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Eleição 2010: entre o escândalo e o escárnio Imprimir E-mail
Escrito por Wagner Iglecias   
Sexta, 24 de Setembro de 2010
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A eleição presidencial deste ano é a sexta desde 1989, quando o Brasil voltou a eleger seus presidentes de forma direta. Uma eleição até aqui modorrenta, com pouca ou nenhuma discussão real de propostas para o país. Caminhamos para um pleito no qual, segundo as pesquisas, a maioria do eleitorado votará de maneira bem pragmática, conservadora, quase interesseira. A melhora das condições de vida dos brasileiros é notória nesta década, e o voto em Dilma Rousseff reflete, talvez mais do que o reconhecimento ao trabalho de Lula, o receio de que dar a vitória à oposição possa mudar, para pior, o rumo das coisas. Até aí, nenhuma novidade no front: a maioria dos brasileiros votou em Fernando Henrique em 1994 e o reelegeu em 1998 a partir da melhoria das condições de vida proporcionada pela estabilidade econômica do Plano Real e pela desconfiança de que uma mudança de rumos àquela altura pudesse representar mais perdas do que ganhos.

 

Por conta do sucesso econômico do governo Lula, a tarefa da oposição nesta eleição sempre foi tida como inglória, mesmo antes de a campanha começar. O brasileiro vota com o bolso, como de resto ocorre em muitas partes do mundo. Como então convencer o eleitorado a optar pela alternância, se o cálculo da maioria das pessoas as leva a constatar que suas vidas melhoraram em relação a dez anos atrás? Provavelmente daí resulte a trajetória errante da campanha de José Serra, que passou meses a fio sem saber se elogiava ou se criticava Lula, se resgatava o legado de Fernando Henrique ou se o escondia.

 

Estes dias têm sido de tiroteio, de blefes, de movimentos contraditórios. Fala-se muito em balas de prata, há inúmeros interesses em jogo, que ultrapassam inclusive a disputa partidária e eleitoral, como se sabe. Mas independentemente do que disserem as urnas na noite de 3 de outubro, uma das questões mais relevantes desta eleição, a ser analisada no futuro, é o enfraquecimento das duas principais legendas do país, em que pese a quantidade de votos que venham a obter e a quantidade de governadores e congressistas que venham a eleger.

 

Embora tenha surgido no ABC paulista, região onde se localizava, nos anos 1970, o que havia de mais avançado no capitalismo brasileiro, o PT carregava em sua origem duas bandeiras: a do socialismo e a da ética na política. A bandeira do socialismo o partido abandonou há tempos, talvez desde o congresso interno de 1995, ou antes. A bandeira da ética na política foi seriamente comprometida com o escândalo do mensalão, em 2005. E continua a sê-lo a cada nova denúncia de mau uso do dinheiro público que atinge o partido e suas administrações, em especial o governo federal. E a cada vez que é tratada com escárnio por parte daqueles que durante anos se apresentaram para a sociedade brasileira como diferentes dos velhos donos do poder e do sistema político tradicional e seus costumes daninhos. De 2005 para cá, boa parte do eleitorado passou a ter a impressão de que o petismo converteu-se à normalidade do jogo sujo, com o qual gente comum identifica a atividade política. E isso é extremamente grave, pois do petismo se esperava algo diferente, e isso esperavam muitos, até os que nunca votaram no PT. Daí a grande frustração que setores médios da sociedade tiveram com o partido nos últimos anos.

 

O PSDB, por sua vez, também se enfraquece muito neste pleito. E mais que o PT, obviamente, diante da provável derrota eleitoral. Quando no poder, no entanto, o partido construiu um legado extremamente importante para os dias de hoje, que foi o fim da inflação. Foram os tucanos, em grande medida, que reestruturaram, para o bem e para o mal, o Estado brasileiro, e as conseqüências daquela reestruturação estão aí, tanto para quem governou depois deles, quanto para a sociedade e para o mercado.

 

Mas o PSDB parece que envelheceu. Continuou a ser um partido de quadros, elitizado, comandado por uma geração já veterana, que ao que tudo indica perdeu a capacidade de compreender as transformações pelas quais o país tem passado. É de se lamentar que uma agremiação com alguns dos expoentes intelectuais que possui tenha entrado numa campanha presidencial quase que reduzida a um denuncismo moralista, muitas vezes requentado, diante do qual qualquer projeto de governo ou qualquer idéia para o país passam despercebidos, se é que existem. A aposta no escândalo, dirigida a uma sociedade que vive melhor hoje que há uma década e que, em grande medida, acha que "todos os políticos são iguais", só pode resultar no que está resultando, pelo menos até o momento: em nada. Como conseqüência só resta a alguns insinuar, entre a raiva e o muxoxo, que "o povo não sabe votar" e que estaríamos diante do ocaso da democracia brasileira, dois óbvios exageros.

 

PT e PSDB se enfraquecem nesta eleição, perdem um pouco mais a energia inovadora que, cada qual a seu modo, tiveram um dia, porque mimetizam as piores características de seus respectivos eleitorados. O PT tem hoje um eleitorado expandido, e sua pregação pragmática vai ao encontro e se alimenta das novas e crescentes parcelas de eleitores conquistadas pelo partido de 2002 para cá. Esse petismo pragmático e conservador dos dias de hoje não é muito diferente do eleitor que passou a apoiá-lo mais recentemente, e lembra muito pouco aquela interessante alternativa eleitoral surgida em 1982, a qual representava uma lufada de ar fresco na cena política brasileira da época. Já o PSDB, que vê hoje diminuído seu market share eleitoral, aferra seu discurso naqueles segmentos que, até a última conseqüência, lhes são e serão fiéis em voto. Modula sua pregação eleitoral a partir do que lhes sopram seus eleitores mais reacionários e elitistas, desde sempre indispostos a reconhecer qualquer mérito em Lula e no seu governo.

 

Neste sentido, a eleição de 2010 talvez seja a mais pobre, desde o pleito de 1989, em termos de idéias inovadoras para o país. Ficamos reduzidos ao embate do "mais do mesmo" contra o "pode mais". Entre o escândalo e o escárnio, ou, melhor dizendo, o contrário.

 

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

 

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Última atualização em Sábado, 25 de Setembro de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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