Estados Unidos: a possibilidade eleitoral do Partido do Chá

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Embora faltem dois anos para a eleição presidencial nos Estados Unidos, os pré-candidatos republicanos começam a preparar-se de maneira acurada para a disputa, ou seja, a identificar possíveis bases fora de seus estados e naturalmente bons arrecadadores.

 

A partir de então, eles se organizam em comitês e se dedicam a conquistar a atenção de um segmento importante do eleitorado, o que transita comumente entre os dois grandes partidos do país. É esta a parcela do eleitorado que mais influencia os delegados dos chamados estados roxos, cor relacionada à combinação do vermelho e do azul, isto é, unidades da federação em que não há grande vantagem nem dos republicanos, nem dos democratas.

 

Na eleição presidencial de 2008, seis estados estiveram em tal situação: quatro para os democratas, com a presença do da Flórida, um dos com mais votos no Colégio Eleitoral, e apenas dois para os republicanos, com o do Missouri tendo proporcionado a menor diferença: meros 0,14%.

 

No pleito de 2012, o cenário apresentar-se-ia bastante perturbador ao Partido Republicano no tocante ao poder de atração dos eleitores pendulares, observados de modo geral como moderados, uma vez que se mantém constante a pressão dos conservadores dentro da própria agremiação em torno da reiteração de determinados valores.

 

Por seu turno, estes eleitores deslocam-se também, porém sempre mais à direita. No momento, isto ocorre por meio de uma crescente terceira via, o denominado Partido do Chá, cujo desempenho nas prévias de setembro foi considerado bastante satisfatório.

 

Ressalte-se que ele não é ainda uma agremiação partidária de fato – seus simpatizantes abrigam-se em sua maior parte no Partido Republicano. Alguns planejam disputar a eleição de novembro como independentes.

 

Nomes tradicionais da política associam-se à nova via, como Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas, Mitt Romney, ex-governador de Massachusetts, e mesmo Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York. O que mais se destaca, no entanto, é o da ex-governadora do Alasca, Sarah Palin, parceira da malograda chapa republicana à Casa Branca em 2008.

 

Entre os chazeiros, Palin e Huckabee poderiam ser em 2012 postulantes à presidência da República. Dentro da agremiação, vários analistas consideram tal movimentação a primeira cizânia significativa desde a candidatura presidencial de Ted Roosevelt em 1912, pelo Partido Progressista.

 

A despeito de uma possível visão alarmista, os simpatizantes do Chá têm demonstrado capacidade expressiva de organização, inesperada até pouco tempo para muitas lideranças tradicionais do Partido Republicano.

 

Isto se observa no resultado das prévias de Delaware, em que um ex-governador, Mike Castle, perdeu a indicação para o senado, e nas de Nova York, onde um ex-deputado, Rick Lazio, não logrou êxito em sua aspiração.

 

Em Delaware, estado tradicionalmente democrata, a expectativa havia sido a de que os eleitores republicanos optariam por um moderado, no caso Castle, governador por duas vezes e descendente direto de um dos pais fundadores, Benjamin Franklin. As pesquisas haviam indicado sua liderança até as vésperas do pleito. No fim, Christine O’ Donnell superou-o por seis pontos percentuais.

 

Até o final de 2009, seu nome fora avaliado como o mais adequado para contrapor-se ao filho do vice-presidente Joe Biden, ocupante do assento por mais de um quarto de século. No entanto, Joseph ‘Beau’ Biden III desistiu em janeiro do presente ano. Veterano da Guerra do Golfo na condição de oficial da Guarda Nacional, ele é atualmente o Procurador-Geral de Delaware.

 

Sem Beau Biden, os democratas optaram por lançar Chris Coons. Este, por seu turno, tem sido politicamente gentil com Castle, com o objetivo de conquistar votos dos republicanos desencantados com o extremismo.

 

Na prática, a ortodoxia republicana defendida pelos chazeiros, em vez de reforçar o partido eleitoralmente, pode prejudicá-lo na eleição de novembro. Em Nevada, o assento senatorial a ser renovado em novembro tem por titular Harry Reid, em seu quarto mandato. Mesmo desgastado, é possível que o democrata se reeleja diante do radicalismo de sua oponente, Sharron Angle.

 

Por outro, há defensores do dogmatismo dos chazeiros. Para eles, a defesa firme de certos princípios renova o Partido Republicano, desanimado após a crise econômica de 2008 e após a derrota do senador John McCain. Nesse sentido, o entusiasmo presente poderia estimular a ida às urnas. Lembram eles que a disputa interna é saudável, tendo em vista o aperfeiçoamento das propostas.

 

Na prática, a preocupação dos estrategistas republicanos com os chazeiros, além do conservadorismo extremado, é a falta de experiência. Em sua maioria, eles não desfrutam de experiência legislativa ou executiva, o que poderá inibir o eleitor a conceder-lhe o voto, ao preocupar-se com o risco de aventureirismo, ainda mais em um período de recuperação econômica.

 

Uma das exceções é a candidatura de Marco Rubio na Florida. Ele recentemente ocupou a presidência da Assembléia Estadual - janeiro de 2007 a janeiro de 2009 – e tem sido deputado desde 2001.

 

Eis, portanto, o paradoxo do Partido Republicano: a maior fidelidade aos princípios da agremiação poderá resultar na sua diminuição, a datar de novembro próximo.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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Comentários   

0 #1 Que partido do chá?José Almeida de Souza Jr. 01-10-2010 15:23
Que negócio é esse de "partido do chá"? A meu ver, a tradução correta é " a festa ou farra do chá" (tea party), evento racista em sua origem, quando colonos americanos brancos, sem coragem de se assumirem como tal, fantasiaram-se de indígenas e jogaram ao mar um carregamento de chá taxado pelos britânicos. É um evento comemorado por lá como formador da nacionalidade e estopim da guerra de independência americana no século 18.
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