Ocioso lembrar que o contexto original do “relaxa e goza” é o estupro. A vítima dessa violência, sem poder reagir perante o inevitável, comporta-se de maneira “esperta”... e procura aproveitar a ocasião da melhor maneira possível. Este sapientíssimo conselho casa-se com aquele outro, que Paulo Maluf ofereceu aos estupradores nos idos de 1989: “Se está com desejo sexual, estupra, mas não mata”.

Amplificada pela mídia, pelos blogs, pelos comentários e piadas que todos faremos em todos os lugares, a frase de Marta Suplicy ficará “grudada” à sua imagem. Esse fenômeno aconteceu também com o “imexível” de Magri, com o “esqueçam o que eu escrevi” de Fernando Henrique Cardoso, com o “sou professor, estou ministro”, de Eduardo Portella, responsável pela pasta da Educação no governo Figueiredo.

A propósito, e se a ministra Marta tivesse assumido a Educação? Diante dos problemas da área, possivelmente adotaria postura semelhante. Professores com baixos salários? Escolas caindo aos pedaços? Repetência? Analfabetismo? Greves nas universidades públicas? Evasão escolar? Escolas sem luz elétrica? “Relaxa... e goza”.

De re irreparabile ne doleas, diziam os romanos – é inútil sofrer pelo irreparável. Não adianta chorar o leite derramado... de hora em hora Deus melhora... o pior já passou... sei lá, qualquer frase seria melhor do que o “relaxa... e goza”.

A postura dos governantes não deve ser a do relaxamento. Ou talvez o que a ministra fez foi apenas deixar escapar algo que, longe dos microfones e holofotes, repete-se à boca pequena. Seria esta uma frase comum nas conversas dos ministros com seu presidente, ao analisarem os problemas nacionais? “Relaxa... goza”.

Estaremos fazendo tempestade (ou turbulências...) em copo d’água? Será por falta de assunto, de escândalos, de notícias, que a frase da ministra ganhou destaque, virou manchete?

Em boca fechada não entra mosca, ou mosquito. Ou da boca sai o que de fato pensamos. A ministra Marta abriu o coração. Para ela, a melhor solução, no momento, é o mal menor deste gozo. Atrasos, vôos cancelados? Ladies and gentlemen, relaxem... e gozem.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site: http://www.perisse.com.br

 

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